Toda cidade abriga personagens fixos. Há o filósofo de
fila de padaria, o especialista em clima que prevê chuva
olhando para o joelho e o cidadão que trata vaga de
estacionamento como herança de família. No trânsito, porém,
existe uma figura especialmente notável: o motorista que usa
a seta como item de decoração.
Ele não desconhece a existência do dispositivo. Seria até
injusto acusá-lo disso. Sabe onde a alavanca fica, já a viu de
perto e, em algum momento remoto da formação como
condutor, ouviu dizer que ela serve para indicar ao outro o
que se pretende fazer. O problema nunca foi falta de
informação. Foi excesso de autoconfiança. Esse motorista
acredita, com a serenidade dos mal orientados, que seu carro
transmite pensamento.
Ele vira à direita como quem muda de assunto no meio
da frase. Sem aviso, sem transição, sem a menor cerimônia. O
veículo atrás que descubra, por dedução, vocação profética ou
reflexo de sobrevivência, qual será o próximo movimento
daquela alma apressada. A seta, nesse universo mental, não é
ferramenta. É adereço. Uma joia discreta instalada ao lado do
volante para compor o acabamento interno, como quem diz:
“sim, o automóvel veio completo”.
O mais curioso é que esse mesmo motorista costuma se
indignar profundamente quando os outros não adivinham
suas intenções. Fecha a cara, buzina, gesticula, olha pelo
retrovisor com a decepção de um artista incompreendido. Na
cabeça dele, o erro nunca está na omissão do aviso. Está na
falha geral da humanidade em perceber sinais que não foram
dados. É quase uma doutrina: se eu pensei, os demais
deveriam ter sentido.
Há também o motorista seletivo, primo próximo desse
tipo principal. Ele usa a seta apenas em ocasiões solenes,
como quem retira uma louça fina do armário em dia de visita.
Num retorno importante, talvez. Numa conversão diante de
uma viatura, quem sabe. Fora disso, considera exagero. Para
entrar bruscamente na frente do outro, basta coragem. Para
sair de uma vaga sem prevenir ninguém, basta fé. E assim a
rua vai sendo administrada por impulsos, palpites e pequenos
sustos.
Seria engraçado, e de certo modo é, se não revelasse
algo maior. No fundo, a seta esquecida não é apenas uma
distração mecânica. Ela denuncia uma visão particular do
mundo. Quem não avisa o próprio movimento costuma agir
como se o espaço comum lhe pertencesse em regime de
exclusividade. Os demais aparecem como obstáculos móveis,
figurantes inconvenientes de um roteiro no qual ele se
imagina protagonista. A pressa vira argumento moral. A
imprudência, um detalhe operacional.
Mas o trânsito, essa instituição onde desconhecidos
negociam a paz a cada esquina, não funciona por telepatia.
Funciona por pacto. E pacto exige sinais claros, previsibilidade
mínima e uma dose de respeito que não custa combustível.
Acionar a seta é um gesto pequeno, quase ridículo de tão
simples. Justamente por isso ele tem valor. Não pede talento,
riqueza nem genialidade. Pede apenas a aceitação civilizada
de que o outro não foi colocado na via pública para suportar
surpresas produzidas pela nossa pressa.
Talvez esteja aí a lição, escondida sob o humor cotidiano.
A seta não serve só para indicar para onde o carro vai. Ela
revela de maneira discreta para onde vai o senso de
coletividade de quem dirige. No trânsito e fora dele, muita
confusão começa quando alguém acha desnecessário avisar,
explicar ou considerar o impacto do próprio gesto. Ser adulto,
afinal, talvez seja isso: parar de exigir que o mundo adivinhe
nossas intenções e começar a sinalizá-las com clareza. Até
porque, na vida como na avenida, quem transforma aviso em
ornamento costuma chamar de azar o problema que ele
mesmo fabricou.
Fonte: Banca Elaboradora
No trecho “os demais aparecem como obstáculos móveis”, a
expressão “os demais” classifica-se corretamente como:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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