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Q3452214 Português
INSTRUÇÃO: Leia o texto I para responder à questão.

Texto I

    A inveja sempre foi um assunto das religiões monoteístas e politeístas. Sua força foi constantemente observada e combatida. Na Bíblia, a inveja está na serpente que aborda Adão e Eva no paraíso, mas também no gesto dos irmãos de José que vendem o irmão caçula para mercadores egípcios, assim como no ato de Caim matando Abel ou no de Pilatos entregando Jesus para ser morto em vez de Barrabás. A própria rivalidade de Esaú e Jacó carrega algo de inveja.
    Na mitologia grega, ela é personificada pelo deus Phthónos, causador de danos. No candomblé, a inveja é Ilara, uma força maléfica que deve ser evitada a todo custo. Afeto fundador da cultura ocidental, no Gênese bíblico, a inveja é o sentimento do diabo, personificado na serpente que se move para corromper a inocência do casal criado por Deus. A tentação do mal nada mais é do que a armadilha da intriga, tática habitual do invejoso em seu gesto de provocar destruição por meio de manipulações psíquicas e linguísticas.
    A queda da inocência, posição de felicidade de quem vive no Paraíso, resulta no conhecimento, e não se pode dizer que ela não tenha sido provocada pelo cinismo insidioso, rastejante e vil da cobra invejosa. Mesmo que alguém ache que valha a pena pagar o preço pelo conteúdo descoberto, a saber, o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, ninguém poderá dizer que a intenção da cobra fosse boa.
    A história da inveja confunde-se com a história de outras paixões tristes como o ódio, em cujas manifestações ela se torna conhecida. Na contramão, a inveja é algo que se esconde. Vivida por muitos como um tormento silencioso, ela expõe a verdade do invejoso para ele mesmo. Trata-se, portanto, de uma afetividade profundamente paradoxal que muitas pessoas exercitam ao longo da experiência humana e responde à questão sobre quem se é diante dos outros quando a existência de alguém traz sofrimento porque, não sendo esse alguém, o invejoso já não é ninguém.
    A inveja é um afeto impopular. Admiração sem amor, êxtase sem prazer, apetite sem desejo, disposição sem amizade, fascínio sem admiração, olhar que devora sem fome que o desculpe. Paixão envergonhada, a inveja é um sentimento que causa mal-estar em quem o sente, tendo como alvo um outro que, na posição de invejado, não sentirá nada parecido com seu algoz. Com sorte, o invejoso permanecerá inativo e em silêncio, afogado em seu próprio mal-estar. Infelizmente, nem sempre é assim, e os efeitos funestos dessa condição podem ser experimentados da pior forma por vítimas envenenadas até a morte.
    Fingida, a inveja flutua na linguagem, maculando e construindo verdades, sempre parceira da intriga e da mentira. A inveja é o contrário da coragem sem ser a mera covardia do amedrontado, pois ela implica a trama, cheia de métodos. Como o Iago de Shakespeare, o invejoso faz desvios para alcançar seu objetivo, que é destruir o outro que ele não pode ser. Ele atalha, sorrateiro, como a menina Ofélia, de Clarice Lispector, corroborando a miséria que toma conta dos sentidos.
    A inveja está na base do ódio, efeito de um abandono original, de um lugar desamado, de uma má acolhida no mundo. Uma estética e uma iconografia da inveja, assim como uma psicanálise e uma política desse sentimento, podem ser elucidativas a respeito da sua envergadura fenomenológica no todo da experiência humana em sua vocação para a infelicidade.

TIBURI, Márcia. Dossiê sobre a inveja. Revista Cult, São Paulo, p. 3-5, 2024. (Adaptado).

Nas alternativas a seguir, a palavra destacada pode ser substituída pelo termo entre parênteses sem alteração do seu sentido original, exceto:

Alternativas

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Comentário do gabarito: Questão de Semântica – Substituição vocabular

Esta questão exige interpretação de texto e conhecimento semântico, ou seja, capacidade de reconhecer se substituições de palavras mantêm o sentido original, respeitando a norma-padrão da Língua Portuguesa.

Tema central: Substituição de termos no texto, com foco em sinônimos rigorosos. Segundo autores como Evanildo Bechara, “sinônimos perfeitos são raros; a maior parte das substituições muda nuanças de sentido, o que deve ser observado cuidadosamente em textos dissertativos.” (Moderna Gramática Portuguesa).

Justificativa para a alternativa correta (A):

No trecho: “uma afetividade profundamente paradoxal...”, o termo “paradoxal” refere-se a algo contraditório, que contém um paradoxo. “Paradigmática”, por sua vez, deriva de “paradigma”, isto é, exemplo ou modelo. São conceitos distintos:

  • Paradoxal: contraditório, incoerente.
  • Paradigmática: exemplificativa, modelar.

Sua troca altera o sentido original, tornando a frase incoerente dentro do texto, pois o autor explora o caráter contraditório da inveja, não seu papel exemplar.

Análise das alternativas incorretas:

B) Insidioso x Pérfido: Ambos remetem a traição, falsidade ou maldade sorrateira. Em contexto, a troca não altera sentido.

C) Funestos x Nefastos: Ambos significam desastrosos, causadores de infortúnio. São sinônimos plenos neste uso.

D) Maculando x Deturpando: “Macular” equivale a “manchar; corromper”. “Deturpar” é “desvirtuar, distorcer ou perverter”. No contexto, ambos expressam alteração negativa na linguagem e também podem ser trocados sem prejuízo ao sentido.

Dica para provas: Sempre confira se os termos são realmente equivalentes dentro do contexto. Palavras de senso semelhante podem ter funções distintas conforme o trecho, e a banca pode usar pares que parecem próximos, mas, na essência, desmontam a lógica do texto.

Resumo: A alternativa A é a correta, pois a troca de “paradoxal” por “paradigmática” modifica totalmente o sentido do texto. As demais mantêm o significado original.

Referências: Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), Cunha & Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo), Dicionário Aurélio.

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Comentários

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a) Paradoxal: algo que contém ou envolve um paradoxo (aparente contradição).

Paradigmática: algo que serve de modelo ou exemplo.

b) Insidioso: que age de forma sorrateira ou traiçoeira.

Pérfido: que trai a confiança; desleal.

c) Funestos: que causam dor ou tragédia; funerários.

Nefastos: que traz mau presságio ou resultados ruins.

d) Maculando: manchando, corrompendo.

Deturpando: distorcendo, alterando o sentido.

A

O termo paradoxal indica algo que encerra uma contradição ou que foge à lógica. Já a palavra paradigmática refere-se àquilo que serve como um paradigma, ou seja, um modelo ou padrão.

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