Tendo em vista que a orientação argumentativa pode se realiz...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q2509583 Português
Um amor conquistado

    Encontrei Ivan Lessa na fila de lotação do bairro e estávamos conversando, quando Ivan se espantou e me disse: olhe que coisa esquisita. Olhei para trás e vi, da esquina para a gente, um homem vindo com seu tranquilo cachorro puxado pela correia. Só que não era cachorro. A atitude toda era de cachorro, e a do homem era a de um homem com o seu cão. Este é que não era. Tinha focinho acompridado de quem pode beber em copo fundo, rabo longo e duro – poderia, é verdade, ser apenas uma variação individual da raça. Ivan levantou a hipótese de quati, mas achei o bicho muito cachorro demais para ser quati, ou seria o quati mais resignado e enganado que jamais vi.

    Enquanto isso, o homem calmamente vindo. Calmamente, não; havia uma tensão nele, era uma calma de quem aceitou luta: seu ar era de um natural desafiador. Não se tratava de um pitoresco; era por coragem que andava em público com o seu bicho. Ivan sugeriu a hipótese de outro animal de que na hora não se lembrou o nome. Mas nada me convencia. Só depois entendi que minha atrapalhação não era propriamente minha, vinha de que aquele bicho já não sabia mais quem ele era, e não podia, portanto, me transmitir uma imagem nítida.

    Até que o homem passou perto. Sem um sorriso, costas duras, altivamente se expondo – não, nunca foi fácil passar diante da fila humana. Fingia prescindir de admiração ou piedade; mas cada um de nós reconhece o martírio de quem está protegendo um sonho.

    – Que bicho é esse? Perguntei-lhe, e intuitivamente meu tom foi suave para não feri-lo com uma curiosidade. Perguntei que bicho era aquele, mas na pergunta o tom talvez incluísse: “por que é que você faz isso? Que carência é essa que faz você inventar um cachorro? E por que não um cachorro mesmo, então? Pois se os cachorros existem! Ou você não teve outro modo de possuir a graça desse bicho senão com uma coleira? Mas você esmaga uma rosa se apertá-la com força!”. Sei que o tom é uma unidade indivisível por palavras, sei que estou esmagando uma rosa, mas estilhaçar o silêncio em palavras é um dos meus modos desajeitados de amar o silêncio, e é assim que muitas vezes tenho matado o que compreendo. (Se bem que, glória a Deus, sei mais silêncio que palavras.)

    O homem, sem parar, respondeu curto, embora sem aspereza. E era quati mesmo. Ficamos olhando. Nem Ivan nem eu sorrimos, ninguém na fila riu – esse era o tom, essa era a intuição. Ficamos olhando.

    Era um quati que se pensava cachorro. Às vezes, com seus gestos de cachorro, retinha o passo para cheirar as coisas, o que retesava a correia e retinha um pouco o dono, na usual sincronização de homem e cachorro. Fiquei olhando esse quati que não sabe quem é. Imagino: se o homem o leva para brincar na praça, tem uma hora que o quati se constrange todo: “mas, santo Deus, por que é que os cachorros me olham tanto?”. Imagino também que, depois de um perfeito dia de cachorro, o quati se diga melancólico, olhando as estrelas; “que tenho afinal? Que me falta? Sou tão feliz como qualquer cachorro, por que então este vazio, esta nostalgia? Que ânsia é esta, como se eu só amasse o que não conheço?”. E o homem, o único a poder livrá-lo da pergunta, esse homem nunca lhe dirá para não perdê-lo para sempre.

    Penso também na iminência de ódio que há no quati. Ele sente amor e gratidão pelo homem. Mas por dentro não há como a verdade deixar de existir: e o quati só não percebe que o odeia porque está vitalmente confuso.

    Mas se ao quati fosse de súbito revelado o mistério de sua verdadeira natureza? Tremo ao pensar no fatal acaso que fizesse esse quati inesperadamente defrontar-se com outro quati, e nele reconhecer-se, ao pensar nesse instante em que ele ia sentir o mais feliz pudor que nos é dado: eu... nós... Bem sei, ele teria direito, quando soubesse, de massacrar o homem com o ódio pelo que de pior um ser pode fazer a outro ser – adulterar-lhe a essência a fim de usá-lo. Eu sou pelo bicho, tomo o partido das vítimas do amor ruim. Mas imploro ao quati que perdoe o homem, e que o perdoe com muito amor. Antes de abandoná-lo, é claro.

(LISPECTOR, Clarice. Elenco de cronistas modernos – 25ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2013.)
Tendo em vista que a orientação argumentativa pode se realizar pelo emprego de termos ou expressões metafóricas e, ainda, correspondendo com as características previstas pelo tipo textual apresentado, assinale o único trecho transcrito em que o emprego apontado NÃO pode ser assim evidenciado. 
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central da questão: A questão aborda figuras de linguagem, em especial a metáfora, dentro da interpretação de textos narrativos. É essencial reconhecer quando expressões vão além do sentido literal, passando a transmitir sentidos conotativos, conforme define Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”).

Justificativa da alternativa correta (C):
Alternativa C: “Nem Ivan nem eu sorrimos, ninguém na fila riu – esse era o tom, essa era a intuição.”

No trecho, “tom” e “intuição” são utilizados em seu sentido literal, sem emprego de metáforas. “Tom” refere-se ao ambiente emocional do momento, e “intuição” à percepção sentida. Não há substituição por outra ideia baseada em semelhança implícita, como ocorre na metáfora (substituição de sentido). Portanto, C é a alternativa correta, pois NÃO apresenta expressão metafórica.

Análise das alternativas incorretas:

A) “Mas imploro ao quati que perdoe o homem, e que o perdoe com muito amor.”
O verbo “implorar” é literal, mas o pedido ao quati transcende o sentido comum, remetendo simbolicamente ao desejo de reconciliação e perdão, construindo uma relação metafórica.

B) “[...] mas cada um de nós reconhece o martírio de quem está protegendo um sonho.”
O termo “martírio” é empregado metaforicamente, pois ninguém sofre martírio físico ao proteger um sonho; trata-se de sofrimento interior intenso representado por metáfora, como destacam Cunha & Cintra em “Nova Gramática do Português Contemporâneo”.

D) “Perguntei-lhe, e intuitivamente meu tom foi suave para não feri-lo com uma curiosidade.”
Aqui, “ferir” é claramente uma metáfora, pois não se trata de uma ferida física, mas de causar desconforto ou dor emocional (“ferir” pelo modo de perguntar), substituindo um sentido real por um figurado.

Estratégia para a prova: Ao identificar figuras de linguagem, pergunte-se: o termo pode ser entendido fora do sentido literal? Se sim, provavelmente trata-se de metáfora ou outra figura – dica clássica de provas de múltipla escolha.

Conclusão: A alternativa C está correta, pois não apresenta expressão metafórica, ao contrário das demais.

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

a enclise na D? o fator atrativo não foi considerado? aiai.

Gabarito: C

a única que não tem uma expressão metafórica é a letra C

Nem Ivan nem eu sorrimos, ninguém na fila riu – esse era o tom, essa era a intuição.” 

Acertei porém fui meio que sem ter certeza alguém poderia fazer uma explicação mais detalhada, plss

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo