Há versos célebres que se transmitem através das
idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de
marear, sinais de trânsito, bússolas — ou segredos.
Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas
mãos de Carlos Drummond de Andrade, acompanha-me desde que nasci, por um desses misteriosos acasos
que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda
não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso de
tempo sem medida. Considero privilégio meu dispor
deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na
vida me tenho interrogado: «E agora?» Foram aquelas
horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo
se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos
ficaram vazias e atónitas. «E agora, José?» Grande,
porém, é o poder da poesia para que aconteça, como
juro que acontece, que esta pergunta simples aja como
um tónico, um golpe de espora, e não seja, como
poderia ser, tentação, o começo da interminável
ladainha que é a piedade por nós próprios.
Em todo o caso, há situações de tal modo absurdas (ou
que o pareceriam vinte e quatro horas antes), que não
se pode censurar a ninguém um instante de desconforto
total, um segundo em que tudo dentro de nós pede
socorro, ainda que saibamos que logo a seguir a mola
pisada, violentada, se vai distender vibrante e
verticalmente armar. Nesse momento veloz tocara-se o
fundo do poço.
[...]
José Saramago. https://www.contioutra.com/e-agora-jose-cronica-de-saramago-inspirada-no-poemahomonimo-de-drummond/
Sobre o período ―Há versos célebres que se
transmitem através das idades do homem,‖ é correto
afirmar que: