RetratoEu não tinha este rosto de hoje,assim calmo, assim t...

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Q2914501 Português

Retrato


Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo


Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

_ Em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles


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Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: A alternativa B extrapola o poema ao atribuir à imagem do espelho uma "relação narcisista entre o homem e o espelho". No texto, o espelho aparece no fecho como suporte da autopercepção da mudança e da perda da face anterior, em "Em que espelho ficou perdida a minha face?", o que torna essa leitura não sustentada pelos versos.

Tema central: perda da face anterior
Análise das alternativas
A
Errada
Não é a incorreta porque a leitura se apoia no sentido global do poema: o eu lírico compara o presente ao passado em "Eu não tinha este rosto de hoje," e descreve o estado atual por traços de desgaste e esvaziamento, como "assim triste, assim magro", "olhos tão vazios" e "mãos sem força". Embora "envelhecimento" não apareça literalmente, essa inferência é sustentada pelo conjunto dos versos.
B
Certa
A alternativa B é a incorreta porque introduz uma interpretação não autorizada pelo poema. Não há, nos versos, marcas de vaidade, autoidolatria ou contemplação narcisista. A imagem do espelho, no desfecho, serve para expressar a percepção tardia da mudança e a perda da face anterior, e não uma relação narcisista entre sujeito e espelho. A afirmação de que o texto admite "mais de duas leituras" com esse exemplo também não se sustenta na base textual.
C
Errada
Não é a incorreta porque traduz com fidelidade o valor semântico de "Eu não dei por esta mudança,". A expressão indica que a transformação não foi percebida enquanto ocorria e só foi notada depois de consumada, o que produz perplexidade diante do contraste entre o que o eu era e o que veio a ser.
D
Errada
Não é a incorreta porque o presente é explicitamente textualizado em "rosto de hoje", "estas mãos" e "esta mudança". Já o passado é reconstruído por contraste, pela repetição de "Eu não tinha", que nega no antes as marcas do estado atual. A assertiva se sustenta nesse jogo entre presentificação direta e passado recuperado pela oposição.
E
Errada
Não é a incorreta porque o vocabulário realmente se organiza em torno de estaticidade e perda de energia vital: "olhos tão vazios", "mãos sem força", "paradas e frias e mortas" e "coração / que nem se mostra". Esse campo semântico é central para o retrato de apagamento subjetivo construído pelo poema.
Pegadinha da questão
A banca explora a associação automática entre a imagem do espelho e narcisismo; no poema, porém, o espelho não sustenta essa simbologia, pois aparece como imagem da face perdida e da autopercepção tardia da mudança.
Dica para questões semelhantes
  • Só aceite leitura simbólica quando houver marcas textuais que a sustentem; um símbolo isolado não autoriza qualquer associação cultural.
  • Em interpretação, confirme se a alternativa acompanha o eixo temático do texto ou se introduz um tema novo que os versos não desenvolvem.
  • Observe como o poema organiza contrastes temporais: aqui, o presente é nomeado diretamente e o passado é recuperado por oposição.
  • Mapeie o campo semântico dominante do texto; ele costuma indicar o tema central e ajuda a excluir extrapolações.

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