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Segundo Clastres,a passagem da história à lógica, na pergunt...

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Q3954836 Português
Atenção: Considereo texto a seguir para responder à questão.


   Como é possível, pergunta La Boétie, que a maioria obedeça a um só, não apenas lhe obedeça, mas o sirva, não apenas o sirva mas queira servi-lo?

   A natureza e o alcance de tal questão excluem de saída que se possa reduzi-la a essa ou àquela situação histórica concreta. A possibilidade de formular uma interrogação tão destrutiva remete, simples mas heroicamente, a uma lógica dos contrários: se sou capaz de me espantar que a servidão voluntária seja a invariante comum a todas as sociedades, a minha mas também aquelas sobre as quais me informam os livros, é evidentemente porque imagino o contrário de tal sociedade, é porque imagino a possibilidade lógica de uma sociedade que ignore a servidão voluntária. Heroismo e liberdade de La Boétie: basta essa ligeira e fácil passagem da história à lógica, basta essa abertura no que é o mais naturalmente evidente, basta essa brecha na convicção geral de que não se poderia pensar a sociedade sem sua divisão entre dominantes e dominados. Ao espantar-se com isso, ao recusara evidência natural, o jovem La Boétie transcende toda a história conhecida para dizer: outra coisa é possível.


(Adaptado de: CLASTRES, Pierre. Arqueologia da Violência. São Paulo: CosacNaify, 2004, p. 147-8)
Segundo Clastres,a passagem da história à lógica, na pergunta feita por La Boétie,
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O ponto decisivo é a oposição semântica construída pelo texto entre a servidão voluntária como invariante histórica e a possibilidade lógica de sua negação. A base textual obriga a leitura de que, ao passar da história à lógica, La Boétie concebe uma sociedade que ignore a servidão voluntária, ou seja, que não se organize pela divisão naturalizada entre dominantes e dominados.

Tema central: passagem da história à lógica
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque atribui naturalização aos dois polos da oposição. O texto diz o contrário: La Boétie "recusa a evidência natural" da servidão voluntária. A passagem da história à lógica não torna naturais tanto a servidão quanto sua ausência; ela rompe a naturalização da servidão e permite conceber seu contrário.
B
Errada
Está errada por alterar o sentido de "transcende". O texto afirma que La Boétie "transcende toda a história conhecida", isto é, ultrapassa o limite do historicamente dado para pensar outra possibilidade. A alternativa desloca indevidamente essa ideia ao dizer que a "história vivida" passa ao "domínio da transcendência", formulação que não corresponde ao referente do texto.
C
Errada
Está errada por extrapolação. O excerto não apresenta "bases conceituais de uma sociedade libertária" nem fala em "novo processo histórico". O que há no texto é a afirmação de uma possibilidade lógica de sociedade sem servidão voluntária, não um programa político nem o início de um processo histórico.
D
Certa
A alternativa D traduz adequadamente o contraste central do excerto: de um lado, as sociedades historicamente conhecidas, nas quais a servidão voluntária aparece como constante; de outro, a possibilidade lógica de uma sociedade que a ignore. Essa formulação também se ajusta ao trecho que menciona a superação da divisão entre dominantes e dominados, o que autoriza a leitura de sociedades igualitárias.
E
Errada
Está errada porque troca o plano lógico pelo histórico. O texto afasta a redução a uma situação histórica concreta e define a passagem como imaginação de uma "possibilidade lógica". Falar em "precedente histórico" contradiz esse ponto central e introduz uma realização histórica que o excerto não afirma.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre possibilidade lógica e fato histórico: várias alternativas transformam a operação intelectual descrita por Clastres em precedente, processo ou transcendência histórica concreta.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o texto opõe história e lógica, verifique se a alternativa preserva essa mudança de plano, sem converter possibilidade pensada em acontecimento histórico.
  • Procure o par de contrários explicitado no excerto; aqui, a chave é servidão voluntária como constante histórica versus sociedade que a ignore.
  • Aceite paráfrase apenas quando ela vier sustentada pelo texto; "sociedades igualitárias" se justifica pela ruptura da divisão entre dominantes e dominados.

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Comentários

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A alternativa correta é a D.

O texto explica que a "passagem da história à lógica" permite a La Boétie romper com o que parecia ser uma verdade absoluta.

  1. A História (O que se conhece): Todas as sociedades observadas e relatadas em livros apresentam a "servidão voluntária" (a divisão entre quem manda e quem obedece).
  2. A Lógica (O que se pode pensar): Pela "lógica dos contrários", se eu vejo a servidão, eu sou capaz de conceber, logicamente, o seu oposto: a ausência de servidão.
  3. A Oposição: Ao fazer essa passagem, La Boétie inaugura um conflito intelectual. De um lado, as sociedades conhecidas (históricas/hierárquicas) e, do outro, a possibilidade lógica de sociedades igualitárias ("outra coisa é possível").

A: Incorreta. La Boétie faz o contrário: ele retira o caráter "natural" da servidão. O texto diz que ele "recusa a evidência natural".

B: Incorreta. Embora ele "transcenda" a história conhecida, o termo "transcendência" aqui refere-se a ir além dos fatos observados através da razão, e não a situar a história vivida em um plano místico ou transcendental.

C: Incorreta. O texto foca na possibilidade lógica e na quebra de um paradigma de pensamento. Dizer que ele estabelece um "novo processo histórico" é uma interpretação que vai além do que o trecho afirma sobre o ato de pensar de La Boétie.

E: Incorreta. Um "precedente histórico" seria um evento real que aconteceu antes. La Boétie não encontra um exemplo no passado; ele usa a lógica para dizer que, mesmo que nunca tenha sido visto na história conhecida, o estado de não-servidão é pensável e possível.

essa fcc é uma impostora! essa prova quem elaborou foi a fgv infiltrada!!! meu deus !!!

Eu fiz essa prova e gastei mais de uma hora em português, dado a quantidade de textos e o grau de subjetitividade. Pior foi ter que enfrentar mais uns 7 textos depois disso sobre raciocínio crítico = interpretação de textos. Só não saiu zonzo quem fez muita questão desse nível. E mesmo quem passou nas primeiras posições, também não fechou a prova de português. Nota média foi de 70% na matéria.

 servidão voluntária seja a invariante comum a todas as sociedades, a minha mas também aquelas sobre as quais me informam os livros, é evidentemente porque imagino o contrário de tal sociedade, é porque imagino a possibilidade lógica de uma sociedade que ignore a servidão voluntária.

Contrário=oposição às sociedades comuns até então

Sociedade que ignore a servidão voluntária=sociedade igualitária

Alguém aqui acertou pelo menos 5 questões dessa prova? Que horror, sinto que não fui alfabetizada. E olha que me considerava boa em interpretação de texto........

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