Os fatos apresentados no texto “Poesia matemática” são apre...
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Poesia matemática
Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos romboides, boca trapezoide,
corpo retangular, seios esferoides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas senoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas
euclidianas
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e
pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
uma perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o
futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos. (...)
FERNANDES, Millôr. Poesia matemática. Disponível em
Gabarito comentado
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Tema da questão: interpretação de texto – identificação da voz narrativa (pessoa do discurso) e do ponto de vista do narrador.
Estratégia para resolver: procure as marcas linguísticas que revelam a pessoa do discurso: pronomes e verbos. Se o narrador usa ele/ela e verbos na 3ª pessoa (ex.: “apaixonou-se”, “resolveram”), trata-se de narrador externo aos personagens. Se houver “eu”, “nós” narrando os fatos, seria 1ª pessoa. Atenção à pegadinha: falas dos personagens em 1ª pessoa (entre aspas) não significam que o narrador é de 1ª pessoa.
Como o texto sinaliza a resposta: a narrativa é construída com 3ª pessoa e com um narrador que observa os personagens “Quociente” e “Incógnita”. Exemplos de marcas textuais:
• “um Quociente apaixonou-se” (verbo na 3ª pessoa);
• “indagou ele” (pronome de 3ª pessoa);
• “resolveram se casar”, “convidaram”, “fizeram”, “se casaram”, “tiveram” (flexões da 3ª pessoa).
Já as falas “Quem és tu?” e “Sou a soma do quadrado...” são diálogos dos personagens, não do narrador.
Fundamentação normativa: na gramática normativa, a 1ª pessoa é o “eu/nós” (quem fala), a 2ª é o “tu/vós/você(s)” (com quem se fala) e a 3ª é “ele/ela/eles/elas” (de quem se fala). O narrador em 3ª pessoa é heterodiegético, isto é, não participa como personagem. Ver: Bechara, Moderna Gramática Portuguesa; Cunha & Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo.
Alternativa correta: E – A narração é feita por uma voz que se diferencia dos personagens e relata os fatos em 3ª pessoa. As formas verbais e pronominais destacadas confirmam isso. Assim, o narrador é externo (observador) à história.
Por que as demais estão erradas?
A – Diz que o narrador se confunde com o leitor e usa 1ª pessoa. Incorreto: não há “eu” narrador; o texto não se dirige ao leitor como narrador-participante.
B – Diz que o narrador é um personagem e usa 1ª pessoa. Incorreto: o enredo é contado por alguém de fora, em 3ª pessoa. As falas em 1ª pessoa são dos personagens, não do narrador.
C – Afirma que o narrador se confunde com um personagem, mas em 3ª pessoa. Inconsistente: se fosse personagem-narrador, haveria marcas de 1ª pessoa. Não é o caso; trata-se de narrador externo.
D – Diz que o narrador se diferencia dos personagens, mas usa 1ª pessoa. Contradição com o próprio texto, que apresenta 3ª pessoa de forma sistemática.
Dica para futuras questões: isole as falas diretas (entre aspas) e veja quem fala; depois, observe o restante da narração. Se o fio narrativo principal está em 3ª pessoa (“ele/ela”, verbos em -ou, -aram), a perspectiva é externa. Maiúsculas estilísticas (ex.: “Hipotenusa”, “Incógnita”) são personificação e não alteram a pessoa do narrador. Segundo o VOLP, “hipotenusa” grafa-se com minúscula; a maiúscula no poema é licença poética.
Gabarito: E
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