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Q3452215 Português
INSTRUÇÃO: Leia o texto I para responder à questão.

Texto I

    A inveja sempre foi um assunto das religiões monoteístas e politeístas. Sua força foi constantemente observada e combatida. Na Bíblia, a inveja está na serpente que aborda Adão e Eva no paraíso, mas também no gesto dos irmãos de José que vendem o irmão caçula para mercadores egípcios, assim como no ato de Caim matando Abel ou no de Pilatos entregando Jesus para ser morto em vez de Barrabás. A própria rivalidade de Esaú e Jacó carrega algo de inveja.
    Na mitologia grega, ela é personificada pelo deus Phthónos, causador de danos. No candomblé, a inveja é Ilara, uma força maléfica que deve ser evitada a todo custo. Afeto fundador da cultura ocidental, no Gênese bíblico, a inveja é o sentimento do diabo, personificado na serpente que se move para corromper a inocência do casal criado por Deus. A tentação do mal nada mais é do que a armadilha da intriga, tática habitual do invejoso em seu gesto de provocar destruição por meio de manipulações psíquicas e linguísticas.
    A queda da inocência, posição de felicidade de quem vive no Paraíso, resulta no conhecimento, e não se pode dizer que ela não tenha sido provocada pelo cinismo insidioso, rastejante e vil da cobra invejosa. Mesmo que alguém ache que valha a pena pagar o preço pelo conteúdo descoberto, a saber, o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, ninguém poderá dizer que a intenção da cobra fosse boa.
    A história da inveja confunde-se com a história de outras paixões tristes como o ódio, em cujas manifestações ela se torna conhecida. Na contramão, a inveja é algo que se esconde. Vivida por muitos como um tormento silencioso, ela expõe a verdade do invejoso para ele mesmo. Trata-se, portanto, de uma afetividade profundamente paradoxal que muitas pessoas exercitam ao longo da experiência humana e responde à questão sobre quem se é diante dos outros quando a existência de alguém traz sofrimento porque, não sendo esse alguém, o invejoso já não é ninguém.
    A inveja é um afeto impopular. Admiração sem amor, êxtase sem prazer, apetite sem desejo, disposição sem amizade, fascínio sem admiração, olhar que devora sem fome que o desculpe. Paixão envergonhada, a inveja é um sentimento que causa mal-estar em quem o sente, tendo como alvo um outro que, na posição de invejado, não sentirá nada parecido com seu algoz. Com sorte, o invejoso permanecerá inativo e em silêncio, afogado em seu próprio mal-estar. Infelizmente, nem sempre é assim, e os efeitos funestos dessa condição podem ser experimentados da pior forma por vítimas envenenadas até a morte.
    Fingida, a inveja flutua na linguagem, maculando e construindo verdades, sempre parceira da intriga e da mentira. A inveja é o contrário da coragem sem ser a mera covardia do amedrontado, pois ela implica a trama, cheia de métodos. Como o Iago de Shakespeare, o invejoso faz desvios para alcançar seu objetivo, que é destruir o outro que ele não pode ser. Ele atalha, sorrateiro, como a menina Ofélia, de Clarice Lispector, corroborando a miséria que toma conta dos sentidos.
    A inveja está na base do ódio, efeito de um abandono original, de um lugar desamado, de uma má acolhida no mundo. Uma estética e uma iconografia da inveja, assim como uma psicanálise e uma política desse sentimento, podem ser elucidativas a respeito da sua envergadura fenomenológica no todo da experiência humana em sua vocação para a infelicidade.

TIBURI, Márcia. Dossiê sobre a inveja. Revista Cult, São Paulo, p. 3-5, 2024. (Adaptado).
Com base na modalidade padrão escrita da Língua Portuguesa, analise os trechos extraídos do texto I e as justificativas apresentadas sobre eles. Em seguida, assinale a afirmativa correta.
Alternativas

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Tema central: A questão aborda principalmente o uso da pontuação, em especial a aplicação da vírgula para marcar o deslocamento de adjuntos adverbiais e separar apostos explicativos, elementos essenciais da norma-padrão da Língua Portuguesa. Também envolve análise sintática, classificação de orações e funções sintáticas de termos destacados.

Alternativa correta – C:

No trecho analisado, vê-se claramente o emprego correto da vírgula: "Na mitologia grega, ela é personificada pelo deus Phthónos, causador de danos."

  • A vírgula após “Na mitologia grega” serve para marcar o deslocamento do adjunto adverbial de lugar. Segundo Bechara, adjuntos adverbiais antepostos à oração pedem vírgula para clareza.
  • Já a vírgula após “Phthónos” separa um aposto explicativo (“causador de danos”), que detalha/equaciona o termo anterior, também como prevê a Nova Gramática do Português Contemporâneo (Cunha & Cintra).

Destaque: Ambas as vírgulas refletem o uso prescrito pela norma-padrão para clareza da leitura. É essa análise integrada de função sintática e pontuação que fundamenta a alternativa correta.

Análise das alternativas incorretas:

A) O termo “sorrateiro” funciona como predicativo do sujeito, pois qualifica o sujeito “Ele” (o invejoso), e não como adjunto adnominal. O adjunto adnominal atribui característica a um substantivo, não a um sujeito de verbo de ligação.

B) O verbo “implicar” é transitivo direto na frase (“implica a trama”), exigindo complemento sem preposição, o que estava correto — porém, a justificativa sobre o verbo ser intransitivo está errada, pois verbo intransitivo não exige complemento algum.

D) “Que deve ser evitada a todo custo” é uma oração subordinada adjetiva restritiva, pois limita o sentido de “uma força maléfica”. Não é adverbial consecutiva (que indicaria consequência), portanto, a classificação está equivocada.

Estratégia de prova: Sempre identifique a função do termo destacado na frase, relacione-o com o uso da vírgula segundo a norma-padrão e, em dúvidas, consulte a classificação sintática — isso elimina erros por pegadinhas de generalização ou confusão de conceitos.

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Comentários

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No trecho: “Na mitologia grega, ela é personificada pelo deus Phthónos, causador de danos.”, o emprego da vírgula cumpre, respectivamente, a função de marcar o deslocamento de um adjunto adverbial na oração e de separar um aposto explicativo.

adjunto adnominal não vêm entre vírgulas

C

a primeira isola o adjunto adverbial deslocado ("Na mitologia grega") e a segunda separa o aposto explicativo ("causador de danos"). As demais falham: na letra A, "sorrateiro" atua como predicativo do sujeito, não adjunto; na letra B, o verbo "implicar" no sentido de acarretar é transitivo direto, exigindo complemento direto; na letra D, a oração introduzida pelo pronome "que" classifica-se como subordinada adjetiva restritiva, e não adverbial.

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