“Olhou-a com seu olhar inumerável e viu-a do ápice à base ...

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Q3653822 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão.


Poesia matemática


Às folhas tantas

do livro matemático

um Quociente apaixonou-se

um dia

doidamente

por uma Incógnita.

Olhou-a com seu olhar inumerável

e viu-a do ápice à base

uma figura ímpar;

olhos romboides, boca trapezoide,

corpo retangular, seios esferoides.

Fez de sua uma vida

paralela à dela

até que se encontraram

no infinito.

"Quem és tu?", indagou ele

em ânsia radical.

"Sou a soma do quadrado dos catetos.

Mas pode me chamar de Hipotenusa."

E de falarem descobriram que eram

(o que em aritmética corresponde a almas irmãs)

primos entre si.

E assim se amaram

ao quadrado da velocidade da luz

numa sexta potenciação

traçando

ao sabor do momento

e da paixão

retas, curvas, círculos e linhas senoidais

nos jardins da quarta dimensão.

Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas

euclidianas

e os exegetas do Universo Finito.

Romperam convenções newtonianas e

pitagóricas.

E enfim resolveram se casar

constituir um lar,

mais que um lar,

uma perpendicular.

Convidaram para padrinhos

o Poliedro e a Bissetriz.

E fizeram planos, equações e diagramas para o 

futuro

sonhando com uma felicidade

integral e diferencial.

E se casaram e tiveram uma secante e três cones

muito engraçadinhos. (...)


FERNANDES, Millôr. Poesia matemática. Disponível em .https://www.ime.usp.br/~abe/lista/

“Olhou-a com seu olhar inumerável

e viu-a do ápice à base

uma figura ímpar”


Em relação ao significado das três palavras destacadas no trecho acima, transcrito do texto, assinale a alternativa correta.

Alternativas

Gabarito comentado

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Tema da questão: interpretação de texto com foco em polissemia (duplo sentido) e leitura conotativa, explorando o campo semântico da Matemática aplicado poeticamente.

Palavras-chave do verso: ápice, base, ímpar. No poema, elas funcionam com duplo sentido: um matemático/geométrico e outro cotidiano/figurativo.

Estratégia para resolver:

1) Identifique se os termos têm uso técnico (matemático) e uso comum (figurativo). 2) Teste sinônimos no contexto para ver se a frase continua fazendo sentido. 3) Observe a coerência com o enredo romântico do poema (olhar detalhado da amada, metáforas geométricas).

Gabarito: B

Por que está correta? As três palavras destacadas têm leitura técnica e leitura comum:

- ápice e base: na Matemática/Geometria, são partes de figuras. Na linguagem comum, formam a ideia de totalidade do corpo, e a expressão “do ápice à base” equivale a “da cabeça aos pés” (ou seja, de cima a baixo, por inteiro).

- ímpar: na Matemática, número que não é múltiplo de 2; no uso figurado, significa “singular, diferente, notável”. No verso, “uma figura ímpar” sugere que ela é especial, distinta.

Fundamentação linguística

- Polissemia e conotação: a poesia explora sentidos conotativos (cf. Bechara, Moderna Gramática Portuguesa, ao tratar de linguagem denotativa vs. conotativa).

- Ortografia (VOLP): “ápice” (proparoxítona, acento obrigatório), “ímpar” (paroxítona terminada em r, acento obrigatório), “base” (sem acento). A sequência “do ápice à base” registra crase por fusão de preposição “a” + artigo “a” (regência do movimento “de... a...”), conforme gramática normativa.

Análise das alternativas

A) Incorreta. Embora reconheça o duplo sentido, erra ao dizer que “do ápice à base” equivale a “dos pés à cabeça”. A leitura consagrada é “da cabeça aos pés” (de cima para baixo) — direção coerente com “ápice” (topo) → “base” (fundamento). Além disso, define “ímpar” como “comum”, o que contraria o uso figurado esperado (“singular, especial”).

B) Correta. Capta o duplo sentido e acerta os equivalentes: “do ápice à base” = “da cabeça aos pés” e “ímpar” = “diferente/singular”.

C) Incorreta. “Do ápice à base” não significa “daqui em diante”; isso é deslocamento temporal, não espacial/corporal. Além disso, repete o equívoco de tomar “ímpar” como “comum”.

D) Incorreta. O texto é nitidamente metafórico: termos matemáticos ganham sentido afetivo/poético. Logo, não é uma leitura “puramente matemática”.

E) Incorreta. O eu lírico percebe minuciosamente a outra personagem (“olhou-a… viu-a… figura ímpar”), o que invalida a ideia de que não percebeu suas características.

Dica para futuras provas

- Diante de termos técnicos em poemas, procure o sentido figurado somado ao técnico. Substitua por sinônimos cotidianos e verifique a coerência da frase. Palavras como “ápice” e “base” frequentemente constroem a ideia de totalidade (“de cima a baixo”), e “ímpar” tende a significar “especial”.

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