Pós virtual deve tornar relativo o valor de cursos tradicionais
Vinicius Torres Freire - Colunista da Folha 28 jan.2018 às 2h00
Quem faz mestrado ou doutorado acaba por ganhar mais do que um graduado no ensino superior na média, ésempre bom lembrar. Mas a anunciada revolução da automação, da inteligência artificial e da robótica dá o que pensar:
agora é o caso de se especializar no quê? Para complicar, a tecnologia modifica os ritmos e as necessidades deespecialização. Cursos virtuais, de duração variada e outros tipos de formação devem tornar relativo ou talvez logoobsoleto o valor de uma pós-graduação. Diante da incerteza, ficar paralisado de ansiedade não é obviamente uma saída.
O ajuste de economia e sociedade a uma revolução tecnológica pode ser lento e doloroso. Pode haver
desemprego crônico para muitas categorias de trabalhadores, como aconteceu na "era das revoluções" na Europa; podecair a participação dos salários na renda nacional, em favor do capital. Não está nem de longe certo, porém, que o cenárioserá de catástrofe. Enfim, do ponto de vista individual, é possível navegar no meio da tormenta.
A automação vai criar novos tipos de tarefas, como ocorre desde o século 18. Pode criar oportunidades para quemfaz a comunicação ("interface") dos serviços automatizados com o restante do público (além de emprego para criadores egerentes dessas tecnologias, claro).
As manufaturas serão ainda mais mecanizadas, como tem acontecido faz quase 250 anos. Organização deinformação, logística e estoques, contabilidade, serviços financeiros básicos, tradução, reconhecimento de padrões, previsões estatísticas elementares, construção civil e diagnósticos legais e médicos estão sendo automatizados. Mas
alguém terá de "treinar" esses sistemas artificiais, comunicar seus resultados a pessoas, cuidar de seus efeitos humanos eéticos, consertar e aperfeiçoar máquinas ou criar novos usos para robôs virtuais ou mecânicos, como contam DaronAcemoglu e Pascual Restrepo em artigo sobre como pensar a revolução econômica ("Artificial Intelligence, Automation andWork", 2018, na internet).
Devem surgir mais atividades a exigir raciocínio complexo, decisão em situações ambivalentes, comparações, solução abstrata de problemas, negociação, mediação. Ou em serviços que envolvam atividade física, empatia ecomunicação, como em entretenimento ou cuidados especializados de educação. E daí? É possível tirar alguma conclusãopara a pós-graduação que se pretende fazer no ano que vem? Difícil, claro. Mas a própria automatização mostra caminhos.
O treinamento quantitativo (matemática, em português claro) pode ajudar a navegar nesse novo universo, mesmoque você jamais venha a ser engenheiro, programador, matemático ou analista de big data. Vai fazer diferença ter
conhecimento técnico de sistemas de computação, de máquinas inteligentes e de tratamento de dados, o bastante aomenos para gerenciá-los ou pensar suas potencialidades nos negócios. Esse treinamento permite que se faça a ponteentre o mundo ultratécnico e outras atividades humanas e profissionais. Além do mais, melhor ter uma formação quefacilite novos aprendizados adiante. Uma base quantitativa pode ser relevante.
Aprender a trabalhar com o que está bem fora do núcleo da revolução técnica é uma alternativa. Isto é, dedicar-seàquelas atividades como serviços que envolvam simultaneamente presença física, empatia e comunicação, diga-se outravez. O que está fadado ao fim ou a pagar pouco é a atividade mecânica, rotineira, padronizada.
O mero fato de se dedicar a uma pós-graduação "sinaliza", como dizem os economistas, a capacidade de seesforçar. Mas esse efeito talvez entre em declínio. Mais importante, talvez, seja: a) estudar aquilo que lhe dê fundamentos
sólidos para aprender mais, mais tarde; b) preparar-se para o trabalho fora do núcleo tecnológico da revolução, ou: c)
mergulhar no olho do furacão e se tornar um especialista da área.
FREIRE,V.T. Pós virtual deve tornar relativo o valor de cursos tradicionais. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2018/01/1953329-o-que-se-ganha-com-uma-pos.shtml>. Acesso em: 04 nov. 2019
O uso do marcador discursivo “enfim”, no 2º parágrafo do texto, objetiva: