Vivemos a civilização do automóvel, mas atrás do volante de...

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Q3457575 Português
Solidários na porta


   Vivemos a civilização do automóvel, mas atrás do volante de um carro o homem se comporta como se ainda estivesse nas cavernas. Antes da roda. Luta com seu semelhante pelo espaço na rua como se este fosse o último mamute. Usando as mesmas táticas de intimidação, apenas buzinando em vez de rosnar ou rosnando em vez de morder.

   O trânsito em qualquer grande cidade do mundo é uma metáfora para a vida competitiva que a gente leva, cada um dentro do seu próprio pequeno mundo de metal tentando levar vantagem sobre o outro, ou pelo menos tentando não se deixar intimidar. E provando que não há nada menos civilizado que a civilização. Mas há uma exceção. Uma pequena clareira de solidariedade no jângal. É a porta aberta. Quando o carro ao seu lado emparelha com o seu e alguém põe a cabeça para fora, você se prepara para o pior. Prepara a resposta. “É a sua!” Mas pode ter uma surpresa.

   — Porta aberta!

   — O quê?

   Você custa a acreditar que nem você nem ninguém da sua família está sendo xingado. Mas não, o inimigo está sinceramente preocupado com a possibilidade da porta se abrir e você cair do carro.

   A porta aberta determina uma espécie de trégua tácita. Todos a apontam. Vão atrás, buzinando freneticamente, se por acaso você não ouviu o primeiro aviso. “Olha a porta aberta!” é como um código de honra, um intervalo nas hostilidades. Se a porta se abrir e você cair mesmo na rua, aí passam por cima. Mas avisaram. Quer dizer, ainda não voltamos ao estado animal.


VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020.
Vivemos a civilização do automóvel, mas atrás do volante de um carro o homem se comporta como se ainda estivesse nas cavernas. Antes da roda. Luta com seu semelhante pelo espaço na rua como se este fosse o último mamute.
Na primeira sentença do excerto, a conjunção “mas” desempenha um papel relacionado à coesão textual. Trata-se de um recurso coesivo:
Alternativas

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Tema central: A questão aborda coesão textual, com foco na coesão sequencial, especialmente o papel da conjunção “mas” e seu efeito de oposição entre ideias.

Comentário da questão:

Na frase “Vivemos a civilização do automóvel, mas atrás do volante de um carro o homem se comporta como se ainda estivesse nas cavernas...”, o uso da conjunção "mas" introduz uma ideia oposta à anterior, estabelecendo uma relação de contraste. Segundo a gramática normativa (Celso Cunha & Lindley Cintra, Evanildo Bechara), “mas” pertence ao grupo das conjunções adversativas, que ligam orações ou termos de sentido contrário.

Na análise textual, primeiramente o autor valoriza a modernidade (civilização do automóvel); em seguida, contrapõe essa noção mostrando comportamentos primitivos, criando oposição entre progresso e instinto. É esse mecanismo de coesão sequencial de oposição que garante lógica e fluidez ao texto.

Alternativa correta: C) sequencial de oposição.

Análise das alternativas incorretas:

A) referencial catafórico: Incorreta. Essa coesão ocorre quando um termo antecipa uma informação posterior (ex.: “Isso foi o que aconteceu: a reunião atrasou.”). “Mas” não antecipa elemento algum.

B) referencial anafórico: Incorreta. Coesão anafórica ocorre quando um termo retoma algo já mencionado (“A reunião atrasou, isso preocupou a todos.”). “Mas” não retoma, apenas insere contraste.

D) sequencial de adição: Incorreta. Adição implica soma, continuidade (com “e”, “também”, “bem como”). “Mas” contradiz, não soma ideias.

E) sequencial de explicação: Incorreta. Explicação ocorre com “porque”, “pois”, esclarecendo ou justificando uma ideia. “Mas” não explica, apenas opõe argumentos.

Dica de prova: Sempre identifique se a conjunção aproxima, soma, opõe, explica ou conclui ideias. Conjunções adversativas (“mas”, “porém”, “contudo”) sempre apontam oposição. Isso pode ser decisivo para marcar a alternativa correta em provas de interpretação!

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