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Q3954790 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.


Arrependimentos


   Pentimento é a palavra italiana para arrependimento, mas designa, em muitas línguas, uma pintura, um desenho ou um esboço encoberto pela versão final de um quadro. Ás vezes, com o passar do tempo, a tinta deixa transparecer uma composição em cima da qual o artista pintou uma nova versão. Outras vezes, os raios X dos restauradores desvendam opções anteriores, que permaneceram debaixo da obra final. Esses esboços ou pinturas, que o artista rejeitou e encobriu, são os pentimentos, que foram descartados sem ser propriamente apagados.

    Visível ou não, o pentimento faz parte do quadro, assim como fazem parte da nossa vida muitas tentações e muitos projetos dos quais desistimos. São restos do passado que, escondidos e não apagados, transparecem no presente, como potencialidades que não foram realizadas, mas que, mesmo assim, integram a nossa história. 

   A vida é abarrotada de caminhos que deixamos de trilhar; são todos pentimentos encobertos, histórias que não se realizaram. Por que não se realizaram? Em geral, pensamos que nos faltou coragem: não soubemos renunciar às coisas das quais era necessário abdicar para que outras escolhas tivessem uma chance. E é verdade que, quase sempre, desistimos de desejos, paixões e sonhos porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas: por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo.

     O problema dos pentimentos é que eles esvaziam a vida que temos. O passado que não se realizou funciona como a miragem da felicidade que teria sido possível se tivéssemos feito a escolha "certa". Diante disso, de que adianta qualquer experiência presente? Os pentimentos podem ser maus conselheiros, até porque muitas vezes nós os inventamos como desculpas para OS fracassos do presente. Hoje, é fácil esbarrar em espectros do passado: as redes sociais proporcionam reencontros improváveis e, com isso, criam pentimentos artificiais. Por conta da ação das redes, uma história que foi realmente apagada da memória (não apenas encoberta) pode renascer, como se representasse uma grande potencialidade à qual teríamos renunciado. Os falsos pentimentos, revisitados, são pequenas receitas para o desastre.


(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Aproveitara vida e suas dores. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025, pp. 25-27, passim)
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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O ponto que decide a questão é a reescrita com manutenção simultânea de sentido e regência na oração relativa. Em "uma grande potencialidade à qual teríamos renunciado", o verbo "renunciar" pede "a"; ao substituir por a locução "abrir mão de", a preposição exigida muda para "de", o que torna correta a forma "da qual teríamos aberto mão", preservando a ideia de desistência/abandono.

Tema central: Regência com relativo
Análise das alternativas
A
Errada
"Que deixamos de trilhar" significa "que não percorremos". A reescrita "aonde desistimos" falha em dois pontos: usa inadequadamente "aonde", que indica direção com verbos de movimento, e quebra a regência, porque "desistir" rege "de", não se constrói com "aonde" nesse contexto. Além disso, o sentido de "deixar de trilhar" não é preservado.
B
Certa
A alternativa B mantém o sentido contextual de abandono de uma possibilidade e ajusta corretamente a estrutura sintática ao novo verbo. No trecho original, há a ideia de renúncia a uma potencialidade; na reescrita, essa mesma ideia é preservada por "abrir mão de". Como a nova locução rege "de", o pronome relativo deve vir precedido dessa preposição: "da qual teríamos aberto mão". A mudança de "à qual" para "da qual" não é erro: é a adaptação obrigatória à nova regência.
C
Errada
"Em cima da qual" não equivale a "sobre cuja". O pronome "cuja" não funciona sozinho como simples substituto de "a qual"; ele exige um substantivo expresso depois dele. Por isso, "sobre cuja" está sintaticamente incompleto e não reescreve adequadamente o segmento.
D
Errada
A proposta troca o verbo, mas não ajusta a regência correta. "Desistimos" rege "de", por isso aparece em "dos quais desistimos"; já "renunciar" rege "a". Assim, "de que renunciamos" está errado por regência. A troca só seria viável com a preposição exigida por "renunciar", não com a do trecho original.
E
Errada
A reescrita erra a regência e altera o sentido. No texto, "abdicar" aparece com valor de renunciar a algo: "das quais era necessário abdicar". Já "abster-se" é verbo pronominal e, no uso esperado, constrói-se com "de". Além disso, "abster-se" não preserva, nesse contexto, o mesmo sentido de "abdicar".
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre semelhança de sentido e equivalência sintática real: ao trocar o verbo, é obrigatório trocar também a preposição que antecede o pronome relativo, conforme a nova regência.
Dica para questões semelhantes
  • Em reescrita com pronome relativo, confira primeiro a regência do verbo original e a do verbo substituto.
  • Não aceite substituição apenas porque o verbo parece sinônimo; a nova forma precisa manter também a estrutura sintática.
  • Se aparecer "cujo", verifique se há substantivo expresso depois dele; sem isso, a construção fica incompleta.
  • Desconfie de "aonde" quando não houver ideia de destino nem verbo compatível com movimento.

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Comentários

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Errado

  • “aonde” só se usa com verbos que indicam movimento (ir, chegar, etc.).
  • “desistir” rege de, não indica movimento → correto seria “de que desistimos”.

Correto

  • “renunciar a algo” ✔️
  • “abrir mão de algo” ✔️
  • Houve substituição perfeita de regência:
  • “à qual” → “da qual” (ajustando ao verbo “abrir mão de”)
  • ✔️ Mantém sentido e correção.

Errado

  • “cuja” exige um substantivo depois: ex: “cuja obra”, “cujo estilo”
  • “sobre cuja” ficou incompleto → erro estrutural.

Errado

  • “renunciar” rege a, não “de”
  • Correto seria: “a que renunciamos”

Errado

  • “abdicar de algo” ✔️
  • “abster-se de algo” ✔️
  • Mas a troca para “pelas quais” está errada → deveria ser “das quais”
  • → erro de regência.

A. O verbo desistir rege a preposição DE (quem desiste, desiste de algo). O correto seria "de que desistimos"

B. O verbo renunciar pode ser VTI (quem renuncia, renuncia a algo), por isso o uso de "à qual" (preposição A + artigo A). Já a locução abrir mão rege a preposição DE (quem abre mão, abre mão de algo), justificando perfeitamente o "da qual".

C. O pronome cuja indica posse e deve estar entre dois substantivos (Ex: o artista cuja obra é famosa). Na frase, não há essa relação de posse que sustente o uso de "cuja" isoladamente para substituir "em cima da qual". O correto seria apenas "sobre a qual".

D. Como vimos na alternativa B, o verbo renunciar rege a preposição A. Portanto, o correto seria "a que renunciamos" ou "aos quais renunciamos". O "de que" está errado aqui.

E. O verbo abster-se rege a preposição DE (quem se abstém, se abstém de algo). O correto seria "das quais era preciso abster-se". A preposição "pelas" muda a regência e o sentido.

Só para relembrar...

Sob = Em baixo de

Sobre = Acima de,em cima de

A) Incorreta, pois o verbo “desistir” rege a preposição de, sendo correto “de que desistimos”, e não “aonde desistimos”.

B) Correta, pois “renunciar” rege a (“à qual”) e “abrir mão” rege de (“da qual”), havendo perfeita adequação de regência na reescrita.

C) Incorreta, pois “cuja” indica posse entre substantivos, o que não ocorre na frase, sendo correto apenas “sobre a qual”.

D) Incorreta, pois “renunciar” rege a, tornando correto “a que renunciamos”, e não “de que renunciamos”.

E) Incorreta, pois “abster-se” rege de, sendo correto “das quais era preciso abster-se”, e não “pelas quais”.

GAB B

Questão clássica de regência.

  1. Na Letra B, tanto "renunciar" quanto "abrir mão" estão com as preposições corretas (A qual e DA qual, respectivamente), mantendo o sentido de abrir mão de uma potencialidade.
  2. Nas demais, os erros de regência invalidam as opções: na D, quem renuncia, renuncia A algo (correto seria a que); na E, quem se abstém, se abstém DE algo (correto seria das quais).
  3. Na C, o erro é o uso do pronome cuja, que exige um substantivo logo em seguida para indicar posse, o que não ocorre na frase.

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