“Você conhece o Pedro?” — alguém questionou certa vez, ao saber que nasci e morei na capital do
Piauí por quase doze anos. Eu respondi que não, mas
por dentro minha resposta não foi tão calma assim. Que
diabo de pergunta era aquela? Como poderia conhecer
um ser humano, identificado apenas como Pedro, em
uma cidade com milhares de habitantes?
Em um momento anterior, outro alguém me
perguntou se havia carros nas ruas de Teresina, talvez
com uma imagem semelhante àquela que os estrangeiros têm dos brasileiros: a de que vivemos como o Tarzan, em meio à Floresta Amazônica. Mas sobre o Piauí
a imagem talvez seja a de ruas atravessadas pelo gado.
Essas situações não risíveis, mas não porque sejam de fato engraçadas e sim porque denotam a falta de
conhecimento que se tem da minha terra natal.
Em 19 de março de 1969, uma crônica de Nelson Rodrigues, intitulada Nunca houve tamanha solidão na terra e publicada no jornal O Globo, provocou
indignação nos piauienses. Nelson Rodrigues, em tom
sarcástico, relata seu primeiro encontro com um piauiense, cuja timidez e humildade poderiam ser generalizadas para todo o estado. Porque, ele afirma, quase
não se ouvia falar do Piauí, que seria mais abandonado
que as outras unidades da federação também esquecidas
e menos conhecido que a Lua.
O que se depreende, porém, da fala do dramaturgo é uma crítica à ausência de referências sobre o Piauí e seu povo em âmbito nacional, a seu esquecimento,
ao “silêncio ensurdecedor” que havia sobre o estado e à
passividade dos governantes e do próprio povo.
Sua maior crítica é à humildade, que ele reconhecera no piauiense que haviam lhe apresentado. Já
seu conselho é que o Piauí e seus habitantes se comportem com superioridade.
(...)
Ainda hoje os piauienses sofrem essa distinção,
causada pelo rótulo da seca e da miséria, um rótulo forjado. Em primeiro lugar, com o intuito de aproximar o
Piauí dos demais estados da Região Nordeste, que passou a integrar tardiamente, em 1941. Logo em seguida,
diante do esquecimento por parte do governo federal,
como forma de atrair investimentos. A pobreza piauiense foi então repetida, até mesmo em textos de intelectuais, e acabou se convertendo em estereótipo.
Ainda nos ressentimos do desconhecimento, do
esquecimento, do silêncio que parece sobreviver cinco
décadas depois daquelas declarações de Nelson Rodrigues.
Mas, mesmo a distância, vejo que o Piauí e o
piauiense têm se tornado cada vez mais reconhecidos,
mais conscientes das riquezas culturais e dos talentos
que formam o estado, mais cientes de seu lugar. Ao
mesmo tempo, eu resgatei meu eu piauiense e sinto um
orgulho danado quando ouço uma menção ao meu estado natal, às suas conquistas na educação, às suas belezas naturais quase inexploradas, à sua (à minha)
gente.
Apesar de também não ter digerido muito bem
a fala de Nelson Rodrigues quando a li anos atrás, concordo que os piauienses devem deixar de lado a modéstia e gritar que são tão bons quanto o restante do país e,
em tantas coisas, até melhores (votar, por exemplo).
Referências: HISTÓRIAS EM MIM. Meu ser piauiense. Disponível em: https://www.historiasemmim.com.br/2020/10/17/meu-ser-piauiense/. Acesso em: 04 nov. 2025.
Assinale a alternativa que reescreve o trecho com
manutenção de sentido e correção gramatical.
“Ainda hoje os piauienses sofrem essa distinção, causada pelo rótulo da seca e da miséria, um rótulo forjado.”
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