Em “Afinal, nós nunca aceleramos tanto.” (3º§), a expressão...

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Q2042125 Português
Fazer nada


     Como a visita de um pássaro nos fez pensar no tempo.

        Conseguimos uns dias de folga e fomos passar um tempo cuidando um do outro. No hotel, em Itatiba, deram-nos o quarto 37, que se abre para um mar de morros verdes, com plantações, pastos, florestas. Fica no piso superior, tem pé-direito alto e uma varanda abraçada por árvores repletas de pássaros. À noite, entrou pela janela um passarinho. Minúsculo, branco no peito e na parte inferior da face, preto no dorso e na metade de cima da cabeça. Entrou pelo quarto, acelerado. Voava junto ao teto e não conseguia baixar até a altura da porta por onde havia entrado. Temíamos que se machucasse. Apagamos as luzes. Ele se acalmou e parou para descansar no toucador. Pulou em pé, no chão. Caminhou um pouco, ofegante. Usamos um chapéu para levá-lo à varanda, onde ficou ainda um tempo, refazendo-se. 
     Depois, vimos que deixou de lembrança um cocozinho na nossa cama. De onde teria vindo essa ave? Qual o significado do carimbo de passarinho sobre o lençol? Resisti à ideia de lembrar que excremento de pássaro é sinal de boa fortuna em antigas tradições. Augúrio? Sinal? Ali não havia mistério. Era apenas um bichinho assustado, acelerado demais. Talvez apenas apavorado por haver entrado em um lugar de onde parecia impossível sair. Mais do que um significado oculto, sua visita pode é nos inspirar, quem sabe, uma analogia. Quantas vezes o homem não se debate, na ilusão de que está acuado? Quantas vezes sofre sem perceber que está saturado por estímulos que ele próprio foi buscar? A sensação de que seu tempo é estrangulado, sem se dar conta de que é ele quem cultiva desassossego para si. Um amigo, sobrinho de um sábio do interior, costuma usar a imagem da trajetória errática e vã das formigas para ilustrar a ilusão que acomete o homem em movimentos inócuos e sem sentido, o esforço inútil. Não é à toa que se fale tanto na necessidade de ir com mais calma.
       Afinal, nós nunca aceleramos tanto. Na ilusão de anteciparmos o futuro, roubamos o momento seguinte e deixamos de vivê-lo. Convivemos sem prestar atenção no outro, respiramos com sofreguidão, comemos sem sentir o sabor. Fugimos do presente, o único tempo que existe e sobre o qual criamos a referência para um passado reconstruído na memória e um futuro sonhado. Como parar e fazer nada? Como apenas ser, sem se debater por ter entrado em uma porta estranha? Há quem não consiga relaxar e, simplesmente, fazer nada. Alguém já disse que fazer nada não é a completa falta de ação, mas a ação feita com desapego, sem visar resultado para si mesmo. Há algo de bom em atingir esse momento em que só se é parte da paisagem e não um observador separado. Se ainda quiséssemos procurar um significado para a visita da pequena ave, poderíamos dizer que ela veio trazer o tema para estas linhas que você lê agora. Como se nos dissesse: que bom que vocês conseguiram uns dias de folga e vieram aqui, cuidar um do outro. Sejam bem-vindos a este momento e esqueçam o resto. Fui.

(NOGUEIRA, Paulo. Vida Simples, ed. 37. São Paulo: Abril, 2006. Disponível em http://mdemulher.abril.com.br/revistas/vidasimples/. Edições/037/caminho/conteúdo_237474.shtml. Acesso em: 13/07/2019.)
EmAfinal, nós nunca aceleramos tanto.” (3º§), a expressão “afinal” pode ser substituída, sem alteração semântica, por:
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Interpretação de texto, com foco em semântica e conectivos (coesão textual).

No trecho analisado — “Afinal, nós nunca aceleramos tanto.” —, a expressão “afinal” atua como um conectivo conclusivo. Ela introduz uma ideia de conclusão ou de síntese, recapitulando e reforçando as ideias desenvolvidas anteriormente no texto. Segundo a norma-padrão e os principais manuais, como Evanildo Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”), advérbios como “afinal” e “enfim” são equivalentes quando usados para sintetizar ou concluir o raciocínio.

Justificativa da alternativa correta:

A) Enfim.
“Enfim” possui o mesmo valor semântico de “afinal” — ambos indicam conclusão ou fechamento de uma ideia, segundo Celso Cunha & Lindley Cintra (em “Nova Gramática do Português Contemporâneo”). No contexto, substituir “afinal” por “enfim” mantém integralmente o sentido da frase: expressa que, apesar de tudo antes exposto, a conclusão é que nunca aceleramos tanto.

Análise das alternativas incorretas:

B) Por isso.
“Por isso” introduz ideia de consequência ou causa, o que não corresponde à finalidade de um conectivo conclusivo. Se usado no lugar de “afinal”, mudaria o nexo da frase.

C) Contudo.
“Contudo” é um conectivo adversativo, ou seja, expressa oposição (ex.: “Queria sair, contudo chovia”). Não tem valor conclusivo ou de síntese e, portanto, estaria inadequado ao sentido original.

D) Além disso.
“Além disso” é um conectivo de adição — serve para acrescentar uma informação, não para concluir ou resumir o que foi dito. Seu uso alteraria o significado textual.

Estratégia de Prova:
Fique atento à função dos conectivos: muitos erros vêm da troca de conectivos conclusivos por adversativos ou de adição, mudando completamente a relação lógica entre as frases. Sempre associe o sentido da frase ao uso do conectivo!

Resumo da regra:
Conectivos conclusivos (“afinal”, “enfim”, “portanto”) servem para encerrar ideias; causais (“por isso”) indicam motivo; adversativos (“contudo”) oposição; aditivos (“além disso”) acréscimo.

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Comentários

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Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe...

Enfim é um advérbio de tempo que significa "por fim”, “finalmente”, “afinal”. É um advérbio usado para dar ideia de conclusão, por isso também significa “concluindo”, “resumindo”, “em suma” etc. Significa que, ao final do pensamento, faz-se um resumo das ideias.

A luta é grande,mas a vitória é certa.

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