A universidade do WhatsApp e seus doutores honorários
Há instituições que levam séculos para consolidar
prestígio. Erguem bibliotecas, formam quadros, publicam
pesquisas, sustentam debates, revisam conclusões, aceitam
objeções e, com algum pudor, chamam de conhecimento
aquilo que sobrevive ao teste do tempo, da crítica e da
evidência. Já a universidade do WhatsApp resolveu encurtar
caminho. Seu campus cabe no bolso, seu vestibular consiste
em entrar num grupo e sua titulação é concedida em ritmo
admiravelmente generoso: basta encaminhar com convicção.
10. Ali, ninguém perde tempo com metodologia, bibliografia
ou dúvida honesta. A dúvida, naquela república de certezas
instantâneas, é vista quase como um desvio de caráter. O
verdadeiro aluno aplicado não pergunta “de onde veio isso?”,
mas “para quantas pessoas posso mandar antes do almoço?”.
E o verdadeiro mestre não se distingue pela consistência do
argumento, e sim pelo tom do áudio. Se fala pausado, com voz
grave e indignação calculada, já adquire a autoridade de um
catedrático. Se acrescenta a expressão “isso a mídia não
mostra”, alcança, sem concurso público, a condição de doutor
honorário.
21. Trata-se de uma instituição notável. Seu corpo docente é
formado por especialistas em tudo, desde vacinas até
geopolítica, passando por dieta, educação infantil, código
penal, mercado financeiro e escatologia de fim de semana. O
curioso é que essa erudição enciclopédica não nasce de anos
de estudo, mas de um fenômeno mais moderno e mais
econômico: a familiaridade. O sujeito ouviu três vídeos,
recebeu quatro artes com letras garrafais e, de repente, não
apenas possui opinião formada, como também passa a
considerar suspeita qualquer pessoa que tenha lido além da
conta.
32. Na universidade do WhatsApp, a velocidade substituiu a
verificação. Uma informação já não precisa ser sólida, basta
ser urgente. Se vier acompanhada de caixa alta, trilha de
alarme moral e uma promessa de segredo revelado, ganha
imediatamente o estatuto de tese. O que antes exigia fonte,
contexto e comparação agora se resolve com uma frase curta,
preferencialmente apocalíptica, seguida daquela chantagem
afetiva tão eficiente quanto intelectualmente desastrosa:
“repasse antes que apaguem”. O medo faz o serviço que a
razão recusaria fazer.
42. O mais intrigante, porém, não é a existência da
desinformação. Isso seria até banal. O mais intrigante é o
prestígio emocional que ela adquire. A mensagem falsa
raramente chega sozinha. Ela vem embrulhada em
pertencimento. Compartilhar certos conteúdos virou, para
muita gente, uma forma de identidade. Não se encaminha
apenas uma notícia duvidosa. Encaminha-se um modo de
estar no mundo, uma senha de grupo, uma medalha invisível
de quem acredita ter percebido o que os outros, pobres
mortais, ainda não viram. A vaidade, quando encontra
conexão estável e baixa autocrítica, torna-se uma plataforma
de transmissão.
54. Nesse ambiente, o conhecimento perde uma de suas
virtudes mais nobres: a humildade. O pesquisador sério sabe
que saber custa caro. Exige tempo, revisão, recuo, correção,
desapego à própria primeira impressão. Já o doutor honorário
do aplicativo opera segundo outra pedagogia: a da certeza
sem lastro. Ele não investiga para compreender. Conclui para
se sentir superior. E, uma vez instalado nesse pequeno trono
de convicções recicladas, passa a tratar o incômodo dos fatos
como se fosse perseguição.
63. O problema é que a mentira em escala industrial não
produz apenas equívocos. Produz consequências. Ela
desorganiza decisões, corrói a confiança pública, ridiculariza a
prudência e recompensa a performance da certeza. Aos
poucos, cria-se uma cultura em que estudar parece arrogância
e checar parece fraqueza. A ignorância, desde que
pronunciada com segurança, ganha aplauso de auditório.
70. Talvez por isso a lição mais urgente do nosso tempo seja
também uma das mais antigas: informação não vira verdade
por circular depressa, nem opinião ganha valor porque veio
acompanhada de intimidade digital. O primeiro sinal de
inteligência continua sendo a disposição de examinar,
comparar e, se necessário, dizer uma frase hoje quase
revolucionária: “não sei ainda”. Porque o antídoto contra a
universidade do WhatsApp não é decorar mais slogans. É
reaprender a difícil elegância de pensar antes de encaminhar.
Fonte: Banca Elaboradora
Quanto à estrutura e à formação das palavras presentes no
texto, assinale a alternativa correta.