Observe o trecho: “O quintal, esquecido quase sempre, virou...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3989394 Português
Texto II


O Jardim e o Quintal
Por Roberto Menezes


Naquela rua de casas, havia uma casa, igual a todas as outras casas. Nela havia um portão, não tinha muro alto, lá não ladrava um cão. Aquela casa estava lá fazia tempo, não se sabia quando ou quem arquitetou sua edificação. Aquela casa estava lá fazia tempo, não se sabia quando ou quem, quanto tempo morou ali. Nela havia muitos cômodos. Janela não tinha grade. Lá não havia medo do ladrão. Como em toda casa que se preze, havia uma varanda e um alpendre, ela pro jardim, ele pro quintal. E é destes dois que vamos falar. Não da casa em si. Acasa existiu, sim, e sua existência definiu a existência deles: do jardim e do quintal.
O jardim e o quintal tinham tamanho igual, feitos com mesmo zelo, pelos mesmos pedreiros. Esses senhores brutos não haviam plantado nada: nenhuma árvore, nem pé de fruta, nem pé de flor. O vendedor entregara a casa assim: friamente linda, sem vida. Avida que veio morar, essa sim!, trouxe a semente. E em apenas meses, foi o que precisou pra que o broto vingasse na terra preta.
E o vegetal se espalhou. No jardim, deu margarida. No quintal, deu tomateira. No inverno ou no verão, tinha sempre alguém deixando tudo verde: menina usava regador; pai, a água da mangueira; são pedro só ligava a torneira. Também se empestaram os bichos: aranha, escorpião, besouro, joaninha. Viviam cada um em seu lugar. Aninguém mal faziam.
O jardim tinha cor diversa, quando a rosa, a margarida e a petúnia davam ar de suas pétalas. E, quase sempre quando dava, a vizinhança inteira esticava o pescoço pra sentir o bom odor que vinha dali.
Mesmo morador do mesmo endereço, o quintal, por sua vez, desde o começo, sempre teve a sobriedade como sua única nobreza. Sempre teve a sombriedade como sua única ardileza.
E naturalmente, como é de costume quando se trata de tudo relativo à santa natureza, os dois irmãos, o jardim e o quintal, desde o berço separados pela casa tomaram seus rumos pra lados trocados.
O jardim, estrela, nunca se perdeu do olhar cuidadoso de quem tratava, de quem o podava, de quem fazia questão de sempre mudar de jarro, de colocar seixos coloridos ao redor de cada florescimento. Olhares cuidadosos que o deixavam assim como uma menina moça quase antes da hora de debutar.
Pra lá todos iam. De manhã, de tarde e de noite. Um bem bom estar lá fazia.
O quintal, esquecido quase sempre, virou chão enervurado das raízes das árvores com troncos empanturrados e galhos que se emaranhavam entre si. Nele jogavam da pia bacias de água suja. Nele jogavam coisinhas não mais úteis: cadeiras velhas, guardachuvas velhos, brinquedos velhos; no novo cemitério das coisas velhas e esquecidas.
Prali já ninguém ia. Quando alguém ia, via o que via e não arriscava ir mais além.
O jardim era o orgulho pra mostrar às visitas. O quintal, os residentes dali tentavam esconder. O jardim se fazia presente em todas as fotografias. O quintal, deusulivre, vige maria, se isso acontecia.
E por anos, essa era a lei: cada um com sua sina, cada qual em seu lugar. Até que quem morava na casa se foi. E não chegaram outros pra continuar a função da casa de fazer o quintal e o jardim, orgulho e vergonha, pois não havia ninguém ali pra julgar.
E, sem ninguém ali, não demorou muito pra que um ramo da rosa atrevido esticasse a cabeça pra dentro da casa. E não demorou muito pra que a raiz do abacateiro se adentrasse na cozinha. E não demorou muito pra que uma erva brotasse na borda da janela. E não demorou muito pra que o lado de lá se encontrasse com o de cá.
Sem lei, sem polícia e sem juiz. Logo um pé de flor nasceu entre os raios do pneu da bicicleta do quintal.
Sem lei, sem polícia e sem juiz. Logo um pé de pau nasceu com ajuda dos raios do sol que antes só abrilhantavam as camélias.
A casa virou estrada aberta, um caminho de pedra rachada, por onde os irmãos vez por outra se visitavam. E até hoje se visitam, aos sábados, feriados ou quando dá na telha.
Hoje bichos correm soltos. O fungo e a flor bebem na mesma mesa. E, mesmo que não haja quem veja, o jardim e o quintal, hoje sim, formam um belo casal.
A casa, naquela rua de casas, há uma casa, uma casa que não é igual a todas as outras casas.


Fonte: https://www.literaturabr.com/2020/03/31/o-jardim-e-o-quintal/. Acesso em 12 de dezembro de 2025. 
Observe o trecho:

“O quintal, esquecido quase sempre, virou chão enervurado das raízes das árvores com troncos empanturrados e galhos que se emaranhavam entre si.”

Nesse período, a expressão em destaque exerce a função de: 
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: A

Fundamento decisivo: No período “O quintal, esquecido quase sempre, virou chão enervurado das raízes das árvores com troncos empanturrados e galhos que se emaranhavam entre si.”, a expressão “esquecido quase sempre” retoma “O quintal” e lhe acrescenta uma caracterização acessória, destacada por vírgulas; nesse enquadramento, ela funciona como aposto explicativo, o que afasta as demais alternativas.

Tema central: função sintática intercalada
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque a expressão destacada funciona como termo explicativo referente a “O quintal”. O ponto decisivo é duplo: ela se liga ao nome “O quintal” e vem intercalada entre vírgulas, com valor acessório de explicação/caracterização. Nesse recorte classificatório, o termo é enquadrado como aposto explicativo reduzido. O próprio contexto reforça esse valor: “O jardim era o orgulho pra mostrar às visitas. O quintal, os residentes dali tentavam esconder.”, o que confirma a ideia de abandono expressa em “esquecido quase sempre”.
B
Errada
Está errada porque não há chamamento de interlocutor. Vocativo é termo de interpelação, e isso não ocorre no período. A expressão “esquecido quase sempre” caracteriza o referente “O quintal”; não há destinatário da fala sendo convocado.
C
Errada
Está errada porque a expressão não exerce circunstância sobre o verbo “virou”. Adjunto adverbial se vincula ao verbo, adjetivo ou advérbio, indicando valor como tempo, modo, causa ou lugar. Aqui, o vínculo sintático relevante é com o substantivo “O quintal”, que recebe a caracterização “esquecido quase sempre”. A presença de “quase sempre” pode confundir, mas o núcleo funcional do trecho é “esquecido”, aplicado ao nome.
D
Errada
Está errada porque, embora a expressão tenha valor qualificativo, ela não aparece simplesmente anexada ao nome de modo integrado e restritivo. Ela surge destacada por vírgulas, em posição intercalada e explicativa. No enquadramento adotado pela questão, essa diferença afasta o adjunto adnominal e conduz ao aposto.
E
Errada
Está errada porque “esquecido quase sempre” não é conectivo e não introduz oração subordinada substantiva. Conjunção integrante liga oração subordinada a outra oração; isso não acontece no trecho. A expressão é descritiva, não conjuntiva.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: o valor adjetivo de “esquecido” pode levar ao adjunto adnominal, e a presença de “quase sempre” pode induzir ao adjunto adverbial. O que decide é o conjunto: termo referente a “O quintal”, intercalado entre vírgulas, com valor explicativo.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique primeiro a que termo a expressão se refere: se retoma um nome anterior, o caminho não é adjunto adverbial.
  • Observe as vírgulas: termo intercalado com valor explicativo tende a ser lido como aposto no recorte cobrado.
  • Não classifique como vocativo só porque há vírgulas; confirme se existe chamamento de interlocutor.
  • Se a expressão não conecta orações, elimine conjunção integrante.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Assunto: Sintaxe / Termos da Oração (Aposto x Vocativo) Data: 16/04/2026

Questão (resumo): Identificar a função de “esquecido quase sempre” em: “O quintal, esquecido quase sempre, virou chão...”. (Gabarito: Letra A - Aposto. Marquei: Letra A - Certo!).

Análise Técnica:

  • Aposto (O que é): É um termo de natureza substantiva ou adjetiva que se junta a outro termo para explicá-lo, resumi-lo ou identificá-lo. Geralmente vem entre vírgulas, dois-pontos ou travessões.
  • No texto: "Esquecido quase sempre" explica uma característica do quintal.
  • Vocativo (O que não é): É um chamamento, uma invocação. Ele não tem relação sintática com o sujeito ou o predicado; ele serve para chamar a atenção do interlocutor.
  • Exemplo: "Miguel, estude para a PRF!" (Aqui, Miguel é vocativo).
  • Aposto: Refere-se a um termo já dito no texto (é um termo interno à oração). Se você tirar o aposto, a frase continua tendo sentido completo: "O quintal virou chão enervurado".
  • Vocativo: Refere-se à pessoa com quem se fala (é um termo externo).

"A PRF, polícia cidadã, (Aposto) fiscaliza as rodovias federais. Senhores motoristas, (Vocativo) dirijam com cuidado!"

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo