O propósito comunicativo central desse texto é

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Q3452209 Português
INSTRUÇÃO: Leia o texto I para responder à questão.

Texto I

    A inveja sempre foi um assunto das religiões monoteístas e politeístas. Sua força foi constantemente observada e combatida. Na Bíblia, a inveja está na serpente que aborda Adão e Eva no paraíso, mas também no gesto dos irmãos de José que vendem o irmão caçula para mercadores egípcios, assim como no ato de Caim matando Abel ou no de Pilatos entregando Jesus para ser morto em vez de Barrabás. A própria rivalidade de Esaú e Jacó carrega algo de inveja.
    Na mitologia grega, ela é personificada pelo deus Phthónos, causador de danos. No candomblé, a inveja é Ilara, uma força maléfica que deve ser evitada a todo custo. Afeto fundador da cultura ocidental, no Gênese bíblico, a inveja é o sentimento do diabo, personificado na serpente que se move para corromper a inocência do casal criado por Deus. A tentação do mal nada mais é do que a armadilha da intriga, tática habitual do invejoso em seu gesto de provocar destruição por meio de manipulações psíquicas e linguísticas.
    A queda da inocência, posição de felicidade de quem vive no Paraíso, resulta no conhecimento, e não se pode dizer que ela não tenha sido provocada pelo cinismo insidioso, rastejante e vil da cobra invejosa. Mesmo que alguém ache que valha a pena pagar o preço pelo conteúdo descoberto, a saber, o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, ninguém poderá dizer que a intenção da cobra fosse boa.
    A história da inveja confunde-se com a história de outras paixões tristes como o ódio, em cujas manifestações ela se torna conhecida. Na contramão, a inveja é algo que se esconde. Vivida por muitos como um tormento silencioso, ela expõe a verdade do invejoso para ele mesmo. Trata-se, portanto, de uma afetividade profundamente paradoxal que muitas pessoas exercitam ao longo da experiência humana e responde à questão sobre quem se é diante dos outros quando a existência de alguém traz sofrimento porque, não sendo esse alguém, o invejoso já não é ninguém.
    A inveja é um afeto impopular. Admiração sem amor, êxtase sem prazer, apetite sem desejo, disposição sem amizade, fascínio sem admiração, olhar que devora sem fome que o desculpe. Paixão envergonhada, a inveja é um sentimento que causa mal-estar em quem o sente, tendo como alvo um outro que, na posição de invejado, não sentirá nada parecido com seu algoz. Com sorte, o invejoso permanecerá inativo e em silêncio, afogado em seu próprio mal-estar. Infelizmente, nem sempre é assim, e os efeitos funestos dessa condição podem ser experimentados da pior forma por vítimas envenenadas até a morte.
    Fingida, a inveja flutua na linguagem, maculando e construindo verdades, sempre parceira da intriga e da mentira. A inveja é o contrário da coragem sem ser a mera covardia do amedrontado, pois ela implica a trama, cheia de métodos. Como o Iago de Shakespeare, o invejoso faz desvios para alcançar seu objetivo, que é destruir o outro que ele não pode ser. Ele atalha, sorrateiro, como a menina Ofélia, de Clarice Lispector, corroborando a miséria que toma conta dos sentidos.
    A inveja está na base do ódio, efeito de um abandono original, de um lugar desamado, de uma má acolhida no mundo. Uma estética e uma iconografia da inveja, assim como uma psicanálise e uma política desse sentimento, podem ser elucidativas a respeito da sua envergadura fenomenológica no todo da experiência humana em sua vocação para a infelicidade.

TIBURI, Márcia. Dossiê sobre a inveja. Revista Cult, São Paulo, p. 3-5, 2024. (Adaptado).
O propósito comunicativo central desse texto é
Alternativas

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Tema Central da Questão: Interpretação de texto, com foco no propósito comunicativo do texto, isto é, compreender qual a intenção principal do autor ao escrever o texto, habilidade muito frequente em provas para bibliotecário e áreas correlatas.

Justificativa da Alternativa Correta (C):

O texto apresenta uma análise ampla e profunda da inveja, abordando-a sob diferentes ângulos: religioso (tradições monoteístas e politeístas), psicológico (sentimento paradoxo, mal-estar do invejoso), social e literário (exemplos mitológicos e literários), fenomenológico e até político. Isso demonstra claramente uma perspectiva interdisciplinar. Ao pedir o "propósito comunicativo central", a banca avalia sua capacidade de interpretar não só o que é dito, mas para que é dito — segundo Koch (2003), trata-se de "detectar a intenção comunicativa global do texto". Assim, a alternativa C ("discorrer sobre a complexidade da inveja em uma perspectiva interdisciplinar") é a única que contempla a pluralidade de abordagens do texto e sua tese principal.

Análise das Alternativas Incorretas:

(A) Limita-se ao prisma religioso; porém, o texto extrapola esse viés, tratando também do psicológico, histórico, social e literário.

(B) Focaliza só os “malefícios” e desdobramentos atuais, enquanto o texto é mais analítico e abrangente, não se restringindo à descrição dos aspectos negativos.

(D) Destaca apenas o viés sociológico e literário e a ideia de “pluralidade subversiva”, que não é central no texto. O escopo da análise textual é maior e mais variado.

Estratégias para acerto:

Atenção a palavras que indicam abrangência: termos como “na mitologia”, “na Bíblia”, “na psicanálise”, “na cultura ocidental” mostram multiplicidade de enfoques. Busque a alternativa que abarca todas essas dimensões, não apenas uma.

Dica de bibliotecário: A interpretação criteriosa dos textos, conforme orientam Koch & Travaglia e a gramática normativa de Bechara, exige leitura integral, identificação de temas recorrentes e reconhecimento da perspectiva global adotada pelo autor.

Resumo: O propósito não é apenas narrar ou alertar, mas analisar a inveja em suas múltiplas faces, o que configura abordagem interdisciplinar.

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O texto, escrito por Márcia Tiburi, discorre sobre a complexidade da inveja em uma perspectiva interdisciplinar. Ao longo dos parágrafos, a autora explora o tema sob diversas abordagens, como:

  • Religiosa: Cita exemplos bíblicos (Caim e Abel, Adão e Eva, etc.) e da mitologia grega (deus Phthónos), além de referenciar o candomblé (Ilara).
  • Psicológica/Psicanalítica: Aborda a inveja como um "tormento silencioso", uma "paixão envergonhada" e um "afeto impopular" que expõe a verdade do invejoso para ele mesmo.
  • Literária: Menciona personagens como Iago, de Shakespeare, e Ofélia, de Clarice Lispector, para ilustrar a natureza sorrateira e destrutiva da inveja.

A autora não se limita a um único ponto de vista. Ela une diferentes campos do conhecimento — religião, mitologia, filosofia, psicanálise, sociologia e literatura — para construir uma análise completa e multifacetada sobre a inveja, o que justifica a escolha da alternativa C.

As outras alternativas estão incorretas porque:

  • A) apresentar as origens históricas e filosóficas da inveja sob um prisma religioso. Embora aborde aspectos religiosos, o texto vai muito além disso, incluindo análises literárias, psicológicas e sociais.
  • B) descrever os malefícios da inveja e seus desdobramentos na sociedade atual. O foco do texto é a natureza complexa da inveja em si, não apenas seus malefícios ou sua manifestação na sociedade atual.
  • D) explicitar a pluralidade subversiva da inveja por um viés sociológico e literário. O texto não se restringe a esses dois viéses. A análise é mais ampla e abrange outras áreas do conhecimento, como as já citadas.

fonte: Gemini

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