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Q4111527 Português
Relação conturbada

Embarco com muitas dúvidas. Não sei direito quem são essas pessoas que vou ver; sei seus nomes, de onde as conheço, e tenho uma imagem vaga de alguns deles, mas não sei como são nem como vou chegar até eles. Tudo que sei é que tenho oito horas e uma cadeira para pensar sobre isso.

Por oito horas o mundo se torna aquela poltrona. Você tenta se distrair, mas, no fim, é ela quem rouba sua atenção. Mesmo sentado, quase sem se mover, o corpo definha: a postura trava, o pescoço endurece, a espinha se desconcerta, os músculos enrijecem. De tempos em tempos você tenta esticar as pernas, preso num minúsculo cativeiro. Quem diria que ficar sentado cansa?

Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum. Três horas de ônibus já bastam para vilanizar a cadeira: vibração constante, nervos amortecidos, a memória chacoalhada. Perguntas se sentam e empedram: Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?

Desta vez o ônibus é diferente; a viagem, mais longa; a cadeira, mais abusada. Estou indo para uma terra desconhecida ver gente que não vejo há uns seis, sete anos. Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família. Alguns caminhos são mais tortuosos que outros — e umas cadeiras, mais macias que outras. Mas não essa. Oito horas depois, me sinto carne moída. Não aguento mais ficar sentado.

Texto Adaptado

SALMAR, Ian. Relação conturbada. In: Portal de Livros Abertos da USP. São Paulo: Universidade de São Paulo, [s.d.]. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/1 512/1378/5380 . Acesso em: 16 nov. 2025.
Com base no texto apresentado, analise as assertivas abaixo e assinale a alternativa que contém a interpretação coerente com o sentido global do texto, considerando a construção subjetiva do enunciador e os mecanismos de coesão e coerência empregados na narrativa.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é interpretativo-textual: o texto articula o desgaste da viagem com o sentimento de não pertencimento explicitado em “Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum.” Essa formulação fixa o eixo do sentido global e valida a leitura da alternativa B, que reconhece o estranhamento identitário sem reduzi-lo a mero desconforto físico.

Tema central: não pertencimento na viagem
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra ao afirmar compensação pelo reencontro familiar e “tom otimista”. O texto se abre com incerteza e estranhamento — “Embarco com muitas dúvidas. Não sei direito quem são essas pessoas que vou ver;” — e se desenvolve com fadiga, desconforto e conflito identitário. A ida para ver a família não produz sentido de compensação afetiva no texto.
B
Certa
A alternativa B está correta porque identifica a combinação central do texto: linguagem introspectiva e imagética, deslocamento espacial e temporal, e intensificação do estranhamento identitário. O narrador não descreve apenas uma viagem cansativa; ele a apresenta como experiência de desenraizamento, o que se confirma em “pertencer a lugar algum” e em “Estou indo para uma terra desconhecida ver gente que não vejo há uns seis, sete anos.” Assim, B é a única que preserva esse eixo sem reduzir o texto ao corpo nem exagerar o conflito afetivo.
C
Errada
A alternativa extrapola ao falar em não reconhecimento dos vínculos familiares e “rompimento definitivo”. O texto mostra distanciamento e estranhamento, mas bloqueia essa conclusão ao afirmar: “Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família.” O conector “mas” seguido de “ainda assim” preserva o vínculo, mesmo sob tensão.
D
Errada
A alternativa erra ao caracterizar o sujeito como inerte e resignado. A imobilidade corporal imposta pela cadeira não corresponde a passividade subjetiva: o narrador está internamente agitado, formulando perguntas e avaliando sua relação com origem e vínculos — “Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?”. Há inquietação reflexiva, não aceitação conformada.
Pegadinha da questão
A banca opõe imobilidade física e agitação subjetiva: quem reduz o texto ao desconforto corporal ou ao tema da família cai em leitura falsa, porque o eixo central está no não pertencimento explicitado pelo próprio narrador.
Dica para questões semelhantes
  • Procure o trecho em que o narrador explicita sua condição interior; aqui, “pertencer a lugar algum” fixa o eixo interpretativo.
  • Não transforme distanciamento em ruptura definitiva se o texto preserva o vínculo por marcas semânticas claras, como “mas ainda assim é família”.
  • Diferencie desconforto físico de sentido global: no texto, o corpo sofre, mas esse sofrimento está articulado a conflito identitário e afetivo.

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