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Q3367951 Português
Por que ler os Clássicos?


Em tons de poesia, Ítalo Calvino afirma que “chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs”. Um talismã é uma forma de nos religar com aquilo que nos ultrapassa e do qual queremos, em alguma medida, um auxílio, uma proteção, uma luz qualquer. E, no ritual da leitura, ele se oferece como um parceiro de diálogo profundo, com o qual podemos manter uma relação de proximidade porque nos acalenta, “entende-nos”, ou até mesmo nos consola nos momentos de agruras espirituais.


Um clássico é uma segunda vida, que nos revela outras cores, outras complexidades, outras experiências de mundo. Embora “falsas”, “fictícias”, “meramente imaginárias”, elas nos mostram em que medida nossas próprias vivências estão tão indissociavelmente unidas a todas as outras que nos cercam; por meio delas também constituímos uma transição inconsútil entre nós e tudo aquilo que não somos, mas que nos ajuda a significar nossas circunstâncias. Se isto nos for possível de estabelecer, então os clássicos seguirão cumprindo seus papéis, porque com eles aprendemos a compreender o mundo por uma lógica não cartesiana, como bem nos colocou Pamuk, na obra O romancista ingênuo e o sentimental. E esta lição, acredito, é aquela que levaremos por toda a vida.


Ler um clássico não se trata de uma relação amorosa superficial, mas aquela que exige uma grande dedicação, um constante empenho de nossa parte para que tudo aquilo que ela pode oferecer seja por nós alcançado, sem deixar sempre de abrir uma nova porta, provocar uma outra resposta, testar-nos enquanto estivermos vivos e dispostos a voltar a ele. É isto que torna um clássico o “meu” clássico. É isso que elevam livros a clássicos. Nunca fico a eles indiferentes, porque servem para nos definir, ampliando o nosso conhecimento acerca de nós mesmos, das outras pessoas e das coisas do mundo.


Texto Adaptado de: OLIVEIRA, L. Por que ler os clássicos? Revisitando uma “velha” pergunta. In: CARVALHO, M. A. F; CARVALHO- BELINI, R. G. Caminhos da Leitura: percursos colaborativos. Curitiba: Appris, 2002. 
A respeito das relações de referência intratextual, da articulação oracional e do estatuto morfossintático e semântico de itens lexicais, analise as proposições seguintes:


I – O sintagma “nos momentos de agruras espirituais [...]” (primeiro parágrafo) funciona como expressão indicativa de tempo, desempenhando o papel de um adjunto adverbial de tempo.


II – O conectivo “mas”, no segmento [...] mas que nos ajuda a significar nossas circunstâncias. (2º parágrafo), corresponde a uma conjunção coordenativa que expressa relação semântica de oposição, adversidade.


III – O conectivo “se”, no segmento “Se isto nos for possível de estabelecer, então os clássicos seguirão cumprindo seus papéis [...] (2º parágrafo), corresponde a uma conjunção coordenativa que estabelece o sentido de causa necessária para o fato enunciado.


IV – Os pronomes “elas” e “outras”, nos segmentos “elas nos mostram” e “unidas a todas as outras que nos cercam” (2º parágrafo), estabelecem relações referenciais anafóricas e retomam expressões apresentadas no texto, evitando repetição desnecessária.


É CORRETO o que se afirma em:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: A decisão depende de identificar, no texto, o valor sintático-semântico dos elementos destacados: “nos momentos de agruras espirituais” tem valor temporal e funciona como adjunto adverbial; “mas” expressa oposição no interior da oração adjetiva; “se” introduz condição, com subordinação condicional, e não coordenação nem causa; e “elas”/“outras” realizam retomada anafórica de referentes já apresentados. Assim, I, II e IV são verdadeiras, e III é falsa, o que leva ao gabarito C.

Tema central: sintaxe e referenciação
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque exclui o item IV, que está correto. Em “elas nos mostram” e “unidas a todas as outras que nos cercam”, os termos destacados retomam elementos já apresentados no texto, realizando referenciação anafórica intratextual.
B
Errada
Está errada porque exclui o item I, que está correto. O sintagma “nos momentos de agruras espirituais” expressa circunstância temporal ligada ao verbo, funcionando como adjunto adverbial de tempo.
C
Certa
A alternativa C é a única que reúne exatamente os itens compatíveis com o funcionamento linguístico do texto. Em I, “nos momentos de agruras espirituais” indica quando ocorre a ação, portanto é adjunto adverbial de tempo. Em II, “mas” introduz contraste em “não somos, mas que nos ajuda”, com valor adversativo. Em IV, há coesão referencial anafórica: “elas” retoma elementos já apresentados no texto, e “outras”, em “todas as outras”, retoma referente anterior, mantendo a progressão textual. O item III fica de fora porque erra ao dizer que “se” é conjunção coordenativa e causal; no trecho, ele introduz uma condição para a consequência enunciada na oração principal.
D
Errada
Está errada por dois motivos: inclui o item III, que é falso, e exclui o item IV, que é verdadeiro. Em “Se isto nos for possível de estabelecer, então os clássicos seguirão cumprindo seus papéis”, “se” não é conjunção coordenativa nem exprime causa; é conjunção subordinativa condicional, introduzindo hipótese/condição.
E
Errada
Está errada porque considera verdadeiro o item III. O erro desse item é objetivo: o conectivo “se” no trecho citado estabelece condição, não causa, e sua classificação sintática é de conjunção subordinativa condicional, não de conjunção coordenativa.
Pegadinha da questão
A banca explorou a confusão entre causa e condição e, junto com isso, a classificação indevida de “se” como conjunção coordenativa apenas porque duas orações aparecem articuladas. Também exigiu perceber que “outras” pode retomar termo anterior por elipse.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o termo indicar quando a ação ocorre, trate-o como valor temporal e verifique se funciona como adjunto adverbial.
  • Não classifique conectivo pelo efeito vago de ligação entre orações; observe se há coordenação ou subordinação e qual relação semântica efetiva ele estabelece.
  • Em estruturas com “se..., então...”, teste primeiro a leitura de hipótese/condição antes de aceitar causa.
  • Na referenciação, verifique se o termo evita repetição retomando elemento anterior, mesmo quando o núcleo aparece elíptico.

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