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Q3699433 Português

A questão refere-se ao texto a seguir.



O arquivo



    No fim de um ano de trabalho,

    joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos. joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

    No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

    Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

    Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

    O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

    Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

    Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

    Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

    Prosseguiu a luta. 

    Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

    joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

    Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

    Respirou descompassado.

    — Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

    joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.

    — Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

    O coração parava.

    — Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

    A  revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

    — De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

    Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

    Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

    Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

    Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.

    Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

    O corpo era um monte de rugas sorridentes.

    Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

    — Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

    O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

    — Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

    O chefe não compreendeu:

    — Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

    A emoção impediu qualquer resposta.

    joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

    joão transformou-se num arquivo de metal.



(GIUDICE, Victor. O arquivo. In: MORICONI, Ítalo. Os cem contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2009. p. 554-561). 


Considerando o contexto, é CORRETO afirmar, segundo a prescrição gramatical:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O ponto decisivo é reconhecer que, em “Nos lados, havia duas arestas.”, o verbo “haver”, com sentido de existir, é impessoal; assim, “duas arestas” não é sujeito, mas complemento verbal. A alternativa D se confirma porque, com a substituição por “existir”, o termo passa a exercer a função de sujeito gramatical.

Tema central: haver e existir
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra a regência dos verbos. Em “O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.”, “chamar”, no sentido de convocar, pede objeto direto, daí “chamou-o”. Já “comunicar algo a alguém” admite objeto direto para a coisa comunicada (“o segundo corte salarial”) e objeto indireto para a pessoa (“lhe”). Não há fundamento para inverter os pronomes.
B
Errada
A alternativa erra ao exigir crase nas duas ocorrências de “a” em “E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.”. Em “a partir de”, há apenas a preposição da locução, sem artigo feminino que autorize crase. Em “será a de limpador”, esse “a” retoma “função” e, no trecho dado, não resulta da fusão entre preposição e artigo que exija acento grave.
C
Errada
A alternativa é problemática, mas não derruba o gabarito oficial. Nos trechos “aumentar-lhe a disposição” e “dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento”, o pronome “lhe” pode ser lido, pela análise sintática escolar, como objeto indireto/dativo nas duas ocorrências. Assim, a questão se resolve pela correção inequívoca da D, e não por erro seguro de C.
D
Certa
A alternativa D está correta porque analisa adequadamente a estrutura de “Nos lados, havia duas arestas.”. Nesse trecho, “haver” tem valor existencial, portanto é impessoal. Por isso, “duas arestas” não pode ser sujeito; exerce função de complemento verbal, tradicionalmente objeto direto. Na reescrita com “existir”, o verbo passa a ser pessoal, e o termo “duas arestas” assume a função de sujeito gramatical.
Pegadinha da questão
A confusão real está em tratar “duas arestas” como sujeito só porque vem depois do verbo, ignorando que, em sentido existencial, “haver” é impessoal; a banca também explora erros comuns de falsa simetria pronominal e de crase por simples presença de termo feminino.
Dica para questões semelhantes
  • Se “haver” significar existir, não procure sujeito: o termo que vem depois funciona como complemento verbal.
  • Ao trocar “haver” por “existir”, refaça a análise sintática: com “existir”, o termo passa a poder ser sujeito.
  • Não troque pronomes oblíquos por paralelismo automático; verifique a regência de cada verbo separadamente.
  • Só há crase quando houver fusão de preposição “a” com artigo feminino “a/as” ou caso equivalente previsto.

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Comentários

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o verbo haver (no sentido de existir, acontecer ou tempo decorrido) é impessoal... logo o verbo existir torna eles em sujeitos.

na opção incorreta letra D em : "...e isto parecia aumentar-lhe a disposição."

o "lhe" tem valor possessivo equivalente a "sua", aumentar a sua disposição ou aumentar a disposição dele

logo determinamos que o termo "lhe" se conecta ao substantivo "disposição" como um determinante desse, classificando-o como adjunto adnominal.

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