No trecho "Vivendo em cárcere privado, a velha não se lavav...

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Q4037344 Português

O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


A velha


A velha um dia despirocou. Era como se uma sirene ambulatorial gritasse corredor adentro. Não se debruçava mais sobre os muros, janelas e balcões a colher as memórias sórdidas dos vizinhos e familiares.


Emudeceu oca e aquele olhar de ave de rapina que saltava curioso sobre o mundo a abandonou.


Era um corpo todo abandonado, como se o brilho da carne viva tivesse ganho a opacidade de um porco decapitado, daqueles abatidos e expostos nos açougues, e num silêncio-pânico daquela madrugada, algo lhe foi extorquido.


Desde a aparição do vírus na narrativa cotidiana, a velha ficou alerta. Observava tudo amedrontada. Era máscara na cara, os dedos ensopados de álcool e uma solidão corrosiva que havia se alojado como sua parceira de quarto.


Desassistida engolia a vida em atropelo: o café, a cápsula de antipsicótico, a bolacha Maria, tudo ingerido a contragosto. A resistência se via nos resíduos constantes entre os dentes que a velha puxava com os dedos, agoniada na tentativa de limpar.


Vivendo em cárcere privado, a velha não se lavava mais, não falava ao telefone e desistira do mundo que lhe privara de existir.


Assistia apática ao noticiário que calculava constantemente um cadáver a mais no número de mortos.


O calendário a engolia, arrancando-lhe as gramas, as dobras, as memórias de cinquenta anos atrás que ela recebia contrariada, e a casa agora era assombrada pelos defuntos do pai, do avô e da mãe que morrera quando completara a idade agora da filha. Todos a indagavam, pediam explicações, e ela, confusa, balbuciava respostas inaudíveis.


Não havendo mais o presente para lhe invadir os dias, o passado adentrava sua morada espaçoso. Os pássaros esbravejavam irritados desde que a velha desfalecera. No pote de alpiste vazio gotejava um pingo barrento que escorria da telha, e a velha não dormia, perturbada pelo berrante som da vida exterior.


Era estranha esta sensação de estar trancada sem ao menos passar as chaves na porta. Do que adiantava a liberdade das frestas entreabertas se a morte caçava os aposentados nas calçadas, parques e botecos?


BRISOLARA, Maria Isabel Teixeira. A velha. In: UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA. Pandemia em contos. Florianópolis: UFSC, 2023. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/244169/Pandemi a_em_contos-Ebook-2fev23.pdf?sequence=1&isAllowed=y . Acesso em: 21 nov. 2025.

No trecho "Vivendo em cárcere privado, a velha não se lavava mais, não falava ao telefone e desistira do mundo que lhe privara de existir", os pronomes "se" e "lhe" cumprem funções sintáticas distintas e estão corretamente colocados segundo a norma padrão, uma vez que:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: No trecho "a velha não se lavava mais, não falava ao telefone e desistira do mundo que lhe privara de existir", o "se" em "não se lavava" é pronome reflexivo com próclise obrigatória pela atração de "não", e o "lhe" em "que lhe privara de existir" é pronome oblíquo átono com função de objeto indireto; por isso, a alternativa correta é a D.

Tema central: Funções morfossintáticas de se e lhe
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra na análise de "lhe". Embora acerte ao dizer que "se" é reflexivo e está em próclise por causa da palavra negativa, classifica "lhe" como objeto direto, o que contraria a base da questão, segundo a qual ele funciona como objeto indireto em "que lhe privara de existir". Também erra ao afirmar que deveria estar posposto ao verbo por ser contexto afirmativo, pois a estrutura com o relativo "que" admite a próclise empregada no texto.
B
Errada
O erro está em tratar o "se" como pronome apassivador. Em "a velha não se lavava", o sujeito pratica e sofre a ação, o que caracteriza reflexividade, não voz passiva sintética. A alternativa também erra ao dizer que "lhe" é complemento nominal, quando ele complementa o verbo no segmento "que lhe privara de existir"; portanto, sua função é de objeto indireto, não de complemento de nome.
C
Errada
A alternativa contraria diretamente a regra de colocação pronominal acionada pelo trecho. Em "não se lavava", a presença de "não" impõe próclise, de modo que a colocação do "se" está correta, não incorreta. Além disso, classificar "lhe" como agente da passiva é incompatível com o trecho, porque ali ele funciona como complemento verbal indireto, e não há estrutura passiva que sustente essa análise.
D
Certa
A alternativa D acerta os dois pontos exigidos pela questão. Primeiro, reconhece que "se" em "não se lavava" é reflexivo: a ação recai sobre o próprio sujeito, "a velha". Além disso, sua posição antes do verbo está correta porque a palavra negativa "não" exige próclise. Segundo, identifica corretamente "lhe" em "que lhe privara de existir" como objeto indireto, e sua colocação antes do verbo é compatível com a estrutura introduzida pelo pronome relativo "que". Assim, a alternativa reúne corretamente a natureza morfossintática comum dos dois pronomes e a função sintática distinta de cada um.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: tomar todo "se" com verbo transitivo como apassivador e aplicar mecanicamente a ideia de que oração afirmativa pede ênclise, ignorando a atração exercida por "não" e por "que". Também tenta induzir a troca de objeto indireto por objeto direto no caso de "lhe".
Dica para questões semelhantes
  • Verifique primeiro se o sujeito pratica e sofre a ação; se isso ocorrer, o "se" tende a ser reflexivo, não apassivador.
  • Antes de julgar a posição do pronome, procure palavra atrativa no trecho, especialmente "não" e pronome relativo como "que".
  • Não classifique "lhe" como objeto direto: na lógica cobrada pela questão, ele funciona como objeto indireto.
  • Resolva esse tipo de item combinando duas etapas: função sintática do pronome e regra de colocação pronominal no contexto exato.

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