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Q3951679 Português
O miado das onças-pintadas: registros inéditos mostram como mães se comunicam com filhotes sem atrair machos


O som registrado não correspondia ao que se esperava — e foi exatamente essa diferença que despertou o interesse dos pesquisadores. Câmeras instaladas no Parque Nacional do Iguaçu flagraram onças-pintadas emitindo vocalizações curtas, agudas e repetidas, muito semelhantes a miados.


O achado é inédito. Até então, predominava na literatura científica a ideia de que esses animais se comunicavam apenas por meio do esturro, vocalização grave e característica da espécie. De acordo com a bióloga Vânia Foster, do projeto Onças do Iguaçu, que monitora onças-pintadas desde a década de 1990, a bibliografia sempre indicou que as espécies do gênero Panthera não teriam capacidade de miar, em razão da conformação da traqueia e da laringe, o que restringiria sua comunicação sonora ao esturro.


O avanço tecnológico, contudo, trouxe novos dados. O uso de câmeras com monitoramento contínuo e microfones permitiu aos pesquisadores constatar que o esturro não é a única forma de comunicação das onças. Foster relata que o primeiro registro ocorreu em 2020, quando os equipamentos captaram uma fêmea emitindo miados enquanto chamava seu filhote. Posteriormente, novos áudios da mesma fêmea foram gravados em situações em que ela parecia não saber onde o filhote estava. Já em 2023, os papéis se inverteram: foi o filhote que passou a miar para chamar a mãe.


A constatação causou estranhamento na equipe, pois esse tipo de vocalização não estava descrito na bibliografia, tampouco havia informações sobre sua variação ou sobre a possibilidade de um mesmo indivíduo emitir diferentes tipos de miado. Diante disso, os pesquisadores buscaram apoio especializado para descrever e compreender melhor esses sons.


O grupo passou a trabalhar com a pesquisadora Marina Duarte, da Universidade de Salford, no Reino Unido, especialista em bioacústica — área que estuda a comunicação sonora dos animais. Com o auxílio de ferramentas analíticas, a equipe conseguiu converter os sons gravados em dados numéricos, o que permitiu compará-los com outras vocalizações conhecidas das onças.


A análise revelou um dado surpreendente: havia pelo menos três tipos distintos de miados. Segundo Duarte, além de comprovar de forma matemática e estatística que essas vocalizações diferem daquelas já descritas na literatura, o estudo demonstrou que o repertório vocal relacionado ao miado é mais complexo do que se supunha.


Ao longo da pesquisa, os miados foram observados exclusivamente em contextos de comunicação entre mães e filhotes. Foster explica que há uma razão funcional para isso. O esturro é uma vocalização típica de onças adultas, tanto machos quanto fêmeas, enquanto os filhotes não são capazes de produzi-lo, pois ainda não possuem as cordas vocais plenamente desenvolvidas.


Para evitar chamar a atenção de machos adultos, as fêmeas utilizam os miados como forma de comunicação com os filhotes, em uma espécie de comunicação maternal. Caso a fêmea esturrasse na presença dos filhotes, poderia atrair outros machos para a região. Como esses animais apresentam comportamento de infanticídio, a aproximação representaria um risco real de morte para os filhotes.


Duarte acrescenta que essa ameaça pode ter funcionado como uma pressão seletiva, favorecendo a evolução desse tipo de comunicação específica entre mãe e filhote. Na bioacústica, esse processo é chamado de modulação: mesmo sem possuir um aparato vocal originalmente adaptado ao miado, a fêmea consegue ajustar a vocalização de modo a torná-la adequada à comunicação com os filhotes.


A pesquisadora observa que esse mecanismo se assemelha ao que ocorre entre humanos, quando adultos modulam a voz ao falar com bebês, utilizando entonação diferenciada para facilitar a interação. Essa analogia, segundo ela, torna ainda mais expressivo o significado dos registros e reforça o caráter singular da descoberta.


https://www.bbc.com/portuguese/articles/cre208z8l80o.adaptado.

O texto apresenta resultados obtidos após a análise técnica dos sons registrados, evidenciando avanços na compreensão do repertório vocal da espécie estudada.
A partir desse enfoque, é CORRETO afirmar que a contribuição da análise bioacústica para a pesquisa consistiu em:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O comando pede a contribuição específica da análise bioacústica, e o texto a define de modo literal no trecho em que "a equipe conseguiu converter os sons gravados em dados numéricos" e "a análise revelou" que havia "pelo menos três tipos distintos de miados", comprovando "de forma matemática e estatística" que essas vocalizações diferem das já descritas na literatura. Por isso, a alternativa D é a única compatível com o resultado técnico apontado pelo texto.

Tema central: análise bioacústica
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque afirma insuficiência científica dos registros e ausência de apoio instrumental, quando o texto diz o contrário: houve "ferramentas analíticas", conversão dos sons em "dados numéricos" e comparação com outras vocalizações. O erro é de incompatibilidade semântica com a informação literal do texto.
B
Errada
Está errada porque transforma os miados em simples variações do esturro, mas o texto afirma que as vocalizações analisadas "diferem daquelas já descritas na literatura" e revela "pelo menos três tipos distintos de miados". O erro está em falsear a relação entre miado e esturro: a pesquisa não detalhou o esturro tradicional, mas mostrou vocalizações distintas dele.
C
Errada
Está errada por generalização indevida. O texto restringe a observação dos miados ao seguinte recorte: "Ao longo da pesquisa, os miados foram observados exclusivamente em contextos de comunicação entre mães e filhotes." Além disso, a análise apontou diversidade, não uniformidade: havia "pelo menos três tipos distintos de miados". O erro é extrapolar o achado para todas as onças, idades, sexos e contextos.
D
Certa
A alternativa D está correta porque retoma com fidelidade o resultado atribuído pelo texto à análise bioacústica: os sons foram convertidos em dados numéricos, comparados com outras vocalizações e, com isso, ficou comprovado de forma matemática e estatística que havia diferentes tipos de miados e que eles diferiam das vocalizações já descritas na literatura. Não se trata de descrição impressionista, mas de validação analítica do caráter distinto e mais complexo desse repertório vocal.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre duas coisas diferentes: o estranhamento inicial diante dos sons e a contribuição específica da análise bioacústica. O que vale para responder não é a surpresa dos pesquisadores nem a hipótese sobre o esturro, mas o resultado técnico comprovado por ferramentas analíticas, dados numéricos e demonstração matemática e estatística.
Dica para questões semelhantes
  • Recorte o comando da questão: se ele pede a contribuição de um método de análise, procure no texto o trecho que mostra exatamente o que esse método permitiu concluir.
  • Dê preferência à alternativa que parafraseia o resultado final do texto sem mudar o sentido de termos decisivos como "dados numéricos", "compará-los", "tipos distintos" e "comprovar de forma matemática e estatística".
  • Elimine generalizações quando o texto trouxer restrição expressa, como "exclusivamente".
  • Desconfie de alternativas que trocam descoberta nova por mera variação de algo já conhecido, quando o texto afirma diferença em relação ao que a literatura descrevia antes.

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