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Ano: 2019
Banca:
CETAP
Órgão:
Prefeitura de São Miguel do Guamá - PA
Provas:
CETAP - 2019 - Prefeitura de São Miguel do Guamá - PA - Agente de Vigilância Sanitária
|
CETAP - 2019 - Prefeitura de São Miguel do Guamá - PA - Auxiliar de Fiscal de Tributo |
CETAP - 2019 - Prefeitura de São Miguel do Guamá - PA - Técnico de Prótese Dentária |
CETAP - 2019 - Prefeitura de São Miguel do Guamá - PA - Técnico de Enfermagem |
CETAP - 2019 - Prefeitura de São Miguel do Guamá - PA - Técnico de Farmácia |
Q4410224
Não definido
Texto associado
Leia a crônica de Ruth Manus e responda o que se pede
no comando da questão.
A vida começa no fim da sua zona de conforto.
Conforto. Conforto é uma palavra deliciosa. Conforto
nos remete diretamente à ideia de um edredom branco, bem
fofinho e cheiroso no qual nos afundamos nos finais de semana.
Mas experimente colocar um "zona de" na frente do conforto
para vê-lo estragar automaticamente.
Eu me lembro bem. Faltava meia hora para minha banca
de mestrado, eu estava tão apavorada... Com enjoo e tudo mais,
surtando. Lembro de me perguntar por que é que eu me metia
nessas coisas, em vez de ficar sossegada. Segundos depois me
deparei coma seguinte frase solta pelas redes sociais "A vida
começa no fim da sua zona de conforto." Parei. Li outra vez.
Aquilo fazia algum sentido. Transformei o pânico em frio na
barriga. Entrei na sala, defendi minha dissertação e deu tudo
certo.
É engraçado pensar quantas vezes nós usamos
desculpas esfarrapadas para esconder nossa falta de coragem.
Não vou me candidatar a esse curso porque não tenho tempo (e
não por medo de não ser aprovado), não vou fazer essa viagem
porque não quero gastar dinheiro (e não por medo de avisar no
trabalho que vai ficar uma semaninha fora), não vou ligar porque
ele não é tudo isso (e não por medo de ouvir um não).
A vida é povoada de nãos, de medos, de riscos. E sair da
zona de conforto é trabalhoso. Custa coragem, custa tentativa,
custa alguns erros, alguns empregos, alguns relacionamentos,
algumas certezas. Mas a zona de conforto, frequente e
ironicamente, é bastante desagradável. É o trabalho das 8h às
18h. O trânsito na ida e na volta. É a mesma comida, a mesma
coisa na televisão. O mesmo domingo, as mesmas queixas. A
zona de conforto está lá, nos cozinhando em banho-maria,
matando os nossos dias devagarzinho, acinzentando nossos
hábitos.
Não tem jeito: se a gente não fizer mais do que costuma
e sabe fazer, a vida vai ficar sempre igual. Se a gente não se
meter em umas encrencas, não se colocar em certos desafios,
não jogar meia dúzia de coisas pro alto, a vida nunca vai ficar
mais vida do que ela é.
Adoro o Po, do Kung Fu Panda, porque ele é exatamente
isso. Ele se sente extremamente inapto para os desafios que a
vida lhe impôs - não sabe lutar, não sabe treinar, não se sente à
ea
vontade naquele ambiente, preferia ficar comendo, sentado num
cantinho- mas sabe que precisa encarar. E sabe que, de um jeito
ou de outro, tudo vai dar certo.
Eu me sinto como o Po em muitas esferas da vida. Um
certo sentimento de inadaptação. De não saber se sou capaz. E
assim toda quarta-feira com o blog, dá medo. Foi assim quando
tive que escrever o primeiro livro. Quando entrei no mestrado.
Quando advogo em causas grandes. Quando mudei de país.
Quando entrei no doutorado. Mas a gente tem que acreditar. Tem
que pegar os desafios pelo chifre, rir da zona de conforto e seguir
em frente.
E não há sensação melhor do que conseguir. As vezes
com maestria, às vezes com uma certa mediocridade, mas
conseguir. E mesmo nas vezes em que a gente não consegue...
Tentar também faz muito sentido. Faz sentido sair do raso, do
previsível, do seguro (que morre de velho ou morre de chato).
Faz sentido abrir a janela, abrir a porta, colocar a cara no
sol. Porque a vida tá lá fora. E ficar sempre aqui dentro é uma
escolha. Uma escolha triste, mas possível e até bastante
confortável. Esse é o perigo.
(Manus, Ruth. Um dia ainda vamos rir de tudo isso. Rio de Janeiro:
Sextante, 2018. p.147/148)
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