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Q3452213 Português
INSTRUÇÃO: Leia o texto I para responder à questão.

Texto I

    A inveja sempre foi um assunto das religiões monoteístas e politeístas. Sua força foi constantemente observada e combatida. Na Bíblia, a inveja está na serpente que aborda Adão e Eva no paraíso, mas também no gesto dos irmãos de José que vendem o irmão caçula para mercadores egípcios, assim como no ato de Caim matando Abel ou no de Pilatos entregando Jesus para ser morto em vez de Barrabás. A própria rivalidade de Esaú e Jacó carrega algo de inveja.
    Na mitologia grega, ela é personificada pelo deus Phthónos, causador de danos. No candomblé, a inveja é Ilara, uma força maléfica que deve ser evitada a todo custo. Afeto fundador da cultura ocidental, no Gênese bíblico, a inveja é o sentimento do diabo, personificado na serpente que se move para corromper a inocência do casal criado por Deus. A tentação do mal nada mais é do que a armadilha da intriga, tática habitual do invejoso em seu gesto de provocar destruição por meio de manipulações psíquicas e linguísticas.
    A queda da inocência, posição de felicidade de quem vive no Paraíso, resulta no conhecimento, e não se pode dizer que ela não tenha sido provocada pelo cinismo insidioso, rastejante e vil da cobra invejosa. Mesmo que alguém ache que valha a pena pagar o preço pelo conteúdo descoberto, a saber, o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, ninguém poderá dizer que a intenção da cobra fosse boa.
    A história da inveja confunde-se com a história de outras paixões tristes como o ódio, em cujas manifestações ela se torna conhecida. Na contramão, a inveja é algo que se esconde. Vivida por muitos como um tormento silencioso, ela expõe a verdade do invejoso para ele mesmo. Trata-se, portanto, de uma afetividade profundamente paradoxal que muitas pessoas exercitam ao longo da experiência humana e responde à questão sobre quem se é diante dos outros quando a existência de alguém traz sofrimento porque, não sendo esse alguém, o invejoso já não é ninguém.
    A inveja é um afeto impopular. Admiração sem amor, êxtase sem prazer, apetite sem desejo, disposição sem amizade, fascínio sem admiração, olhar que devora sem fome que o desculpe. Paixão envergonhada, a inveja é um sentimento que causa mal-estar em quem o sente, tendo como alvo um outro que, na posição de invejado, não sentirá nada parecido com seu algoz. Com sorte, o invejoso permanecerá inativo e em silêncio, afogado em seu próprio mal-estar. Infelizmente, nem sempre é assim, e os efeitos funestos dessa condição podem ser experimentados da pior forma por vítimas envenenadas até a morte.
    Fingida, a inveja flutua na linguagem, maculando e construindo verdades, sempre parceira da intriga e da mentira. A inveja é o contrário da coragem sem ser a mera covardia do amedrontado, pois ela implica a trama, cheia de métodos. Como o Iago de Shakespeare, o invejoso faz desvios para alcançar seu objetivo, que é destruir o outro que ele não pode ser. Ele atalha, sorrateiro, como a menina Ofélia, de Clarice Lispector, corroborando a miséria que toma conta dos sentidos.
    A inveja está na base do ódio, efeito de um abandono original, de um lugar desamado, de uma má acolhida no mundo. Uma estética e uma iconografia da inveja, assim como uma psicanálise e uma política desse sentimento, podem ser elucidativas a respeito da sua envergadura fenomenológica no todo da experiência humana em sua vocação para a infelicidade.

TIBURI, Márcia. Dossiê sobre a inveja. Revista Cult, São Paulo, p. 3-5, 2024. (Adaptado).
No processo de comunicação, a linguagem desempenha diferentes funções. Ao abordar a questão da inveja no primeiro parágrafo do texto, é correto afirmar que a autora faz uso da função 
Alternativas

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Tema central: Funções da linguagem. A questão exige reconhecer qual função da linguagem prevalece no primeiro parágrafo do texto, analisando como a autora aborda a inveja neste trecho.

Função referencial (ou denotativa): Centrada na transmissão objetiva de informações, visa informar e expor fatos. Tipicamente usada em textos jornalísticos, científicos e didáticos, caracteriza-se por clareza, objetividade e impessoalidade, como destacam Bechara e Cunha & Cintra. No texto, a autora narra, com exemplos bíblicos e históricos, como “A inveja sempre foi assunto das religiões monoteístas e politeístas” e cita episódios da Bíblia, sem opiniar ou poetizar.

Justificativa da alternativa correta (B): Ao apresentar exemplos históricos do fenômeno (serpente, irmãos de José, Caim e Abel, Pilatos), o objetivo é informar ao leitor sobre a presença da inveja em contextos religiosos, usando linguagem clara e objetiva, adequada à função referencial.

Análise das alternativas incorretas:

A) Função metalinguística – Incorreta. Essa função explica o próprio código (a linguagem falando de si mesma). No fragmento, não há explicações sobre o significado da palavra “inveja” ou sobre a própria linguagem, mas sim exposição de fatos.

C) Função poética – Incorreta. Essa função privilegia a forma da mensagem, usando linguagem figurada, ritmo ou estética. O texto é informativo, sem preocupação formal ou literária neste ponto.

D) Função fática – Incorreta. Visa manter ou testar o canal de comunicação (ex: “Alô!”). Não há trechos estabelecendo, testando ou encerrando contato; apenas exposição do conteúdo.

Estratégias para acertar questões desse tipo: Identifique qual elemento da comunicação (emissor, mensagem, canal, código, receptor, contexto) está em destaque. Busque palavras-chave de objetividade e ausência de opinião no trecho analisado.

Dica para concursos: A função referencial costuma aparecer em textos expositivos/descritivos. Fique atento às armadilhas: nem toda explicação é metalinguagem; nem toda escolha de palavras indica função poética!

Conclusão: A alternativa B é a correta pois o texto utiliza a função referencial da linguagem para expor informações históricas e exemplificar a inveja. Dominar este conteúdo é essencial para a leitura crítica de textos em provas de concursos.

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Comentários

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A) Função metalinguística – Incorreta. Essa função explica o próprio código (a linguagem falando de si mesma). No fragmento, não há explicações sobre o significado da palavra “inveja” ou sobre a própria linguagem, mas sim exposição de fatos.

B

O primeiro parágrafo foca em transmitir informações de forma clara e objetiva sobre a presença histórica do tema nas religiões. Essa centralidade na informação caracteriza a função referencial (ou denotativa) da linguagem. O trecho não foca no próprio código (metalinguística), na estética da mensagem (poética) nem na manutenção do canal de comunicação (fática), mas sim na apresentação de dados e exemplos bíblicos para expor o referente (o assunto central) ao leitor de maneira direta.

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