Para ter os mares como aliados, é necessário voltar a eles como
fizeram nossos ancestrais. É preciso mantê-los com políticas de
conservação marinha, investimento em pesquisa e
monitoramento oceânico
Segen Estefen | 12/06/24
Apesar de se chamar Terra, é de água que é coberta a maior
parte do planeta — cerca de 71% de toda a superfície é oceano,
80% no Hemisfério Sul. A importância não é desproporcional ao
tamanho dos mares ou de duas moléculas de hidrogênio para
uma de oxigênio na vida. Antigos guardiões do clima terrestre,
são os oceanos que TEM/TÊM regulado a temperatura do
planeta, influenciado padrões atmosféricos e sustentado a
biodiversidade marinha. Os oceanos absorvem 90% do excesso
de todo o calor atmosférico gerado pelas emissões de dióxido de
carbono (CO2). A água tem uma alta capacidade térmica,
permitindo que se armazene grandes quantidades de calor. É
exatamente o que os oceanos fazem com a Terra. Sem eles, a
temperatura global seria insustentável.
Os oceanos também desempenham um papel significativo no
que se refere à absorção dos gases do efeito estufa que causam
o aquecimento da Terra. Segundo o Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente, os oceanos captaram cerca de um
terço de todo o CO2 emitido pela humanidade desde a Revolução
Industrial. No entanto, essa absorção tem um custo,
especialmente em um planeta que aumentou em cerca de 1,4°C
a sua temperatura em um período de 40 anos.
As mudanças climáticas e os oceanos estão intrinsecamente
conectados, em uma via de mão dupla. Enquanto os oceanos
naturalmente mitigam boa parte dos efeitos do aquecimento do
planeta, as mudanças climáticas também impactam os oceanos
pelo degelo nos polos e aumento da absorção de CO2, o que
resulta em uma série de problemas, como o aumento do nível do
mar, da temperatura e da acidificação. O aquecimento dos
oceanos Pacífico e Atlântico TEM/TÊM contribuído para eventos
climáticos extremos, devido à potencialização de fenômenos
naturais como ciclones e furacões. A elevação da temperatura
das águas dos oceanos TEM/TÊM efeito deletério nos corais e na
biodiversidade marinha.
Recentemente, a BBC publicou uma análise baseada em
dados do Serviço Climático Copernicus, da União Europeia,
mostrando que os oceanos bateram recordes de temperatura
todos os dias por 12 meses. O dado é o prenúncio da condição
crítica das mudanças climáticas. Segundo o Painel
Intergovernamental para Mudanças Climáticas, o IPCC, se o
planeta aquecer 1,5°C, cerca de 70% dos corais, que suportam
um quarto da vida marinha, desaparecerão.
Para além dos mares, esse cenário nos afeta também, pois
os oceanos funcionam como um grande reservatório de carbono,
armazenando-o em taxas muito superiores às florestas tropicais
terrestres. Além de reconhecer a importância dos oceanos para a
vida e combater a crise climática, é preciso entender o papel
crucial que esse aliado muitas vezes desconhecido, TEM/TÊM.
Não dá para enfrentar esse desafio do século 21 sem considerá-lo.
O caminho para isso é conhecido. Inclui a redução das
emissões de gases de efeito estufa, o que passa invariavelmente,
por transicionar as matrizes energéticas do fóssil para o
renovável. O surpreendente é que os oceanos também podem
dar uma alternativa para isso. O potencial energético dos mares
é vasto. As energias oceânicas — ainda muito pouco exploradas
— TEM/TÊM um potencial de produzir dezenas de vezes mais
energia do que o mundo será capaz de consumir em 2040. Os
oceanos podem ser não apenas um regulador climático, mas
também uma das fontes de energia renovável que vai viabilizar o
futuro do clima na Terra.
No entanto, para ter os mares como aliados, é necessário
voltar a eles como fizeram nossos ancestrais. É preciso mantê-los com políticas de conservação marinha, investimento em
pesquisa e monitoramento oceânico. Somente com dados constantes, a ciência conseguirá abastecer aqueles que
TEM/TÊM o poder de tomar as decisões, da política à economia.
Isso pode gerar iniciativas, como a criação de áreas marinhas
protegidas e o desenvolvimento de tecnologias de baixo carbono
a partir do mar. Sem essa integração e se deixarmos tudo como
está, corremos o risco de perder a nossa primeira e última barreira
contra a crise climática.
Segen Estefen: Diretor-geral do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo) e
professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ESTEFEN,
Segen. Os oceanos e as mudanças climáticas. Correio Braziliense, 12 de junho de
2024. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/
2024/06/6875725-artigo-os-oceanos-e-as-mudancas-climaticas.html.
Acesso em: 13 jun. 2024.
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