Perguntei quantos achavam que a
memória estava pior. Formada por cerca de 500
estudantes de medicina, mais da metade da
plateia levantou a mão. Comentei que se tratava
de uma epidemia de Alzheimer juvenil. Eles riram.
Perda de memória talvez seja a queixa
mais frequente nas consultas médicas de hoje.
No passado, esse fenômeno ficava restrito aos
poucos que insistiam em viver mais do que 70 ou
80 anos. Todos encaravam com naturalidade os
avós que repetiam cinco vezes a mesma
pergunta e passavam o dia à procura de objetos
deixados sabe Deus onde. Consideravam esses
esquecimentos “esclerose da idade”. Diziam:
“Minha avó é capaz de esquecer do que foi
servido no almoço, mas tem uma memória
prodigiosa, lembra de fatos que ocorreram
quando tinha sete anos de idade”.
Em linhas gerais, existem dois grandes
grupos de memórias: as de longa e as de curta
duração, estas também chamadas de memória de
trabalho. As primeiras persistem por décadas ou
pelo resto da vida, especialmente quando são
gravadas em momentos de forte emoção. Razão
pela qual não esquecemos o lugar em que
estávamos ao receber a notícia da morte de um
ente querido ou da queda das Torres Gêmeas,
em Nova York, ou da rua em que nos roubaram o
celular. A memória de trabalho, ao contrário, é
descartável, grava por pouco tempo os
acontecimentos que nos ajudam a tocar a rotina
diária. Por exemplo, lembro que deixei um copo
de água na mesa ao lado ou que fiquei de
telefonar para minha irmã ao meio-dia ou que
preciso lavar a xícara do café que acabei de
tomar. Depois de executadas essas tarefas, tais
lembranças serão varridas do cérebro, de modo a
deixar espaço livre para outras.
No conto “Funes el memorioso”,
publicado em 1942, Jorge Luis Borges narra a
vida de Ireneo Funes, jovem uruguaio que depois
de um acidente desenvolve a capacidade de
memorizar nos mínimos detalhes tudo o que
acontece ao seu redor: o rosto de uma pessoa
que acabou de conhecer e que nunca mais verá,
o formato das nuvens no céu dia após dia, a
disposição das folhas das árvores, as ações mais
insignificantes executadas em casa. Essas
habilidades, no entanto, deixavam os circuitos
neuronais de sua memória tão sobrecarregados
que Funes se tornou incapaz de raciocínios
elementares, de pensamentos abstratos, de fazer
associação de fatos e generalizações. Seu
cérebro passava os dias inundado de
informações inúteis que o impediam de organizar
as ideias para tomar decisões racionais.
Dizer que somos o que está arquivado
em nossa memória é parte da verdade; não
podemos esquecer que também somos as memórias que nosso cérebro decidiu desprezar.
Voltemos aos desmemoriados de hoje. No caso
dos mais velhos, há várias causas: entre elas, o
envelhecimento cerebral, o volume crescente de
informações armazenadas no decorrer dos anos,
a dificuldade de encontrar espaço livre no
hardware para arquivá-las e o desgaste na
produção de neurotransmissores essenciais.
Esses fenômenos, no entanto, não explicam a
epidemia de desmemoriados jovens. Como em
pessoas de 20 ou 30 anos são muito raras as
degenerações neurológicas, é bem provável que
a causa do problema esteja ligada à falta de
atenção. São tantos os estímulos simultâneos a
que estão submetidas, que esse requisito
fundamental para a consolidação de memórias se
perde.
Num trabalho conduzido anos atrás,
pesquisadores submeteram jovens universitários
a uma bateria de testes de atenção, em três
situações distintas. Na primeira, eles deixavam o
celular fora da sala em que os testes seriam
aplicados; na segunda, entravam com o celular e
os desligavam antes de começar a responder; na
terceira, o celular permanecia ligado durante a
realização dos testes. Os maiores índices de
acertos ocorreram quando os celulares ficavam
do lado de fora. Os piores, quando permaneciam
ligados. Os testes aplicados quando os aparelhos
estavam ao alcance das mãos, mas desligados,
apresentaram resultados intermediários. Quer
dizer, a simples presença do celular já é capaz de
propiciar a desatenção.
A seleção natural não moldou o cérebro
humano para dar conta da infinidade de desafios
cognitivos impostos pela vida on-line. Se
lembrarmos que os mesmos fatores de risco
estão por trás das crises de ansiedade e de
depressão que afligem crianças e adultos de
todas as idades, concluiremos que não está fácil
preservar a sanidade mental no mundo de hoje.
DRAUZIO VARELLA
Adaptado de folha.uol.com.br, 08/04/2026.
Como em pessoas de 20 ou 30 anos são muito
raras as degenerações neurológicas, é bem
provável que a causa do problema esteja ligada à
falta de atenção. São tantos os estímulos
simultâneos a que estão submetidas, que esse
requisito fundamental para a consolidação de
memórias se perde. (5º parágrafo)
As duas frases deste trecho apresentam a
seguinte sequência de formulações: