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Q519186 Português
      Como diz o outro, preconceito é o diabo. Tanto mais quando as sociedades humanas até hoje não foram capazes de se estruturar nem de se organizar sem ele, isto é, sem alguma forma de negar o próximo. Daí a necessidade de combater o preconceito a cada instante e daí a sua persistência na História, sob formas sucessivas. Vai um, vem outro, muita gente vive dele e para ele, enquanto poucos lutam contra. Na pior hipótese admissível, ele deve ser pelo menos recalcado, disfarçado, porque disfarçando a pessoa acaba por atenuar o seu impacto e não deixa que ele se torne impedimento de relações mais ou menos normais. Por isso costumamos esperar e até exigir que os educadores, os chefes, os líderes, as pessoas que expressam grupos ou são investidas de alguma representação coletiva não manifestem preconceito, para poderem executar bem sua tarefa. Se os têm, que os escondam e não atuem em função deles. 
       Eis por que foi mesmo lamentável o pronunciamento do general Coelho Neto, para quem o cardeal Arns é mau brasileiro, e talvez nem seja brasileiro, por ser contrário à entrada do Brasil na indústria armamentista. Pensando no motivo que teria levado o general a simular dúvida sobre a nacionalidade óbvia de um eminente patrício seu, me ocorre que ele poderia estar exprimindo uma das formas mais arcaicas de preconceito que há no Brasil: a noção que o descendente de estrangeiros, portador de sobrenome não-português, é menos brasileiro. Menos brasileiro em relação a quem? 
       Quando eu era menino, há meio século e mais, ainda florescia este sentimento torto, partilhado automaticamente, quase sem malícia, nem prejuízo das relações do dia a dia, pela maior parte dos descendentes de famílias que eram velhas por aqui. Mas a coisa podia engrossar em certas circunstâncias, porque, como eles se achavam “mais brasileiros", achavam-se também mais donos do país, e quando o estrangeiro ou seu filho faziam qualquer coisa que desagradava — do tipo ganhar dinheiro demais, comprar terras do pessoal antigo, brilhar ou mostrar mais capacidade — havia quem se sentisse vagamente espoliado de um direito virtual. E que podia chegar a ver no caso um desaforo tácito, atentatório, à integridade e ao destino da Nação... 

CANDIDO, A. Preconceito arcaico. (Folha de S.Paulo, 7/4/1982). Texto com adaptações. In: Textos de Intervenção/ Antonio Candido; seleção, apresentação e notas de Vinicius Dantas. São Paulo: Duas Cidades; Ed.34, 2002
A partir das ideias do fragmento “muita gente vive dele e para ele, enquanto poucos lutam contra”, propõem-se as construções frasais abaixo. Assinale a alternativa em que a construção frasal esteja de acordo com o padrão escrito culto da língua, apresentando correto uso dos articuladores.
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central da questão: Uso correto de regência verbal e pronomes relativos, com foco na articulação coesa das ideias de um texto.

O fragmento analisa como o preconceito persiste na sociedade e é combatido apenas por poucos, destacando quem “vive dele e para ele” e quem luta contra. A compreensão correta passa por identificar as relações estabelecidas por meio de preposições exigidas por certos verbos—ponto essencial em redação oficial e em padrões da norma culta, conforme as gramáticas de Bechara e Cunha & Cintra.

Justificativa da alternativa correta (B):

“Trata-se do preconceito, do qual e para o qual muitos vivem, mas contra o qual poucos lutam.”

A alternativa B está em completo acordo com a regência verbal e o uso apropriado dos pronomes relativos. A construção respeita:

  • Viver de/preconceito: “viver do (de + o) preconceito” – a preposição “de” está corretamente presente.
  • Viver para/preconceito: “viver para o preconceito” – a preposição adequada foi usada e está ligada corretamente ao pronome relativo “o qual”.
  • Lutar contra/preconceito: “lutar contra o preconceito” – uso exato da preposição “contra”.

O emprego do relativo “o qual” após preposições, como ensina Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”), confere clareza e aderência à norma culta.

Análise das alternativas incorretas:

  • A e C: Usam “para e do qual”, o que gera ambiguidade e incorreção sintática. Não se emprega “para e do qual” para mesma referência sem repetição da preposição antes de pronomes compostos.
  • D e E: Usam “de que” e “para que”, formas inadequadas nesse contexto, pois o correto é “do qual” e “para o qual” quando o antecedente é masculino e exige clareza formal (Cunha & Cintra).

Estratégia de prova:atenção às preposições que os verbos exigem e sempre observe se, após preposição, o relativo “o qual” está corretamente empregado. Na redação oficial, isso evita ambiguidade e garante clareza no texto, como orienta o Manual de Redação da Presidência da República.

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Comentários

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Trata-se do preconceito, do qual e para o qual muitos vivem, mas contra o qual poucos lutam.

 

REESCRITA:

Trata-se do preconceito, muitos vivem do preconceito e muitos vivem para o preconceito, mas poucos lutam contra o preconceito.

Eita banca chata..

o problema é que a letra b torna o período polissindeto. o que na norma culta não é aconselhável pela repetição desnecessária de conectivos.

Não é problema de polissíndeto. Ocorre que um único pronome relativo não pode ser regido por PREPOSIÇÕES DIFERENTES, porque acarreta quebra de paralelismo sintático. Repare que eu posso viver DO preconceito e PARA o preconceito, ou seja, eu lancei mão de duas preposições diferentes, porque DO PRECONCEITO tem função de objeto indireto (sim, viver pode ser vti) e PARA o preconceito tem função de adjunto adverbial de finalidade. 

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