No que se refere a alguns elementos lingüísticos utilizad...

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Ano: 2006 Banca: IPAD Órgão: SEDUC-PE Prova: IPAD - 2006 - SEDUC-PE - Pedagogo |
Q464585 Português
                                                                                                                TEXTO 1

    Falar é como andar. Acontece naturalmente, da mesma forma, nas mesmas faixas etárias, em qualquer parte do planeta Terra, independentemente de raça, de cultura, de cor, de gênero e de ensino formal. Basta que sejamos seres humanos.
    É mesmo fato que os homens se distinguem dos outros animais por andar sobre os dois pés, por dominar um sistema de comunicação duplamente articulado (com unidades sonoras e unidades significativas), denominado ‘língua natural’ ou ‘língua humana’, e por manifestar inteligência diferenciada que os habilita a criar extensões tecnológicas de todas as partes de seu corpo, até de seu cérebro, como a criação do computador. É fato também que não temos escolha: somos humanos, então falamos. Falamos porque internalizamos ou especializamos uma língua natural específica a partir do ambiente social em que nascemos e vivemos: o domínio de uma ou mais línguas humanas é uma capacidade específica da espécie humana. Nem sabemos ainda qual é o limite do número de línguas que podemos dominar. É fato, todavia, que com 3 anos de idade, qualquer criança de qualquer parte do mundo se comunica com estruturas lingüísticas complexas.
    Mas as línguas humanas não são os únicos sistemas de comunicação existentes. Todos os animais conhecidos têm sistema de comunicação, alguns já bem registrados, como o das abelhas, o dos chimpanzés, o dos golfinhos. Ser capaz de se comunicar no interior da espécie e mesmo entre as espécies não significa ter uma língua humana. Os cães de estimação, por exemplo, têm grande capacidade de comunicação com os seres humanos, olho no olho, mas não são capazes de dominar uma língua humana.
    As línguas humanas são, sem dúvida, excelentes instrumentos de comunicação, embora mal-entendidos entre os seres humanos sejam comuns, mesmo quando há domínio de uma mesma língua, de uma mesma variedade. As línguas humanas são, em verdade, mais do que excelentes instrumentos de comunicação. São, também, reflexo da cultura de um povo. São, além disso, parte da cultura de um povo. São ainda mais do que isso: são mecanismos de identidade. Um povo se individualiza, se afirma e é identificado em função de sua língua.
        Por outro lado, podemos desempenhar um papel desumano por meio das línguas humanas, como o exercício do poder desmedido, a prática do preconceito lingüístico sem lei, que nos leva a subjugar o outro, a alijar o outro do processo produtivo, a diminuir a sua auto-estima, a fazer o outro se sentir incapaz, se sentir inferior, se sentir infeliz, tudo por meio de formas lingüísticas. As línguas humanas podem, sim, ser excelentes instrumentos, mas podem ser também perversos instrumentos de poder e de dominação, especialmente quando se naturalizam relações espúrias entre determinadas construções lingüísticas e as pessoas que as falam.

Scherre, Maria Marta P. In: Doa-se lindos filhotes de poodle: variação lingüística, mídia e preconceito. São Paulo: Parábola, 2005, p.9-10. Adaptado.

No que se refere a alguns elementos lingüísticos utilizados no texto 1, analise as afirmações a seguir.

1. No trecho: “... por dominar um sistema de comunicação duplamente articulado (com unidades sonoras e unidades significativas), denominado ‘língua natural’ ou ‘língua humana’...”, os parênteses foram utilizados para demarcar uma explicação.
2. “Por outro lado, podemos desempenhar um papel desumano por meio das línguas humanas...”. Nesse trecho, a expressão destacada indica a introdução de uma retificação.
3. “É fato também que não temos escolha: somos humanos, então falamos.” Nesse trecho, bem como ao longo do texto 1, o uso da primeira pessoa do plural indica multiplicidade de autoria.
4. “... especialmente quando se naturalizam relações espúrias entre determinadas construções lingüísticas e as pessoas que as falam.” – Nesse trecho, o pronome sublinhado refere-se a ‘construções lingüísticas’.

Estão corretas:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: A sequência é: 1 verdadeira, 2 falsa, 3 falsa e 4 verdadeira. O critério decisivo é o contexto: “Por outro lado” introduz contraste, não correção; em “É fato também que não temos escolha: somos humanos, então falamos.”, o plural inclui a autora entre os seres humanos, sem indicar vários autores. Portanto, apenas 1 e 4 estão corretas.

Tema central: Funções discursivas e referenciação
Análise das alternativas
A
Errada
Inclui indevidamente as afirmações 2 e 3. “Por outro lado” apresenta a possibilidade de uso desumano das línguas em contraste com suas funções positivas, sem corrigir o que foi dito. As formas “temos”, “somos” e “falamos” incluem a autora no conjunto dos seres humanos, não comprovam autoria coletiva.
B
Errada
Exclui a afirmação 1, embora o conteúdo entre parênteses explique a dupla articulação ao identificar unidades sonoras e significativas. Além disso, inclui 2 e 3, falsas: o conector estabelece contraste, não retificação, e a primeira pessoa do plural tem alcance inclusivo, não indica vários autores.
C
Certa
A alternativa C reúne as duas afirmações sustentadas pelo texto. Na afirmação 1, o segmento “(com unidades sonoras e unidades significativas)” esclarece em que consiste a dupla articulação, justificando a função explicativa dos parênteses. Na afirmação 4, em “as pessoas que as falam”, “que” retoma “pessoas” e funciona como sujeito de “falam”; já “as” é o objeto direto desse verbo e recupera “construções lingüísticas”.
D
Errada
Seleciona justamente as duas afirmações falsas: a 2 confunde contraste com retificação, e a 3 confunde inclusão da autora entre os seres humanos com multiplicidade de autoria. Também exclui as verdadeiras: a explicação entre parênteses, em 1, e a retomada de “construções lingüísticas” por “as”, em 4.
E
Errada
Acerta ao incluir 1 e 4, mas acrescenta indevidamente a afirmação 2. O último parágrafo apresenta uma possibilidade negativa de uso das línguas, sem retirar a validade de suas funções comunicativas, culturais e identitárias. Há contraste entre perspectivas, não retificação.
Pegadinha da questão
Confundir a apresentação de uma perspectiva contrastante com a correção da informação anterior e interpretar o plural inclusivo como prova de autoria coletiva. Na retomada pronominal, a proximidade de “pessoas” também pode induzir ao erro: esse termo é retomado por “que”, enquanto “as” recupera “construções lingüísticas”.
Dica para questões semelhantes
  • Para distinguir contraste de retificação, verifique se a informação nova apenas acrescenta outra perspectiva ou corrige a anterior.
  • Identifique quem está incluído na primeira pessoa do plural pelo conteúdo do enunciado; o plural, isoladamente, não demonstra autoria coletiva.
  • Determine o antecedente de um pronome pela estrutura sintática e pelo sentido, não apenas pela proximidade ou pela concordância.
  • Verifique o que o conteúdo entre parênteses faz no trecho: aqui, ele explica os dois tipos de unidades da dupla articulação.

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