Os parênteses utilizados em “(mas me inquieta)”, na primeira...

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Q3409706 Português
Atenção: Leia atentamente o texto a seguir e responda questão:

Baleia sim, mas eu prefiro gente

    Não sei se me comove (mas me inquieta) ver pessoas acorrendo, torcendo, chorando porque uma baleia está encalhada e ameaçada de morrer nas areias de qualquer lugar do mundo.
    Sinto pena pelo sofrimento do bicho, mas sempre imagino se fariam tanto alarido caso houvesse em seu lugar um ser humano.
    Lamento toda a ameaça a qualquer espécie em extinção, embora, olhando a história das espécies, me pareça natural que algumas desapareçam e outras surjam. Se cometo um pecado maior de ignorância, sou afinal apenas uma escritora.
    Sei que não vão me achar muito simpática, mas eu não sou sempre simpática. Aliás, se não gosto de grosseria nem de vulgaridade, também desconfio dos politicamente corretos. Todo fanatismo me assusta.
    Não posso ver bicho sofrendo: sempre curti animais, fui criada com eles. Na casa onde nasci e cresci, em certo momento, na minha remota infância, tive até uma coruja, chamada, sabe Deus por quê, Sebastião: quase branca, aquele olho revirando. Fugiu da enorme gaiola especialmente construída para ela quando apareceu por ali com uma asa quebrada. Assim que ficou curada e conseguiu uma frestinha, escapou. Por muitos dias eu a procurei no topo das árvores, doída de saudade.
    Na ilhota no mínimo lago no fundo do terreno, viveu a certa altura um casal de veadinhos, presente de um fazendeiro amigo de meu pai. (Os fanáticos vão considerar isso grande crueldade.) Um dos bichinhos também fugiu, o outro morreu pouco depois. Segundo o jardineiro, morreu de saudade do fujão: primeira visão infantil de um amor romeu-e-julieta.
    Tive uma gata chamada Adelaide, nome da sofredora personagem de uma novela de rádio que fazia suspirar minha avó, e que meu irmão pequeno matou (a gata), nunca entendi como: uma das primeiras tragédias de que tive conhecimento.
    De modo que animais fazem parte de minha história, com muitas aventuras, divertimento, e alguma emoção.
    Mas vamos às baleias e golfinhos encalhados: pessoas torcem as mãos, chegam máquinas variadas para içar os bichos, aplicam-se lençóis molhados, abrem-se manchetes em jornais, televisões comentam tudo em horário nobre. O público, presente ou em casa, acompanha como se fosse alguém da família, e quando o fim chega, é lamentado quase com pêsames e oração.
    Confesso que não consigo me comover da mesma forma: pouca sensibilidade? Não creiam, mesmo os que não me apreciam, não creiam nisso.
    Não é que eu ache que sofrimento de animal não valha a pena, a solidariedade, o dinheiro. Mas eu preferia que tudo isso fosse gasto com eles depois de não haver mais nenhuma criança sofrendo, abandonada ou explorada, enfiando a cara no vidro de meu carro para pedir dinheiro, nenhum adolescente morrendo drogado na calçada, uma família morando embaixo da ponte no inverno aqui do Sul.
        [...]

Autora: Lya Luft (adaptado).
Os parênteses utilizados em “(mas me inquieta)”, na primeira linha, poderiam ser substituídos, sem que houvesse alteração de sentido no texto, por: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central da questão: Uso dos parênteses e dos travessões na pontuação, especificamente para intercalar informações acessórias ou explicativas no texto. Essa habilidade é fundamental para que o candidato reconheça diferentes marcas de pontuação e compreenda o efeito de sentido delas em contextos textuais, conforme a norma-padrão da Língua Portuguesa.

Análise da alternativa correta – C) Travessões

O trecho “(mas me inquieta)” apresenta uma informação acessória, um comentário inserido pelo autor para expressar algo paralelo ao discurso principal. Pela norma-padrão, travessões podem substituir os parênteses para isolar esse tipo de informação, conferindo ênfase ou destaque maior ao conteúdo intercalado, sem alterar o sentido. Segundo Evanildo Bechara em Moderna Gramática Portuguesa, travessões têm a função de “pausa enfática”, podendo perfeitamente substituir parênteses em contextos semelhantes.

Exemplo:
Zeugma é uma figura de linguagem que consiste na omissão de um termo (geralmente um verbo).
Ou: Zeugma é uma figura de linguagem que consiste na omissão de um termo — geralmente um verbo.

Análise das alternativas incorretas:

A) Aspas duplas / B) Aspas simples: Aspas são usadas para destacar citações, ironias ou neologismos, nunca para isolar explicações intercaladas no texto, segundo Celso Cunha & Lindley Cintra em Nova Gramática do Português Contemporâneo.

D) Ponto de exclamação e ponto de interrogação: Esses sinais servem para marcar entonação exclamativa ou interrogativa e jamais são usados para intercalar informações acessórias.

Dica de prova: Sempre que encontrar uma informação “entre parênteses” podendo ser destacada, pense no travessão como substituto possível, caso não haja alteração de sentido. Aspas só serviriam se o objetivo fosse destacar ou citar, e pontos não se prestam a intercalar, mas a finalizar frases.

Resumo da Estratégia:
Leia atentamente o trecho, identifique se a informação intercalada quebra a linha de raciocínio principal (caso comum dos parênteses). Lembre: travessões podem dar mais ênfase sem mudar o sentido.

Portanto, a alternativa C) Travessões é a correta, pois substitui os parênteses sem alteração de sentido ou função sintática, conforme as regras de pontuação da norma-padrão.

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