Considerando-se a frase “Em primeiro lugar, vejo em tudo is...
Posto... Logo, existo!
Um passeio gostoso pelo shopping e... um selfie em que estou comendo um bombom, na frente da loja de chocolates! Mais uma volta, peço um sorvete e... um selfie com o sorvete. Antes de sair, mais um selfie com uma amiga que encontrei. Pronto!
Agora é só postar.
Para quem? Para mim?
Selfies
Muita gente se irrita, e tem razão, com o uso indiscriminado dos celulares. Fossem só para falar, já seria ruim. Mas servem também para tirar fotografias, e com isso somos invadidos no Facebook com imagens de gatos subindo na cortina, focinhos de cachorro farejando a câmera, pratos de torresmo, brownie e feijoada. Se depender do que vejo com meus filhos – dez e 12 anos -, o tempo dos “selfies” está de todo modo chegando ao fim. Eles já começam a achar ridícula a mania de tirar retratos de si mesmos em qualquer ocasião. Torna-se até um motivo de preconceito para com os colegas.
“Fulaninha? Tira fotos na frente do espelho.” Hábito que pode ser compreensível, contudo. Imagino alguém dedicado a melhorar sua forma física, registrando seus progressos semanais. Ou apenas entregue, no início da adolescência, à descoberta de si mesmo.
A bobeira se revela em outras situações: é o caso de quem tira um “selfie” tendo ao fundo a torre Eiffel, ou (pior) ao lado de, sei lá, Tony Ramos ou Cauã Reymond.
Seria apenas o registro de algo importante que nos acontece – e tudo bem. O problema fica mais complicado se pensarmos nos casos das fotos de comida. Em primeiro lugar, vejo em tudo isso uma espécie de degradação da experiência.
Ou seja, é como se aquilo que vivemos de fato – uma estrada em Paris, o jantar num restaurante – não pudesse ser vivido e sentido como aquilo que é.
Se me entrego a tirar fotos de mim mesmo na viagem, em vez de simplesmente viajar, posso estar fugindo das minhas próprias sensações. Desdobro o meu “self” (cabe bem a palavra) em duas entidades distintas: aquela pessoa que está em Paris, e aquela que tira foto de quem está em Paris.
Pode ser narcisismo, é claro. Mas o narcisismo não precisava viajar para lugar nenhum. A complicação não surge do sujeito, surge do objeto. O que me incomoda é a torre Eiffel; o que fazer com ela? O que fazer de minha relação com a torre Eiffel?
Poderia unir-me à paisagem, sentir como respiro diante daquela triunfal elevação de ferro e nuvem, deixar que meu olhar atravesse o seu duro rendilhado que fosforesce ao sol, fazer-me diminuir entre as quatro vigas curvas daquela catedral sem clero e sem paredes.
Perco tempo no centro imóvel desse mecanismo, que é como o ponteiro único de um relógio que tem seu mostrador na circunferência do horizonte. Grupos de turistas se fazem e desfazem, há ruídos e crianças.
Pego, entretanto, o meu celular: tiro uma foto de mim mesmo na torre Eiffel. O mundo se fechou no visor do aparelho. Não por acaso eu brinco, fazendo uma careta idiota; dou de costas para o monumento, mas estou na verdade dando as costas para a vida.
[...]
Talvez as coisas não sejam tão desesperadoras. Imagine-se que daqui a cem anos, depois de uma guerra atômica e de uma catástrofe climática que destruam o mundo civilizado, um pesquisador recupere os “selfies” e as fotos de batata frita.“Como as pessoas eram felizes naquela época!” A alternativa seria dizer: “Como eram tontas!”. Dependerá, por certo, dos humores do pesquisador.
(Marcelo Coelho) (Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/162525-selfies.shtml. Acesso em: 29/10/2016.)
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Tema central da questão: Regência verbal. O examinador exigiu que o candidato identificasse, entre as opções, um verbo que apresentasse a mesma regência do verbo “ver” na frase: “vejo em tudo isso uma espécie de degradação humana”.
Na estrutura "vejo em tudo isso uma espécie de degradação humana", "vejo" é um verbo transitivo direto. Ou seja, exige um complemento chamado objeto direto, sem uso de preposição (Eu vejo algo). Segundo Bechara e Cunha & Cintra, transitivos diretos ligam-se ao complemento sem preposição obrigatória.
Análise da alternativa correta:
Alternativa D: “Pego, entretanto, o meu celular.”
O verbo "pegar", assim como “ver”, é transitivo direto: quem pega, pega algo (objeto direto, sem preposição). Logo, o item reproduz exatamente a regência do verbo do enunciado, pois “o meu celular” é objeto direto de “pego”.
Análise das alternativas incorretas:
A) “O tempo dos selfies está de todo chegando ao fim”.
Os verbos "estar" e "chegar" aqui não são transitivos diretos; "estar" é verbo de ligação, e "chegar ao fim" traz complemento com preposição (“ao fim” = a + o fim). Não atende ao critério da regência direta.
B) “A complicação não surge do sujeito”.
O verbo “surgir” é intransitivo. O complemento “do sujeito” é adjunto adverbial de origem/preposição “de”. Não há objeto direto.
C) “O problema fica mais complicado”.
O verbo “ficar” é de ligação, unindo o sujeito ao predicativo “mais complicado”. Não exige objeto direto.
E) “Dependerá, por certo, dos humores do pesquisador.”
“Depender” é transitivo indireto, exigindo preposição “de” antes do complemento (“dos humores”). Portanto, diferente da regência de “ver”.
Dica para provas: Identifique se o verbo pede complemento direto ou indireto (com ou sem preposição). Verifique mentalmente: quem “ver”, vê algo; quem “pega”, pega algo. Mudou a preposição, mudou a regência!
Segundo Bechara e o Manual de Redação da PR, a análise da transitividade e da necessidade (ou não) de preposição é fundamental para a escrita formal e clara exigida nos concursos de Psicólogo.
Alternativa correta: D
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GABARITO: D
“Em primeiro lugar, vejo (VTD) em tudo isso (ADJ. ADV.) uma espécie de degradação humana (OD)”
A - “O tempo dos selfies está de todo chegando (Loc. Verbal intransitiva) ao fim”.
B - “A complicação não surge (VI) do sujeito”.
C - “O problema fica (VL) mais complicado (PS)”.
D - “Pego (VTD), entretanto, o meu celular (OD)”.
E - “Dependerá (VTI), por certo, dos humores do pesquisador (OI)”.
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