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Q3839193 Português
Uma breve história da violência

“Ninguém que se tenha dedicado a pensar a história e a política pode permanecer alheio ao enorme papel que a violência sempre desempenhou nos negócios humanos, e, à primeira vista, é surpreendente que a violência tenha sido raramente escolhida como objeto de consideração especial. (Na última edição da Enciclopédia de Ciências Sociais, “violência” nem sequer merece menção.) Isso indica quanto a violência e sua arbitrariedade foram consideradas corriqueiras e, portanto, negligenciadas; ninguém questiona ou examina o que é óbvio para todos. Aqueles que viram apenas violência nos assuntos humanos, convencidos de que eles eram “sempre fortuitos, nem sérios nem precisos” (Renan), ou de que Deus sempre esteve com os maiores batalhões, nada mais tinham a dizer a respeito da violência ou da história. Quem quer que tenha procurado algum sentido nos registros do passado viu-se quase obrigado a enxergar a violência como um fenômeno marginal. Seja Clausewitz denominando a guerra como a “continuação da política por outros meios”, seja Engels definindo a violência como o acelerador do desenvolvimento econômico, a ênfase recai sobre a continuidade política ou econômica” (Hannah Arendt).

Como constatou Hannah Arendt, no fragmento que constitui a epígrafe deste livro, não é possível compreender a história humana sem a violência. Essa sentença não exprime apenas um juízo de valor ou uma condenação moral, mas uma constatação estrutural, que exige ser enfrentada em suas múltiplas dimensões filosóficas, econômicas, políticas e culturais. A violência não constitui mera exceção ao curso da história, um desvio ocasional em tempos de guerra ou instabilidade, mas uma condição constitutiva das formas sociais.

Longe de se limitar a episódios de repressão estatal, conflitos armados ou convulsões sociais visíveis, a violência se manifesta de maneira difusa, institucional e legitimada, organizando a vida coletiva desde seus alicerces.

Ela funda ordens políticas ao definir quem governa e quem obedece, legitima instituições ao silenciar os vencidos em nome da estabilidade, molda culturas ao determinar o que pode ser lembrado e o que será esquecido, desloca populações inteiras por meio da guerra, do colonialismo ou da especulação urbana, estabelece direitos ao mesmo tempo em que os nega a outros, produz riqueza expropriando corpos, terras e saberes, impõe fronteiras simbólicas e geopolíticas que distinguem os “civilizados” dos “bárbaros”, os incluídos dos descartáveis.

Nesse sentido, a violência é mais do que um ato: é uma lógica, um dispositivo histórico de organização da desigualdade, que atravessa as instituições e opera sob a aparência de normalidade. Ao compreender isso, não se trata de naturalizar a violência, mas de reconhecê-la como motor oculto de muitos processos que costumamos celebrar como progresso, civilização ou ordem. 

Ignorar esse traço estrutural é perpetuar sua invisibilidade e dificultar qualquer tentativa efetiva de transformação social. Como advertiu Arendt, o desafio não é apenas denunciar a violência, mas desmascarar sua banalidade, sua presença silenciosa e reiterada no tecido ordinário da história humana.

Nesse contexto, a guerra também não se apresenta como um desvio da racionalidade política, mas a sua expressão concentrada, como sugerem diversas leituras críticas da tradição realista. Invertendo a célebre máxima de Carl Clausewitz (2014), pode-se afirmar que a paz não é o contrário da guerra, mas sua forma administrada, sua continuidade sob outros meios e disfarces. Os períodos considerados pacíficos, na verdade, muitas vezes representam apenas momentos de dominação estabilizada, nos quais os mecanismos de coerção física, simbólica e econômica operam de forma eficiente e naturalizada.

Essa perspectiva desestabiliza a noção moderna de progresso como trajetória ascendente da razão, da moral ou da técnica. Progresso e destruição caminham juntos. O desenvolvimento de tecnologias de transporte, comunicação e produção esteve frequentemente atrelado à lógica bélica, à exploração colonial, à escravização de povos inteiros e à apropriação forçada de territórios e recursos. A racionalidade técnica que hoje celebramos como inovação surgiu, muitas vezes, em laboratórios militares, campos de batalha ou regimes de vigilância.

As grandes obras da civilização como as pirâmides, impérios, muralhas, cidades monumentais, foram erguidas sobre os escombros da barbárie, sustentadas pelo sofrimento anônimo dos vencidos, escravizados ou silenciados. Talvez a diferença entre civilização e barbárie não resida tanto nas práticas, mas nos discursos que as legitimam.

Chamamos de civilização quando a violência é institucionalizada, eficaz e reconhecida como necessária. Chamamos de barbárie quando ela nos escapa ao controle, nos ameaça ou nos expõe. Nesse sentido, a linguagem é cúmplice da dominação: nomear, ocultar, eufemizar são formas de continuar a guerra sob o signo da razão.

Compreender isso exige não a negação das conquistas humanas, mas uma crítica radical à sua genealogia. Por isso, a história da humanidade não pode ser escrita como epopeia do progresso, mas como uma crônica tensa entre violência e sentido, dominação e resistência, memória e esquecimento.

(Texto de autoria de José Micaelson Lacerda Morais. Uma breve história da violência: poder, progresso e o motor bélico da humanidade. Independently Published, 2025). 
Assinale a alternativa corretamente empregada:  
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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O comando "Assinale a alternativa corretamente empregada:" define critério exclusivamente normativo, exigindo a adequação da forma ao contexto sintático. Pela regra, "por que" usa-se em perguntas diretas ou indiretas com sentido de "por qual motivo/razão"; assim, em "Gostaria de saber por que você faltou.", a interrogativa é indireta, o que torna a alternativa B a única correta.

Tema central: Emprego de por que, porque, por quê e porquê
Análise das alternativas
A
Errada
Em "Não sei porquê você faltou.", o contexto também é de interrogativa indireta, com sentido de "por qual motivo você faltou". Nessa estrutura, a forma correta é "por que", não "porquê". "Porquê" é substantivo e costuma vir antecedido de determinante, o que não ocorre aqui.
B
Certa
Na alternativa B, "por que" introduz uma interrogativa indireta e equivale a "por qual motivo": "Gostaria de saber por que você faltou." Não há valor causal nem explicativo; há uma indagação encaixada na oração principal. Por isso, a forma normativa correta é "por que".
C
Errada
Em "Você faltou porque?", a expressão aparece no final de enunciado interrogativo. Nesse caso, a forma normativa é "por quê", com acento. Além disso, a banca explora a confusão entre "porque" conjunção e "por quê" interrogativo final.
D
Errada
Em "O motivo do atraso é por que.", a forma usada não completa adequadamente a estrutura. Depois do verbo de ligação, o contexto pede substantivo: "o porquê". O erro não é apenas gráfico; é também de classe gramatical e de estrutura sintática, porque "por que" sem oração completiva nem valor substantivado fica inadequado.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre pergunta direta, pergunta indireta, posição final do enunciado e uso substantivado: muitos candidatos marcam pela sonoridade da expressão e não pela função sintática de cada forma.
Dica para questões semelhantes
  • Primeiro identifique se a frase expressa pergunta direta, pergunta indireta, causa/explicação ou substantivo.
  • Use "por que" quando a expressão equivaler a "por qual motivo", inclusive em interrogativa indireta.
  • Se a expressão estiver no final de pergunta, a forma normativa é "por quê".
  • Se o contexto pedir um nome, como em "o motivo" ou "o porquê", verifique se cabe o substantivo "porquê", normalmente com determinante.

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Comentários

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LETRA A) SEM COMENTARIOS.

GOSTARIA DE SABER O MOTIVO (PORQUÊ) VC FALTOU.

B

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