Há palavras que nunca circularam amplamente pelo
País, mas que seguem firmes e ativas em certos
cantos do mapa. “Vianda” é um caso assim. No Rio
Grande do Sul, ela está nos cardápios, nos almoços
de trabalho e designa, com naturalidade, a marmita,
seja a simples do dia a dia ou aquela de alumínio,
com divisórias caprichadas para separar os
alimentos – impedindo que o intrépido feijão se
espalhe sem ser autorizado. Mais do que um
regionalismo resistente, “vianda” carrega algo de
identidade. E aí vem a pergunta: como uma palavra
tão localizada conseguiu permanecer tão presente?
Uma pista importante está na própria história
da palavra. Embora a origem remota esteja no latim
vulgar vivanda, “aquilo que serve para viver”, o
termo evoluiu no francês antigo para viande, com o
sentido geral de “comida”. A partir daí – ou
paralelamente, por via direta do latim – chegou ao
espanhol como vianda, significando alimento
preparado. É bastante provável, inclusive, que tenha
sido por meio do espanhol – e não do português
padrão – que o termo entrou e se enraizou no
vocabulário gaúcho.
No cotidiano gaúcho, “vianda” não é apenas uma
palavra que resiste – é um termo ativo, incorporado
ao dia a dia de quem prepara, leva e consome
comida feita em casa. Refere-se à refeição
completa, com sustança: arroz, feijão, carne, farofa,
salada, ovo – o que couber na marmita. Não tem
afetação nem verniz gourmet. Ao contrário: é
palavra direta, popular, útil.
Esse uso está tão sedimentado que aparece até em
recados de restaurante. Em uma visita a Gramado,
um destes articulistas encontrou a seguinte
mensagem colada à parede: “Viandas apenas com
carne serão cobradas à parte”. A frase é simples, mas diz muito. Ali, “vianda” já não nomeava apenas
o conteúdo alimentar, mas também o recipiente – a
marmita – por um processo de metonímia, bastante
comum nas línguas naturais, em que o conteúdo
passa a ser representado pelo continente. Isso
ajuda a entender a vitalidade do termo: se antes
vianda era só o que se comia, agora é também –
talvez, principalmente – o modo de transportar o
alimento, o gesto de levar, de conservar, de cuidar
da própria refeição.
Esse tipo de transformação – quando uma palavra
se desloca de um significado para outro sem perder
sua base cultural – é um dos modos mais sutis e
eficientes de uma língua seguir respirando.
Não deixa de ser simbólico que “vianda”
venha, ainda que de longe, de vivĕre – o verbo latino
para “viver”. É uma palavra que, desde a origem,
está associada ao essencial – ao ato de manter-se
vivo. E, ainda hoje, guarda esse núcleo de sentido.
Quando alguém diz que vai levar a vianda, está
dizendo que carrega o que lhe mantém em pé. Que
prepara, com as próprias mãos ou com o cuidado de
alguém próximo, o alimento que lhe acompanhará
no meio do caminho. É linguagem do cotidiano, mas
também
linguagem
da
resistência.
(https://jornal.usp.br/artigos/vianda-entre-o-feijao-e
a-etimologia/, com adaptações)
No trecho “Não tem afetação nem verniz gourmet”
(3º parágrafo), a palavra “verniz” está sendo usada
em sentido conotativo e, no texto, deve ser
entendida como algo pejorativo, pois representa
uma forma de sofisticação só aparente, artificial.
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