A afirmação por não querermos perder nada, acabamos perdendo...

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Q3954783 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.


Arrependimentos


   Pentimento é a palavra italiana para arrependimento, mas designa, em muitas línguas, uma pintura, um desenho ou um esboço encoberto pela versão final de um quadro. Ás vezes, com o passar do tempo, a tinta deixa transparecer uma composição em cima da qual o artista pintou uma nova versão. Outras vezes, os raios X dos restauradores desvendam opções anteriores, que permaneceram debaixo da obra final. Esses esboços ou pinturas, que o artista rejeitou e encobriu, são os pentimentos, que foram descartados sem ser propriamente apagados.

    Visível ou não, o pentimento faz parte do quadro, assim como fazem parte da nossa vida muitas tentações e muitos projetos dos quais desistimos. São restos do passado que, escondidos e não apagados, transparecem no presente, como potencialidades que não foram realizadas, mas que, mesmo assim, integram a nossa história. 

   A vida é abarrotada de caminhos que deixamos de trilhar; são todos pentimentos encobertos, histórias que não se realizaram. Por que não se realizaram? Em geral, pensamos que nos faltou coragem: não soubemos renunciar às coisas das quais era necessário abdicar para que outras escolhas tivessem uma chance. E é verdade que, quase sempre, desistimos de desejos, paixões e sonhos porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas: por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo.

     O problema dos pentimentos é que eles esvaziam a vida que temos. O passado que não se realizou funciona como a miragem da felicidade que teria sido possível se tivéssemos feito a escolha "certa". Diante disso, de que adianta qualquer experiência presente? Os pentimentos podem ser maus conselheiros, até porque muitas vezes nós os inventamos como desculpas para OS fracassos do presente. Hoje, é fácil esbarrar em espectros do passado: as redes sociais proporcionam reencontros improváveis e, com isso, criam pentimentos artificiais. Por conta da ação das redes, uma história que foi realmente apagada da memória (não apenas encoberta) pode renascer, como se representasse uma grande potencialidade à qual teríamos renunciado. Os falsos pentimentos, revisitados, são pequenas receitas para o desastre.


(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Aproveitara vida e suas dores. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025, pp. 25-27, passim)
A afirmação por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo (3ª parágrafo) reflete a enganosa crença de que
Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a inferência semântica da formulação paradoxal do 3º parágrafo: "E é verdade que, quase sempre, desistimos de desejos, paixões e sonhos porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas: por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo." O texto explicita que realizar escolhas exige perdas e abdicações; por isso, a crença criticada é a de que esses sacrifícios seriam dispensáveis, o que conduz à alternativa A.

Tema central: renúncia e realização
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A traduz corretamente a ilusão criticada pelo autor. O texto afirma que "não soubemos renunciar às coisas das quais era necessário abdicar para que outras escolhas tivessem uma chance" e que "nada se realiza sem perdas". Portanto, a crença enganosa é supor que a plena realização pode ocorrer sem os sacrifícios exigidos pelas escolhas. Dizer que esses sacrifícios são "prescindíveis" é uma paráfrase fiel dessa falsa crença.
B
Errada
A alternativa não formula a crença enganosa pedida; ela apenas registra que desejos, paixões e sonhos são custosos. Isso está de acordo com o texto, mas o comando pede a ilusão criticada pela frase final, não uma constatação verdadeira do autor. O núcleo do trecho é a recusa das perdas necessárias, não o mero reconhecimento de que realizar algo custa.
C
Errada
A alternativa introduz sentidos sem apoio textual: "idealidade plena", "compensa com sobras" e "saldo da desilusão" não aparecem nem decorrem do trecho citado. O erro é de extrapolação semântica: troca a crítica à recusa de renúncias por uma tese sobre compensação da desilusão que o texto não sustenta.
D
Errada
O texto não afirma que a plenitude da conquista resulta de "submetemo-nos aos nossos limites". O que ele diz é que certas escolhas só se realizam com perdas e abdicações. A alternativa substitui a noção específica de renúncia necessária por outra formulação, "submissão aos limites", que não corresponde ao argumento do trecho.
E
Errada
A causa do fracasso, no texto, não é falta de perseverança. O autor explicita outra causa: "não soubemos renunciar às coisas das quais era necessário abdicar para que outras escolhas tivessem uma chance" e "custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas". A alternativa inventa uma causa diferente da que o texto apresenta.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre a crença enganosa pedida no comando e uma afirmação verdadeira do texto: muitos candidatos podem marcar uma opção que apenas reconhece o custo das escolhas, quando o trecho critica especificamente a ilusão de querer realizar tudo sem perder nada.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o enunciado pedir a crença, ilusão ou pressuposto de uma frase, localize a explicação imediata do próprio texto antes de comparar as alternativas.
  • Em questões de paráfrase, elimine opções que trocam a causa textual explícita por outra parecida, mas diferente no sentido.
  • Desconfie de alternativas que apenas repetem uma constatação verdadeira do texto se o comando pede justamente o equívoco criticado pelo autor.

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Comentários

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Gabarito: A

O Senhor pelejará por vós e vos calareis!

A)

✔️ “os sacrifícios a se fazer são prescindíveis para a nossa plena realização.”

  • Exatamente o que a frase critica: achar que podemos ter tudo sem abrir mão de nada. ✅

B)

❌ Diz que “o acesso às paixões é custoso” — isso é verdade, mas não é a crença enganosa; é a realidade.

C)

❌ Fala de compensação da idealidade plena — não corresponde ao sentido da frase.

D)

❌ Sugere que submetendo-se aos limites atingimos plenitude — não é o foco da frase.

E)

❌ Fala em falta de perseverança — o texto critica a tentativa de não abrir mão de nada, não a perseverança.

A alternativa correta é a A) 

os sacrifícios a se fazer são prescindíveis para a nossa plena realização. 

A frase "por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo" critica a falsa ideia de que é possível realizar todos os desejos e atingir a plenitude sem abdicar de nada. O texto sugere que renunciar (fazer sacrifícios/perder algo) é necessário para concretizar escolhas, tornando a crença de que sacrifícios são desnecessários (prescindíveis) uma ilusão. 

Por que a A? Indica que achamos erroneamente que não precisamos abrir mão de nada (sacrifício) para sermos felizes/realizados.

Por que não as outras? Elas distorcem o sentido de que a renúncia é um passo necessário e inevitável para a conquista, e não um obstáculo ou algo opcional.

E é verdade que, quase sempre, desistimos de desejos, paixões e sonhos porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas: por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo. 

GAB A

A "crença enganosa" que o autor combate é a ideia de que podemos realizar nossos sonhos sem fazer renúncias. No terceiro parágrafo, ele afirma que "nada se realiza sem perdas". Portanto, quem acredita que os sacrifícios são prescindíveis (desnecessários) acaba não escolhendo caminho algum para não ter que perder as outras opções. O resultado dessa tentativa de "segurar tudo" é, ironicamente, perder todas as oportunidades reais de realização.

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