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Q3910300 Português

Leia o texto a seguir e responda à questão.


Os nascimentos das línguas são misteriosos. É difícil precisar em que momento um grupo de pessoas deixa de se comunicar de uma forma para se comunicar de outra. Isso porque a transição de um sistema linguístico para outro raramente é abrupta, já que as línguas nascem da interação, da fusão e da troca. Frequentemente, várias línguas coexistem por longos períodos antes de emergirem como dominantes, embora esse domínio nunca seja permanente. A boa notícia é que os falantes de português terão uma visão privilegiada deste fantástico mundo de nascimentos, mortes e renascimentos. Em movimento sincrônico, quase astral, duas iniciativas abordam as misturas e confluências que resultaram na língua de Camões, mas também de Machado de Assis.


Vindo do lado de lá do Atlântico, acaba de aportar no Brasil o livro do filólogo português Fernando Venâncio. Assim nasce uma língua tem o mérito de refutar as visões puristas que defendem que o português nasceu no século 12, com a formação do reino de Portugal, descendendo diretamente da língua romana. Para o autor, a língua portuguesa teve uma origem muito mais prosaica, cerca de seis séculos antes, derivando do galego, língua falada por camponeses no noroeste da Península Ibérica. A conclusão, aparentemente simples, joga por terra o argumento xenófobo que por séculos inferiorizaram as variações faladas fora do território europeu: a ideia de que nossa língua nasceu com os portugueses. “O português considera a si mesmo como um ser único. Nas suas formas mais extremas, esta convicção chega a supor uma intervenção providencial. Portugal teria, e isso desde sempre, um povo, uma cultura, uma religião e, claro, uma língua própria”, disse o autor à Veja.


Como conceber, então, que um idioma igual ao português existisse antes mesmo de Portugal? “Nesse caso, os sentimentos se misturam”, pondera Venâncio. “Nós, portugueses, concebemos mal que o nosso idioma tenha sido engendrado fora do nosso território. E, efetivamente, toda a história do português acaba por ser a de um gradual distanciamento do galego”. Distância esta que o autor tenta, agora, encurtar trazendo esse passado que por muito tempo foi jogado para baixo do tapete e evidenciando as misturas incômodas e diversas que sempre constituíram a língua.


Ao analisar certas proximidades, porém, Venâncio não deixa de notar evidentes afastamentos. O livro conclui que esta língua está fadada a dividir-se em outros idiomas, como outrora aconteceu com os romanos. “A história do Português mostra que ele sabe se adaptar com facilidade. Ele superou as dores do crescimento e se apresenta de rosto renovado. Isto permite prever que brasileiros, africanos e portugueses continuarão a dispor de um idioma rico e dúctil, sem receio das variedades e mesmo das diferenças”, sintetiza o autor que lembra que a pouca consideração dada por Portugal à língua que vinha se constituindo no Brasil resultou em uma invejável liberdade criativa para os brasileiros que, enquanto povo, tiraram o máximo proveito disso.


Do lado de cá do Atlântico, as línguas se encontram. Se o português de Portugal se formou a partir do galego, foi no Brasil que ele encontrou seu âmago, misturando-se a outras formas de falar e constituir o mundo. Essas intersecções são abordadas na nova mostra temporária aberta no Museu da Língua Portuguesa, seguindo até janeiro de 2025. Chamada de Línguas Africanas que Fazem o Brasil, com curadoria do músico e filósofo baiano Tiganá Santana, a exposição se debruça menos sobre a língua de Camões e mais sobre o tempero de Machado de Assis. As sincronias entre Venâncio e Santana, porém, se evidenciam nos detalhes. Ambos repensam o apagamento das influências linguísticas que por muito tempo foram consideradas inferiores na formação do nosso vocabulário e mostram que todas as línguas só são possíveis a partir das misturas que as constituem. “É preciso lembrar sempre que Portugal não foi exclusivo por aqui. Se hoje temos uma língua brasileira é porque o Brasil constituiu sua própria dinâmica e, nessa dinâmica, os corpos pretos foram grandes difusores de um novo modo de fala”, sintetiza Santana.


“O povo que chupa o caju, a manga, o cambucá e a jabuticaba, pode falar uma língua com igual pronúncia e o mesmo espírito do povo que sorve o figo, a pêra, o damasco e a nêspera?”, questionava José de Alencar no fim do século XIX. Dois séculos depois, Tiganá Santana e Fernando Venâncio parecem finalmente concluir que há beleza, mistura e riqueza em cada uma, à sua própria maneira e com seu próprio tempero.


(Adaptado de: MONITCHELE, M. Como nasce uma língua: exposição e livro questionam origens do português. Disponível em: . Acesso em: 2 jul. 2024.)

Assinale a alternativa que apresenta, corretamente, o objetivo central do texto.
Alternativas

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: O comando pede o objetivo central do texto, identificado pela progressão temática e pela tese recorrente de rejeição às visões puristas. O trecho "duas iniciativas abordam as misturas e confluências que resultaram na língua de Camões, mas também de Machado de Assis." organiza os dois eixos do texto: a origem do português europeu e a constituição do português no Brasil por misturas linguísticas; por isso, a alternativa correta deve sintetizar essas duas frentes.

Tema central: origem do português
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa reduz indevidamente o foco do texto a um aspecto secundário. O texto não tem como objetivo central analisar consequências linguísticas de brasileiros, africanos e portugueses; esses grupos aparecem em trechos pontuais, mas a tese principal é outra: discutir a formação do português e rejeitar visões puristas e exclusivistas.
B
Errada
A alternativa também não corresponde ao texto. O enunciado não enaltece adeptos da "língua de Camões" que inferiorizam a "língua de Machado de Assis"; ao contrário, o texto critica visões puristas e mostra que ambas as referências servem para tratar de misturas e confluências na formação da língua.
C
Errada
A alternativa contradiz frontalmente a tese do texto. O texto afirma que o livro refuta visões puristas sobre a origem exclusivamente portuguesa da língua e mostra influências historicamente apagadas; portanto, não enfatiza supremacia de Portugal, mas justamente questiona essa ideia.
D
Errada
A alternativa erra o tipo de ação textual. O texto não enumera características da língua falada em diferentes países; ele expõe e articula perspectivas sobre a origem e a formação histórica do português, com ênfase nas misturas que o constituem. Há referências a diferentes espaços lusófonos, mas não em forma de listagem descritiva de características.
E
Certa
A alternativa E acerta porque resume com fidelidade a organização global do texto. O texto apresenta duas abordagens complementares: uma, ligada ao livro de Fernando Venâncio, contesta a visão purista e afirma que o português de Portugal deriva do galego; outra, ligada à mostra curada por Tiganá Santana, destaca que, no Brasil, a língua se constituiu por misturas com outras formas de fala. Isso corresponde exatamente a "expor diferentes visões" sobre a origem do português europeu e do brasileiro.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre tema mencionado e objetivo central do texto: há referências a portugueses, brasileiros e africanos, mas o texto não compara povos nem enumera variedades; ele organiza esses elementos para sustentar a tese de que o português resulta de processos históricos de mistura e de origens repensadas.
Dica para questões semelhantes
  • Em pergunta sobre objetivo central, procure a ideia que organiza todos os parágrafos, não um detalhe mencionado no desenvolvimento.
  • Diferencie posição relatada de posição defendida: o texto pode citar uma visão tradicional apenas para refutá-la.
  • Observe a progressão temática: aqui, os dois blocos do texto correspondem a duas abordagens sobre a formação da língua, e essa estrutura aponta a resposta.

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