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Q3737216 Português

 A VIDA É COMO A DENGUE

Renato Essenfelder

Os sintomas foram se acumulando rapidamente. No intervalo de dois ou três dias, estavam todos lá: cansaço, depois cansaço extremo. Moleza, fraqueza. Inapetência. Enxaqueca em grau até então desconhecido (pode respirar mais baixo, por favor?) - e já não lembrava nem o que havia almoçado horas antes. Enjoos. Nas semanas anteriores, a dor na coluna havia me levado duas vezes ao PS Ortopédico (Primeiro foram os anti-inflamatórios, depois os analgésicos, depois as bolsas térmicas, depois acupuntura, depois RPG e então, enfim, admitamos: só Deus). Mas só quando surgiu a febre alta, repentina, instantânea, suspeitei realmente.
(...)
Fui acometido por uma certeza fria de que era dengue. A dengue daria sentido a tudo, ao cansaço, à insatisfação, à moleza, à inapetência. À vida, nestes dias. Era dengue. Preparei as malas para ir ao hospital e decretar triunfalmente: estou com dengue. Meus amigos tiveram dengue. Colegas de trabalho tiveram dengue. Matei um mosquito de listras brancas dentro do meu carro esses dias. Tenho todos os sintomas do Google, digo, da dengue, portanto é saber qual tipo e se vou sobreviver. O médico contestou. Fez-me pagar um exame particular, já que os planos de saúde já não cobrem mais testes de dengue - como se sabe, servem para todas as coisas de que não precisamos.
Paguei para ver.
Não era dengue. Fiquei desconcertado. O rosário que daria sentido aos meus sintomas - e a mais do que isso, aos meus dias - se desfazia.
Não era dengue, era a vida.
Aquela doença que me andava deprimindo, exaurindo, que na quinta-feira às sete horas da noite engolfou meu corpo na cama como um oceano de algodão - era a vida.
Era a vida, que também derruba. A vida, que não é transmitida por mosquitos, mas por mães, e da qual a gente só se lembra assim, de vez em quando, quando um mosquito inocula um falso vírus, quando uma dor trava a coluna, quando alguém próximo morre.
A vida, que, quando ignorada, volta-se contra nós de mansinho, com lábios de Monalisa, enfraquecendo pernas e pés, costas e ombros, turvando a vista e ricocheteando furiosamente nas paredes do crânio até que nos apercebamos dela. A vida, cachorro que morde a mão, cachorro cuja indignação é inexplicável até que notada.
A vida de minhas retinas tão fatigadas. A vida de acordar muito cedo, estender-se na rua até tarde, culpar- se pela pouca atenção à família, à mulher, ao cachorro, às crianças e velhos que morrem sem vida; ao corpo, ao sono, à cabeça. A vida de São Paulo, Brasil, classe média, escritor fatigado de 34 anos.
Eu não sei se fez sol ou se choveu, ontem à tarde. Não lembro o que comi no almoço. Tenho 16 relatórios para esta semana.
A vida é como a dengue. 

(Fonte: https://www.estadao.com.br/emais/renatoessenfelder/a-vida-e-como-a-dengue/ - Adaptado)

Assinale a alternativa em que o trecho transcrito do texto apresenta uma intercalação dentro dele, ou seja, um período que interrompe a sequência normal do trecho, com o objetivo de fazer referência a uma situação paralela e complementar ao que está sendo tratado.
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central: Pontuação – Uso dos Parênteses e Intercalação de informações

Esta questão avalia a capacidade do candidato de identificar um recurso textual muito cobrado em provas: informação acessória intercalada, ou seja, um comentário ou explicação incluída em meio à frase, geralmente marcada por parênteses, travessões ou vírgulas, conforme a norma-padrão da língua portuguesa (cf. Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa).

Justificativa da alternativa correta (C):

A alternativa C (“Enxaqueca em grau até então desconhecido (pode respirar mais baixo, por favor?) - e já não lembrava...”) apresenta uma informação acessória entre parênteses. Veja:

Enxaqueca em grau até então desconhecido (pode respirar mais baixo, por favor?) - e já não lembrava nem o que havia almoçado horas antes.

No exemplo, o comentário entre parênteses é um intervalo na sequência principal da ideia. A informação traz uma observação subjetiva — dando ao texto um tom de conversa direta — mas, caso fosse retirada, o sentido principal permaneceria intacto. Isso caracteriza intercalação.

Análise das alternativas incorretas:

A) Embora esteja entre parênteses, o trecho todo é um segmento da narração e não interrompe uma frase principal. Não há intercalação de comentário, mas listagem de ações.

B) Não há informação intercalada, apenas enumeração dentro do período. A frase é direta.

D) Lista sintomas relacionados, sem interrupção nem inserção de ideia paralela.

E) Frase simples, sem qualquer informação acessória ou paralela.

Dica para concursos: Sempre que encontrar parênteses, travessões ou vírgulas em meio a uma frase, verifique se trazem uma explicação, comentário ou esclarecimento que poderia ser retirada sem prejuízo ao sentido; isso indica intercalação.

Segundo Bechara e o Manual de Redação da Presidência da República, os parênteses são usados para explicações, reflexões ou observações do autor que não fazem parte da estrutura sintática direta da frase.

Resumo: Alternativa C é a correta porque apresenta comentário acessório intercalado por parênteses, conforme exige a norma-padrão.

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