A partir do texto anterior, analise as assertivas a seguir: ...
Para responder à questão, leia o texto a seguir:
Variação e mudança
Sírio Possenti
A maioria absoluta dos brasileiros ̶ talvez não só os brasileiros ̶ alfabetizados ou letrados tem uma ideia completamente equivocada do que seja uma língua. Para eles, língua é a que a escola ensina, ou o que está nos manuais do tipo "não erre mais". O resto é erro. Todos consideram que as variantes são erros.
Ocorre que o que a escola ensina também é mais ou menos variado. E depende muito também do desempenho linguístico dos professores. Como eles são membros da sociedade, são afetados pelas mudanças que a língua sofre com o correr do tempo, de forma que seu "português" é, de alguma forma, o português de seu tempo. O que não é necessariamente ruim.
Isto quer dizer que o português que os professores falam e mesmo o que escrevem não é necessariamente o português dos livros adotados nas escolas. O que vale para professores de português vale também para os das outras disciplinas, claro. E vale também para os jornalistas e para as personalidades que eles entrevistam, tenham elas a formação que tiverem (em geral, são especialistas em alguma coisa, sempre especialistas). É só ouvir os debates ou os programas de entrevistas para verificar isso.
Dou dois exemplos banais. Duvido que haja 10% de professores ou falantes letrados que profiram o dito futuro (aplicarei minha poupança em ações da empresa X). Todos dizem "vou aplicar". Outro exemplo? Quase ninguém diz "nós". Diz-se "a gente". Como pouco se diz "tu", exceto em algumas regiões, a conjugação verbal do futuro é
Eu vou aplicar
Você vai aplicar
Ele/ela vai aplicar
A gente vai aplicar
Vocês vão aplicar
Eles/elas vão aplicar.
Ou não é? Quem não fala assim que atire a primeira pedra. Não vou dizer (!!) que todos falam sempre assim porque sei que uma língua sempre apresenta variação. Alguns entrevistados, ou jornalistas, dirão (!!), talvez, de vez em quando, no meio da conversa, "falaremos disso na próxima entrevista", claro, sendo mais formais. Em compensação, alguns também dirão "vamo falá disso na próxima veiz", sendo bem mais informais. E ninguém nota que falou errado durante a entrevista. Por quê? Porque ninguém fala errado mesmo! Isso não é erro. Esse é o português falado culto do Brasil hoje. É um fato. Só isso.
Numa certa ocasião, fui entrevistado por uma emissora de TV (eu no estúdio e um folclorista em outra cidade). Argumentava que a linguagem popular não tinha nada de errado, era só diferente, e era enfrentado pela apresentadora que "defendia nossa língua". Para dobrá-la, só me restou um recurso: ficar atento ao que ela dizia e citar os "erros" que ela ia cometendo, segundo os próprios critérios dela. Ficou meio sem jeito, e eu tive que insistir que ela falava corretamente... o português real (e que aquele que ela defendia não existe mais, pelo menos na fala).
O que muita gente não entende ̶ ou não quer entender, porque significaria perder uma boa teta! ̶ é que a variação tem tudo a ver com a mudança. Todos acham normal que aquila tenha derivado para águia, que asinus tenha derivado para asno (tem muita coisa mudada aí, mas o básico é que a palavra latina proparoxítona se torna paroxítona), mas acham ridículas formas como fosfro (para fósforo), corgo (para córrego), xicra e chacra (para xícara e chácara), embora a regra antiga que explica a mudança e a atual que explica a variação sejam a rigor a mesma (os falantes seguem regras, não erram!!!), sem contar que dizem, numa boa, sem se dar conta do que fazem, xicrinha e chacrinha. Quá!
Variação tem tudo a ver com mudança. Mas, se entendêssemos isso, muita gente perderia uma grana preta!!
Fonte: http://www.cataphora.com.br/2010/03/variacao-e-mudanca-sirio-possenti_8437.html (Acesso em: 25 set. 2024).
A partir do texto anterior, analise as assertivas a seguir:
I) O contexto comunicativo pode determinar a escolha do registro linguístico a ser utilizado pelo falante.
II) A língua é um organismo vivo e, dentro de um mesmo sistema, apresenta-se com diferenciações.
III) Os professores de língua portuguesa também apresentam aos alunos o português de seu tempo e devem se ancorar na gramática normativa para não desvirtuar o ensino.
IV) Aceitar que há em toda língua um conjunto de covariantes é admitir que se pode chegar a mudanças ainda que o processo dure relativamente muito tempo.
Estão CORRETAS somente as assertivas:
- Gabarito Comentado (1)
- Aulas (2)
- Comentários (1)
- Estatísticas
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- Criar anotações
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Gabarito comentado
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Tema central: Interpretação de texto e variação/mudança linguística, destacando a relação entre a língua falada real e a norma-padrão, segundo a perspectiva do texto base.
Gabarito: B) I, II e IV
Justificativa da alternativa correta:
A alternativa B é a correta porque as assertivas I, II e IV estão plenamente de acordo com a abordagem do texto e com os conceitos fundamentais de variação e mudança linguística.
- I) CORRETA. O texto evidencia que “o contexto comunicativo pode determinar a escolha do registro linguístico”: professores, jornalistas e entrevistados alternam formalidade e informalidade em suas falas, conforme a situação ("dizem 'vou aplicar', em vez de 'aplicarei'"). Trata-se da variação diafásica, reafirmada por gramáticas como a de Bechara.
- II) CORRETA. O texto compara o “português de seu tempo” ao conceito de língua viva, sujeita à mudança e variação. Segundo Cunha & Cintra, a língua é dinâmica e diversa.
- IV) CORRETA. O autor mostra que aceitar variantes linguísticas é reconhecer sua influência em mudanças ao longo do tempo (“variação tem tudo a ver com mudança”). Isso representa a visão diacrônica da língua: as formas variam até se consolidarem como mudanças.
Análise das alternativas incorretas:
- III) INCORRETA. O texto afirma que professores ensinam o português de seu tempo, mas não defende que devam se restringir à gramática normativa para evitar o "desvirtuamento". Muito pelo contrário, o autor critica o preconceito linguístico e defende que variações não são “erro”. A recomendação normativa (cf. Manual de Redação da Presidência da República) é que o ensino da língua reconheça usos legítimos no contexto e nas variedades.
Assim, A, C e D estão incorretas porque incluem a assertiva III, inadequada sob o enfoque sociolinguístico e textual apresentado.
Estratégias de interpretação: Atente-se para ideias implícitas no texto e evite aceitar generalizações normativas que não condizem com o posicionamento do autor ou conceito contemporâneo de Língua Portuguesa!
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I) CORRETA. O texto evidencia que “o contexto comunicativo pode determinar a escolha do registro linguístico”: professores, jornalistas e entrevistados alternam formalidade e informalidade em suas falas, conforme a situação ("dizem 'vou aplicar', em vez de 'aplicarei'"). Trata-se da variação diafásica, reafirmada por gramáticas como a de Bechara.
II) CORRETA. O texto compara o “português de seu tempo” ao conceito de língua viva, sujeita à mudança e variação. Segundo Cunha & Cintra, a língua é dinâmica e diversa.
IV) CORRETA. O autor mostra que aceitar variantes linguísticas é reconhecer sua influência em mudanças ao longo do tempo (“variação tem tudo a ver com mudança”). Isso representa a visão diacrônica da língua: as formas variam até se consolidarem como mudanças.
III) INCORRETA. O texto afirma que professores ensinam o português de seu tempo, mas não defende que devam se restringir à gramática normativa para evitar o "desvirtuamento". Muito pelo contrário, o autor critica o preconceito linguístico e defende que variações não são “erro”. A recomendação normativa (cf. Manual de Redação da Presidência da República) é que o ensino da língua reconheça usos legítimos no contexto e nas variedades.
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