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Ano: 2010 Banca: CETRO Órgão: ANVISA Prova: CETRO - 2010 - ANVISA - Técnico Administrativo |
Q642419 Português

Leia o texto abaixo, que sofreu pequenas adaptações e alterações, extraído da obra Estação Carandiru, de Drauzio Varella, para responder à questão.

      São tantas as situações que se apresentam na cadeia que uma vida é pouco para conhecê-las. Essa lição de humildade dada pelos cadeeiros mais experientes ajudou-me a relaxar e a desenvolver técnicas defensivas para não ser feito de idiota o tempo todo.

      A advertência clara do Pedrinho, de que eu não podia contar com meus auxiliares para desmascarar os farsantes, tornou-me mais atento às expressões faciais. Enquanto o doente fala; há que olhá-lo direto nos olhos, mudo, o olhar fixo por uns segundos a. mais após o término de cada frase. Nos momentos de dúvida, deixar cair o silêncio, abaixar a cabeça sobre a ficha médica como se fosse escrever e dar um bote com os olhos na direção dos enfermeiros e quem mais esteja por perto, para surpreender neles as expressões de descrédito. 

      Com a experiência que a repetição traz, ganhei segurança como médico e espontaneidade no trato com a malandragem. Devagar, aprendi que a cadeia infantiliza o homem e que tratar de presos requer sabedoria pediátrica. Muitas vezes é suficiente deixá-los se queixar ou simplesmente concordar com a intensidade do sofrimento que referem sentir, para aliviá-los. O ar de revolta que muitos traziam para a consulta desaparecia depois que lhes palpava o corpo e auscultava pulmões e coração. No final, não era raro encontrar ternura no olhar deles. A paciência de escutar e o contato do exame físico desarmavam o ladrão.

      A comida servida na Casa de Detenção ê triste. Depois de alguns dias, não há cristão que consiga digeri-la; a queixa é geral. Os que não têm ganha-pão na própria cadeia ou família para ajudar sofrem. Riquíssima em amido e gordura, a dieta, entretanto, engorda. Obesidade aliada à falta de exercício físico é um dos problemas de saúde na Detenção.

      As galerias são lavadas todo final de tarde pelos "faxinas", um grupo de homens que constitui a espinha dorsal da cadeia. Tudo é limpo, ninguém ousa jogar lixo nas áreas internas. É raro ver um xadrez sujo, e, quando acontece, seus ocupantes são chamados de maloqueiros, com desdém. Na Copa de 94, assisti Brasil versus Estados Unidos num xadrez com 25 presos, no pavilhão Dois. Não havia um cisco de pó nos móveis, o chão dava gosto de olhar. Em sistema de rodízio, cada ocupante era responsável pela faxina diária. 

Levando em consideração as afirmações do texto e as orientações da gramática normativa tradicional, é correto afirmar que
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a correferência no terceiro parágrafo: "lhes" retoma os presos/pacientes em atendimento, e "deles" retoma o mesmo referente no trecho "No final, não era raro encontrar ternura no olhar deles.". Assim, a alternativa E se sustenta pelo mesmo valor semântico-referencial dos dois elementos.

Tema central: correferência pronominal
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque as duas ocorrências de "como" não têm o mesmo valor semântico. Em "como se fosse escrever", a locução "como se" introduz ideia de aparência, comparação hipotética ou simulação. Em "como médico", "como" indica condição, qualidade ou função exercida, isto é, "na condição de médico". A igualdade afirmada pela alternativa não se sustenta.
B
Errada
Está errada porque a reescrita altera a estrutura e o sentido do original. Em "tratar de presos requer sabedoria pediátrica", a expressão "tratar de presos" funciona como sujeito oracional de "requer". Na forma proposta, "ao se tratar de presos" passa a ter valor circunstancial, e o verbo "requer" deixa de manter o mesmo arranjo semântico-sintático. Portanto, não há preservação fiel nem da estrutura nem do sentido.
C
Errada
Embora os dois pronomes destacados retomem o mesmo referente contextual e tenham função de objeto direto, a alternativa não corresponde ao recorte adotado pela banca. O gabarito oficial privilegia a correferência semântico-referencial de E, enquanto C mistura esse dado com a exigência de mesma função sintática e antecedente, sem ser a resposta escolhida.
D
Errada
Está errada porque os dois "que" não têm o mesmo valor nem a mesma função. Em "O ar de revolta que muitos traziam", "que" é pronome relativo e retoma "o ar de revolta". Em "depois que lhes palpava", "que" integra locução conjuntiva temporal. A repetição formal da palavra não autoriza tratá-la como equivalente nos dois casos.
E
Certa
A alternativa E está correta porque compara o valor semântico de dois elementos referenciais no contexto. No trecho citado, tanto "lhes" quanto "deles" apontam para os presos/doentes atendidos pelo narrador. A coincidência exigida pela alternativa é de referente contextual, não de classe gramatical nem de função sintática. Por isso, a equivalência relevante aqui é semântica: ambos designam o mesmo grupo de pessoas no texto.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre valor semântico e função sintática: em E, não é preciso que "lhes" e "deles" pertençam à mesma classe ou tenham a mesma função; basta que retomem o mesmo referente. Isso desvia o candidato que procura identidade morfossintática em vez de correferência textual.
Dica para questões semelhantes
  • Se a alternativa falar em valor semântico, verifique primeiro a quem ou a quê o termo remete no texto, antes de comparar classe gramatical ou função sintática.
  • Não iguale ocorrências da mesma palavra só pela forma: "como" e "que" podem exercer valores diferentes conforme a estrutura em que aparecem.
  • Em reescrita, confirme se a oração manteve a mesma função sintática e o mesmo sentido; mudança de estrutura pode alterar o enunciado mesmo sem erro aparente.

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Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

GABARITO ===>>> E.

Porque a letra  C está errada?

Gabarito: letra E

 

Adriana, o erro da letra C:

 

-  "Muitas vezes é suficiente deixá-los se queixar"

"los" é sujeito.

Sempre que tivermos as formas MANDAR, DEIXAR, TORNAR e FAZER (verbos causativos) e na sequência um verbo no infinitivo, usaremos pronome oblíquo como sujeito, e não pronome reto. 

Em vez de "deixar eles se queixarem", deve ser "deixá-los se queixar"

Obs.: O verbo fica no singular se o sujeito estiver em forma de pronome. 

 

- "Concordar com a intensidade do sofrimento que referem sentir, para aliviá-los"

"los" é complemento da forma verbal "aliviar"

 

alguém pode explicar?

Leia DEVAGAR E ATENTAMENTE...

ENCURTE A FRASE, RETIRE O QUE PODE SER RETIRADO PARA MELHOR COMPREENSÃO...

PERCEBERA QUE NESSA QUESTÃO, VOCÊ CONSEGUE PERCEBER O SUJEITO..

GAB. E

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