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Q2781838 Português

O sequestro das palavras


Gregório Duvivier


___Vamos supor que toda palavra tenha uma vocação primeira. A palavra mudança, por exemplo, nasceu filha da transformação e da troca, e desde pequena servia para descrever o processo de mutação de uma coisa em outra coisa que não deixou de ser, na essência, a mesma coisa – quando a coisa é trocada por outra coisa, não é mudança, é substituição. A palavra justiça, por exemplo, brotou do casamento dos direitos com a igualdade (sim, foi um ménage): servia para tornar igual aquilo que tinha o direito de ser igual, mas não estava sendo tratado como tal.

___No entanto as palavras cresceram. E, assim como as pessoas, foram sendo contaminadas pelo mundo à sua volta. As palavras, coitadas, não sabem escolher amizade, não sabem dizer não. A liberdade, por exemplo, é dessas palavras que só dizem sim. Não nasceu de ninguém. Nasceu contra tudo: a prisão, a dependência, o poder, o dinheiro – mas não se espante se você vir a liberdade vendendo absorvente, desodorante, cartão de crédito, empréstimo de banco. A publicidade vive disso: dobrar as melhores palavras sem pagar direito de imagem. Assim, você verá as palavras ecologia e esporte juntarem-se numa só para criar o EcoSport – existe algo menos ecológico ou esportivo que um carro? Pobres palavras. Não têm advogados. Não precisam assinar termos de autorização de imagem. Estão aí, na praça, gratuitas.

___Nem todos aceitam que as palavras sejam sequestradas ao bel prazer do usuário. A política é o campo de guerra onde se disputa a posse das palavras. A "ética", filha do caráter com a moral, transita de um lado para o outro dos conflitos, assim como a Alsácia-Lorena, e não sem guerras sanguinárias. Com um revólver na cabeça, é obrigada a endossar os seres mais amorais e sem caráter. A palavra mudança, que sempre andou com as esquerdas, foi sequestrada pelos setores mais conservadores da sociedade – que fingem querer mudar, quando o que querem é trocar (para que não se mude mais). A Justiça, coitada, foi cooptada por quem atropela direitos e desconhece a igualdade, confundindo-a o tempo todo com seu primo, o justiçamento, filho do preconceito com o ódio.

___Já a palavra impeachment, recém-nascida, filha da democracia com a mudança, está escondida num porão: emprestaram suas roupas à palavra golpe, que desfila por aí usando seu nome e seus documentos. Enquanto isso, a palavra jornalismo, coitada, agoniza na UTI. As palavras não lutam sozinhas. É preciso lutar por elas.


Observação: Após a coluna "O Sequestro das Palavras" ter sido publicada no jornal impresso, na segunda-feira, 21/3 de 2016, o colunista modificou seu texto e pediu para atualizá-lo na versão on-line.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2016/03/1752170-o-sequestro-das-palavras.shtml

As figuras de linguagem são estratagemas que um autor pode empregar em seu texto para persuadir seu leitor. No texto anterior, qual figura de linguagem foi amplamente usada para esse fim?

Alternativas

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Gabarito: D - Prosopopeia

1. Tema central da questão

Esta questão aborda figuras de linguagem, especificamente a identificação da mais usada no texto de Gregório Duvivier. Para acertar, é preciso reconhecer os recursos estilísticos empregados pelo autor para tornar a mensagem mais persuasiva e envolvente.

2. Resumo teórico

Figuras de linguagem são recursos expressivos presentes nos textos para dar ênfase, emocionar ou criar imagens mentais. As principais são:

  • Metáfora: comparação implícita entre elementos diferentes (ex: “coração de pedra”).
  • Metonímia: uso de uma palavra por outra com a qual tem relação próxima (ex: “ler Machado de Assis”, em vez de “ler livros de Machado de Assis”).
  • Aliteração: repetição de consoantes para criar efeito sonoro (ex: “o rato roeu a roupa”).
  • Prosopopeia (ou personificação): atribuição de características humanas a seres inanimados ou abstratos (ex: “o vento sussurrava”).

Essa classificação pode ser consultada em gramáticas como Gramática Houaiss da Língua Portuguesa.

3. Justificativa da alternativa correta

A resposta certa é D – Prosopopeia. Ao longo do texto, o autor atribui intenções, sentimentos e ações humanas às palavras – por exemplo, apresenta-as como “filhas” de outros conceitos, fala que elas “cresceram”, “foram contaminadas”, “não sabem escolher amizade”, “só dizem sim” e até “agonizam na UTI”. Esses exemplos evidenciam o uso recorrente da prosopopeia, tornando as palavras personagens ativas e, assim, facilitando a compreensão e a crítica do autor.

4. Análise das alternativas incorretas

  • A – Aliteração: Não há destaque para repetição de consoantes no texto, portanto, não é a figura predominante.
  • B – Metáfora: Apesar de existirem metáforas (como “sequestro das palavras”), o emprego de características humanas é muito mais frequente e marcante.
  • C – Metonímia: Não há uso expressivo de trocas de sentido por contiguidade (ex: autor pela obra) no trecho destacado.

5. Estratégias para interpretação

Ao se deparar com essa questão, busque sempre identificar exemplos no texto que demonstrem claramente a figura de linguagem citada nas alternativas. Fique atento quando ideias abstratas ganham vida, sentimentos ou ações humanas – geralmente é prosopopeia. Lembre-se de não confundir metáfora (comparação) com prosopopeia (humanização).

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