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Q288229 Português
Atenção: A questão refere-se ao texto seguinte.


Da política ao espetáculo 

          A rebeldia voltou. E nos lugares mais inesperados. O rastilho foi aceso em Túnis, seguiu para o Cairo e depois para Sanaa, Manama, Damasco − cidades onde ação política não é um direito. Onde as praças tiveram de ser ocupadas com o risco de prisão, tortura e morte. Mesmo assim, as manifestações só ficaram violentas porque as autoridades as atacaram.
          A centelha da revolta atravessou o Mediterrâneo e acendeu outras centenas de milhares de pessoas na Grécia e na Espanha, países subitamente forçados ao empobrecimento. Na África, no Levante, no Oriente Médio e na Europa, o que se quer é liberdade, trabalho e justiça.
          Nenhuma mobilização foi tão inesperada quanto a que explodiu, no mês passado, do outro lado do Atlântico Norte, numa das cidades mais ricas do mundo: Vancouver, no Canadá. Sua motivação foi frívola. Por 4 a 0, o time local de hóquei no gelo perdeu a final do campeonato. Não houve reivindicação social ou política: chateada, a gente saiu à rua e botou fogo em carros, quebrou vitrines, invadiu lojas. 
         Fizeram tudo isso com a leveza da futilidade, posando para câmeras de celulares, autorregistrando-se em instantâneos ambivalentes de prazer e agressão. O impulso de se preservarem em fotos e filmes era tão premente quanto o de destruir.
        Alguns intelectuais poderiam explicar assim o fenômeno: se o espetáculo do jogo não satisfez, o do simulacro da revolta o compensará; o narcisismo frustrado vira exibicionismo compartilhado.
        Em meio ao quebra-quebra, um casal de namorados tentava fugir quando a moça foi atingida pelo escudo de um policial e caiu. O namorado deitou-se ao lado e, para acalmá-la, deu-lhe um beijo.
        Um fotógrafo viu apenas dois corpos que pareciam feridos no chão e, sem perceber direito o que fotografava, captou o beijo. Pronto: os jovens viraram celebridades. Namorando há apenas seis meses, o casal cancelou uma viagem à Califórnia para cumprir uma agenda extensa de entrevistas em Nova York. A sociedade do espetáculo não pode parar.


                                                                                (Adaptado da Revista Piauí, n. 58, julho 2001, p. 55) 
Está clara e correta a redação deste livre comentário sobre o texto:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a aderência ao sentido contextual de “sociedade do espetáculo”, definido no texto pela centralidade da imagem, da exibição e da celebrização, especialmente no fecho: “Fizeram tudo isso com a leveza da futilidade, posando para câmeras de celulares, autorregistrando-se em instantâneos ambivalentes de prazer e agressão. (...) Pronto: os jovens viraram celebridades. (...) A sociedade do espetáculo não pode parar.”

Tema central: sociedade do espetáculo
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra pela redação imprecisa e pela extrapolação. As expressões “prima por se mostrar em todo o narcisismo humano” e “com o qual todo mundo pretende se alardear” não reproduzem com precisão a crítica do texto à exibição da imagem e à celebrização midiática. Além disso, “todo mundo” universaliza indevidamente um traço que o texto menciona como explicação possível de um fenômeno, não como definição de todos.
B
Certa
A alternativa B sintetiza de modo aceitável a crítica do texto à centralidade da imagem e à sua valorização social. Ela é compatível com a passagem em que os envolvidos aparecem “posando para câmeras de celulares”, “autorregistrando-se” e, depois, com o fato de que “os jovens viraram celebridades”. Por isso, a formulação de que a sociedade do espetáculo prestigia a celebração de imagens mantém o núcleo interpretativo do texto sem impor causalidades indevidas nem apresentar problema relevante de redação.
C
Errada
A distorção decisiva está em chamar o episódio de “beijo involuntário”. No texto, o beijo é um ato deliberado do namorado para acalmar a moça; o que foi não planejado foi o flagrante fotográfico. Também é inadequado dizer que o beijo “tende a celebrar-se”, porque o processo narrado é de espetacularização e celebrização pela imagem captada, não de autocomemoração do próprio beijo.
D
Errada
A alternativa reduz indevidamente a ideia de “sociedade do espetáculo” a um traço psicológico totalizante: “são narcisistas”. O texto menciona “narcisismo frustrado” e “exibicionismo compartilhado” como chave interpretativa possível, mas não autoriza transformar isso em definição absoluta dos sujeitos. Além disso, a busca de “consagração” formulada pela alternativa não está sustentada pelo texto nesses termos.
E
Errada
A alternativa está errada por dois motivos concretos. Primeiro, extrapola ao falar em “defensores” da sociedade do espetáculo e na forma como sua crítica “costuma” pautar-se, conteúdo que não aparece no texto. Segundo, a redação é semanticamente defeituosa em “incapazes de atestar a frivolidade em que erigem como ideal”, porque a construção com “erigem” fica inadequada e sem complemento claro, comprometendo a correção do comentário.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de aceitar alternativas por palavras soltas do texto, como “narcisismo” e “frivolidade”, sem verificar se a paráfrase realmente preserva o sentido global e se a redação está clara; também induz confusão entre beijo não posado para a foto e “beijo involuntário”.
Dica para questões semelhantes
  • Em comentário interpretativo, confira ao mesmo tempo fidelidade ao sentido do texto e clareza de redação; não basta a alternativa usar palavras do texto.
  • Quando o texto fala em imagem, autorregistro e celebridade, privilegie a opção que mantém esse mecanismo social, e desconfie das que transformam isso em definição absoluta de pessoas.
  • Separe fato narrado de efeito produzido pela mídia: no texto, o beijo é deliberado; a celebrização é que decorre do flagrante fotográfico.

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Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Alguém sabe o aerro da letra D?
Olá, pessoal!!

Vim a pedido de Elaine!    
 
A resposta é a letra “B” de Bola!!


Vejamos os erros das demais alternativas:
 
a) A sociedade do espetáculo à qual se refere o texto prima por se mostrar em todo o narcisismo humano,
com o qual todo mundo pretende se alardear.
O verbo alardear, como pronominal, rege a preposição DE. Assim, o correto é DO QUAL.


c) Na moderna sociedade do espetáculo, sugere o texto, mesmo um beijo involuntário tende a
celebrar-se, caso haja um flagrante condizente e oportunista.
O verbo celebrar não é pronominal.


d) Os que compõem uma sociedade do espetáculo são narcisistas que desejam o melhor registro de uma celebração que
lhes venha a consagrar.
O verbo consagrar é transitivo direto. Por esta razão, não podemos usar lhe, pois este 
pronome só pode servir como objeto indireto.


e) A crítica à sociedade do espetáculo costuma pautar-se pelo vazio que assola seus defensores, incapazes de atestar a frivolidade em que erigem como ideal.
O verbo erigir é transitivo direto. Não há por que a preposição em estar ali antes do pronome relativo.


Entendido, gente?

Grande abraço a todos! ;)

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