[...] As palavras não são rótulos postos sobre coisas que já existem, mas sim expressões da nossa forma
de ver o mundo. Essa correlação ficou conhecida como
hipótese de Sapir e Whorf. Ao estudarem as línguas indígenas da América do Norte, Edward Sapir (1884-1939) e
Benjamin Lee Whorf (1897-1941) chegaram à conclusão
de que a língua não é “um instrumento de comunicação”,
[...] mas sim um fator decisivo na formação da visão do
mundo.
A invenção da “mudança climática” e do “aquecimento
global”
Está em cartaz no Sesc Pompeia a exuberante exposição Amazônia. Com curadoria de Lélia Wanick Salgado,
a exposição conta com fotos monumentais de Sebastião Salgado e com belos recursos audiovisuais. Entre eles, há vídeos com depoimentos de lideranças indígenas das regiões
fotografadas, relatando dificuldades que lhes vêm sendo impostas pela ação dos não indígenas – inclusive na forma de
políticas públicas.
Em um desses depoimentos, Afukaká Kuikuro,
cacique do povo kuikuro, denuncia como agressões do
“homem branco” à natureza têm gerado prejuízos imensuráveis à sobrevivência na/da floresta. A certa altura, falando dos efeitos danosos da ação humana, ele pondera: “o
homem branco chama isso de ‘mudança climática’”.
É um rico exercício de alteridade tentarmos analisar essa expressão linguística sob a ótica indígena. O termo “mudança climática” chama atenção do cacique, ao
que tudo indica, por soar conveniente, quase hipócrita.
Sem fazer menção explícita ao ato de devastar e destruir
o meio ambiente, adotamos regularmente um substantivo
que expressa um processo, o que acaba por criar a impressão de que se trata de algo em curso natural, espontâneo.
Mesmo o termo “aquecimento global” pode ser
visto nesse viés. Ainda que “mudança” e “aquecimento”
possam ser (e no caso são) processos induzidos, o responsável por essa indução desaparece em ambas as expressões. Nessa ótica, não deixa de parecer desfaçatez
do nosso mundo dizer aos indígenas que está havendo
uma “mudança climática” ou um “aquecimento global”,
quando o que temos é a destruição do meio ambiente.
Pode chamar de “Antropoceno”
O conhecimento científico de geólogos, arqueólogos, geoquímicos, oceanógrafos e paleontólogos já permite
afirmar que entramos em uma nova era geológica, a qual
vem sendo chamada de “Antropoceno”. O termo, ao incorporar o radical grego “antropo-” (“homem”), explicita os impactos da ação humana na crise climática atual, deixando
claro o papel que temos – uns menos, outros bem mais –
nesse atual estado de coisas. Segundo artigo de José Eustáquio Diniz Alves:
“O Antropoceno representa um novo período da
história do Planeta, em que o ser humano se tornou a força impulsionadora da degradação ambiental e o vetor de
ações que são catalisadoras de uma provável catástrofe
ecológica”.
Com algum otimismo, porém, se o termo “Antropoceno”
aponta explicitamente a responsabilidade humana em
uma “provável catástrofe ecológica”, ele também pode
nos mostrar a possibilidade de intervirmos nesse rumo.
Ou, recorrendo mais uma vez à sabedoria de povos originários, podemos investir em “ideias para adiar o fim do
mundo” – título do brilhante ensaio de Ailton Krenak, liderança indígena que precisa ser cada vez mais ouvida.
BRAGA, Henrique; MÓDULO, Marcelo. Nomes brandos para o fim do mundo.
O trecho “Ainda que ‘mudança’ e ‘aquecimento’ possam
ser (e no caso são) processos induzidos, o responsável
por essa indução desaparece em ambas as expressões”
mantém o seu valor argumentativo de oposição em:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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