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Ano: 2019
Banca:
CETAP
Órgão:
Prefeitura de São Miguel do Guamá - PA
Provas:
CETAP - 2019 - Prefeitura de São Miguel do Guamá - PA - Professor de Artes
|
CETAP - 2019 - Prefeitura de São Miguel do Guamá - PA - Professor de Ciência |
CETAP - 2019 - Prefeitura de São Miguel do Guamá - PA - Professor de Biologia |
CETAP - 2019 - Prefeitura de São Miguel do Guamá - PA - Professor de Educação Física |
Q4409427
Não definido
Texto associado
Leia o texto e responda o que for pedido no comando da
questão.
Conversa de pai e filha
- Pai, eu tenho um namorado.
Pai, que ouve isso da filha mocinha, pela primeira vez,
sente uma dor muito grande. Todo sangue lhe sobe à cabeça, e o
chão do mundo roda sob seus pés. Ele pensava, até então, que
só a filha dos outros tinha namorado. A sua tem, também. Um
namorado presunçosamente homem, sem coração e sem
ternura. Um rapazola, banal, que dominará sua filha. Que a
beijará no cinema e lhe sentirá o corpo, no enleio da dança. Que
lhe fará ciúmes de lágrimas e revolta; pior ainda, de submissão,
enganando-a com outras mocinhas. Que, quando sentir os seus
ciúmes, com toda certeza, lhe dirá o nome feio e, possivelmente,
lhe torcerá o braço. Eela chorará, porque o braço lhe doerá. Mas
ela o perdoará no mesmo momento ou, quem sabe, não
chegará, sequer, a odiá-lo. E lhe dirá, com o braço doendo ainda:
"Gosto de você, mais que de tudo, só de você." Mais que de tudo
e mais que dele, o pai, que nunca lhe torceu o braço. Só de você
é não gostar dele, o pai. E pensará, o pai, que esse porcaria de
rapaz fará a filha mocinha beber whisky, e ela, que é mocinha,
ficará tonta, com o estômago às voltas. Mas terá que sorrir. E
tudo o que conseguir dela será, somente, para contar aos amigos, com quem permuta as gabolices sobre suas
namoradas. Ah! O pai se toma da imensa vontade de abraçar-se
à filha mocinha e pedir-lhe que não seja de ninguém. De abraçála e rogar a Deus que os mate, aos dois, assim, abraçados, ali
mesmo, antes que torça o bracinho da filha. Como é absurda e
egoisticamente irracional amor de pai! Mais que ódio de fera. Ele
sabe disso e se sente um coitado. Embora sem evitar que todos
esses medos, iras e zelos passem por sua cabeça, tem que
saber que sua filha é igual à filha dos outros; e, como a filha dos
outros, será beijada na boca. Ele, o pai, beijou a filha dos outros.
Disse-lhe, com ciúme, o nome feio. E torceu-lhe o braço, até
doer. Nunca pensou que sua namorada fosse filha de ninguém.
Ele, o pai, humanamente lamentável, lamentavelmente humano.
Ele, o pai, tem, agora, que olhar a filha com o maior de todos os
carinhos e sorrir-lhe um sorriso completo de bem-querer, para
que ela, em nenhum momento, sinta que está sendo perdoada.
Protegida, sim. Amada, muito mais. E, quando ela repetir que
tem um namorado, dizer-lhe apenas:
-Queira bem a ele, minha filha.
(MARIA, Antônio. As Cem Melhores Crônicas Brasileiras. São Paulo:
Questão-01
Objetiva, 2007. p.155/156)
Classifica, respectivamente, as figuras de linguagem presentes
nos seguintes excertos: "Todo sangue lhe sobe à cabeça (...)" e
"(...) lhe dirá o nome feio (...)":