À esquerda do vale, e abrigado do norte pela montanha
que ali se corta quase a pique, está um maciço de verdura
do mais belo viço e variedade. A faia, o freixo, o álamo
entrelaçam os ramos amigos; a madressilva, a musqueta
penduram de um a outro suas grinaldas e festões: a
congossa, os fetos, a malva-rosa do valado vestem e
alcatifam o chão. Para mais realçar a beleza do quadro,
vê-se por entre um claro das árvores a janela meia aberta
de uma habitação antiga mas não dilapidada — com certo
ar de conforto grosseiro, e carregada na cor pelo tempo e
pelos vendavais do sul a que está exposta. A janela é larga
e baixa; parece mais ornada e também mais antiga que o
resto do edifício que todavia mal se vê...
Interessou-me aquela janela.
Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar ali?
Parei e pus-me a namorar a janela.
Encantava-me, tinha-me ali como num feitiço.
Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto
por detrás... Imaginação decerto! Se o vulto fosse feminino!
... era completo o romance.
Como há de ser belo ver pôr o Sol daquela janela! ...
E ouvir cantar os rouxinóis! ...
E ver raiar uma alvorada de Maio! ...
Se haverá ali quem a aproveite, a deliciosa janela?
... quem aprecie e saiba gozar todo o prazer tranquilo,
todos os santos gozos de alma que parece que lhe andam
esvoaçando em torno?
Se for homem é poeta; se é mulher está namorada.
São os dois entes mais parecidos da natureza, o poeta e
a mulher namorada: veem, sentem, pensam, falam como a
outra gente não vê, não sente, não pensa nem fala.
(Massaud Moisés. A Literatura Portuguesa Através Dos Textos)
Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, de onde se
extraiu o excerto, foi publicado em 1846. Analisando-o,
flagram-se usos que denunciam tratar-se de um momento histórico, social e espacial diferente daquele que hoje
se vivencia. Um exemplo que mostra inequivocamente
essa diferença contextual está na seguinte reescrita:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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