Saía para a balada todas as noites. Pai e mãe
descabelados. Dormia até tarde. Apareceu com uma
tatuagem no braço. Um desenho que não parecia
fazer sentido.
— O que é, meu filho? gemeu a mãe.
— Tribal.
Logo a mãe descobriu que há “escolas ” de tatuagem
tribais, étnicas, new age...
O pai quase teve um infarto. Piorou quando soube
que a turminha do prédio estava se reunindo em um
apartamento vazio, com três velhos colchões
jogados. O porteiro dedou:
— Ficam lá, a noite toda, ouvindo música. Isso é
consequência de uma sociedade que não apela para
a moral do jovem.
Foram expulsos. A tia comentou:
— Se ao menos ele tivesse uma boa namorada!
Apareceu com um a candidata. Tinha piercing nas
sobrancelhas. A mãe tentou se conformar.
— Até que é bonitinho!
Ela abriu a boca para agradecer. Também tinha
piercing na língua!
De noite, a mãe quis aconselhar:
— Meu filho, e se sua língua ficar presa?
O rapaz olhou- a como se fosse marciana.
—Tá me tirando, mãe?
Outra surpresa:
— Ah, meu filho, a traça roeu sua camiseta, está
cheia de furinhos.
— Comprei assim. É lançamento.
Viu a etiqueta da grife italiana. Adquirida em dez
prestações no cartão!
— Você pagou tanto por uma camiseta furada!
De noite, na solidão do quarto, o pai se contorcia.
— O que vai ser desse rapaz?
Prestou vestibular. Para surpresa de todos, passou.
Faculdade em uma cidade próxima. Dali a alguns
meses, anunciou:
— Arrumei trabalho!
Alívio.
— Qual o salário?
— É voluntário. Em uma ONG para proteger os
meninos de rua!
O casal fugiu para o cinema. Durante a pizza, o pai
vociferava:
— Pode se dar ao luxo de ser voluntário porque tem
quem o sustente! No meu tempo eu só pensava
em comprar um carro novo!
A mãe refletiu. Anos a fio, trocando de carro. De casa.
Seria tão bom não ter esse tipo de preocupação!
O marido insistiu. Era o caso de chamar um
terapeuta. Marcaram consulta.
— Para quê? Não preciso de terapia!
—Você precisa conversar, tem de tomar rumo na
vida! — explicou o pai.
A custo, foi convencido. Não sem alguma chantagem
financeira.
O psicólogo o recebeu em uma sala aconchegante,
com poltronas.
— Por que veio aqui?
— Meu pai mandou. Eu mesmo não tinha a menor
vontade.
Péssimo começo.
— Não costumo receber ninguém porque o pai
mandou. Estudei com a sua mãe. Estou aqui como
amigo. Não considere que é uma consulta.
— Meus pais não me entendem.
— Quem sabe você possa me dizer por quê.
— Eu quero qualidade de vida, sabe? Não passar o
tempo todo me matando par a ter coisas. Quem sabe
mais tarde vou morar numa praia. . . e trabalhar com
alguma coisa de que eu goste. Sei lá, entrei numa
ONG.. .
— O terapeuta observou as tatuagens (agora já eram
cinco), o brinco ousado, a camiseta torta. Cabelos
espetados. Atrás da aparência selvagem, reconhece
seu passado. Em sua época, a juventude também
fora assim. Com projetos
de vida. Teve uma sensação de alegria, porque
afinal. ..a juventude continuava sendo. .. a
juventude.
— O que você mais quer? — perguntou.
— Dividir a vida com alguém. O mundo anda
complicado, tanta doença.... Eu queria ter uma
relação fixa. Eu só dela, ela só minha!
Sorriu:
— Quem sabe ter um filho, mais tarde.
Despediu-se do terapeuta com um abraço. O
profissional ligou.
— Qual o problema do meu filho? — quis saber o pai.
— O problema é nosso, que esquecemos como
fomos. E, parafraseando a música, nos tornamos
como nossos pais.
— Ahn?
Quando o pai desligou, sorria. Tudo era muito
diferente, mas, no fundo, igual!
Quem disse que os jovens não têm mais sonhos?
Walcyr CARRASCO. Histórias para sala de aula:
crônicas do cotidiano. SP: Moderna,2010. p.107 -
110.
No período “Ah, meu filho, a traça roeu sua
camiseta, está cheia de furinhos” o termo destacado
classifica-se sintaticamente como:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Compare seu desempenho com quem faz o mesmo concurso. Ver concorrência
teste
Parabéns! Você acertou!
Compare seu desempenho com quem faz o mesmo concurso. Ver concorrência