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Q2250095 Português
A agressividade de todos nós

     Todos temos, em algum grau, tendência para comportamentos agressivos. Se os números mostram o quanto são raras as doenças que levam à agressividade extrema, os neurocientistas apresentam uma teoria estatisticamente muito mais provável para o desencadeamento da violência em pessoas aparentemente normais. Segundo o neurologista Renato Sabbatini, da Universidade Estadual de Campinas, cerca de dois terços do aprendizado humano derivam da interação social. “O cérebro nada mais é que um processador de dados que, por meio de comparações e identificações, assimila e adapta as atitudes repetidas no meio em que vivemos”, afirma. Ou seja: uma cena vista com muita freqüência, desde pequeno, leva a concluir que isso é certo, independentemente de a cena ser seu pai cometendo um delito ou sua mãe cuidando de crianças carentes.
     Renato explica, no entanto, que esse arcabouço de memória é colocado em xeque cada vez que somos confrontados com uma situação nova, desconfortável ou potencialmente perigosa. “Todos nós temos a violência entre o rol de respostas disponíveis em nosso banco de dados. Faz parte do nosso instinto de autopreservação. Diante de uma ofensa acionamos uma luta entre os estímulos que nos levam à agressão e as travas que detêm esses impulsos. São travas morais, éticas, afetivas e racionais. O importante é saber qual estímulo é capaz de ativar esse comportamento”, diz. A educação moral e os valores em que acreditamos podem conter esses rompantes. A afetividade também.
     A pressão do grupo social em que o indivíduo vive é outro fator importante para desempatar essa guerra interna de nervos. A necessidade de aceitação coletiva é muito mais efetiva nas decisões individuais do que imaginamos e pode, em situações-limite, predominar sobre qualquer mecanismo cerebral. Há essa necessidade primitiva, nos seres humanos, de serem aceitos pelos outros e se sentirem pertencentes a um grupo. Isso é tão essencial quanto alimentar-se, matar a sede ou dormir.

(Adaptado de Tatiana Bonumá. Revista Super Interessante, edição 184 , pp. 589. São Paulo: Abril, janeiro de 2003) 
Considere as seguintes afirmações:
I. Conforme o primeiro parágrafo, o testemunho da insistente repetição de qualquer fato pode ser absorvido pelo cérebro como uma lição a ser seguida.
II. Afirma-se, no segundo parágrafo, que todas as situações acionam, em nosso estoque de memórias, respostas previsíveis e imediatas.
III. Um dos controladores da nossa agressividade, conforme dispõe o terceiro parágrafo, é a conquista cultural e recente da necessidade de interação com os nossos semelhantes.
Em relação ao texto está correto SOMENTE o que se afirma em
Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: A resolução depende do confronto direto entre as afirmativas e os trechos do texto: “uma cena vista com muita freqüência, desde pequeno, leva a concluir que isso é certo” confirma a I; “esse arcabouço de memória é colocado em xeque cada vez que somos confrontados com uma situação nova, desconfortável ou potencialmente perigosa” invalida a II por restringir o caso descrito, não por abrangência geral; e “Há essa necessidade primitiva, nos seres humanos, de serem aceitos pelos outros” exclui a III, pois contraria a ideia de conquista cultural e recente. Assim, somente a I está correta.

Tema central: Confronto de afirmações
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque traz somente a afirmativa I, que parafraseia fielmente o primeiro parágrafo. O texto afirma que o cérebro “assimila e adapta as atitudes repetidas no meio em que vivemos” e que “uma cena vista com muita freqüência, desde pequeno, leva a concluir que isso é certo”. Portanto, a ideia de que a repetição insistente de um fato pode ser absorvida pelo cérebro como modelo de conduta está de acordo com o texto.
B
Errada
A alternativa está errada porque valida a II, que distorce o segundo parágrafo em dois pontos objetivos. Primeiro, troca a restrição do texto por uma universalização indevida: o texto fala em “uma situação nova, desconfortável ou potencialmente perigosa”, não em todas as situações. Segundo, acrescenta que as respostas seriam “previsíveis e imediatas”, mas o texto diz o contrário ao afirmar que, diante de uma ofensa, “acionamos uma luta entre os estímulos que nos levam à agressão e as travas que detêm esses impulsos”. Há conflito interno, não automatismo previsível e imediato.
C
Errada
A alternativa está errada porque valida a III, incompatível com o terceiro parágrafo. O texto afirma: “Há essa necessidade primitiva, nos seres humanos, de serem aceitos pelos outros”. A expressão “necessidade primitiva” contradiz diretamente a formulação “conquista cultural e recente”. O texto apresenta essa busca de aceitação como traço básico da condição humana, não como aquisição histórica recente.
D
Errada
A alternativa está errada porque reúne I e II. A I é compatível com o primeiro parágrafo, mas a II é falsa pelos motivos textuais já marcados: universaliza indevidamente o alcance das situações e altera o modo de funcionamento descrito no texto, que é de tensão entre impulsos e travas, não de resposta previsível e imediata. Como uma das duas afirmações é incorreta, a combinação toda cai.
E
Errada
A alternativa está errada porque reúne II e III, e ambas contrariam o texto. A II deforma o segundo parágrafo ao falar em “todas as situações” e em respostas “previsíveis e imediatas”. A III deforma o terceiro ao substituir “necessidade primitiva” por “conquista cultural e recente”. Não há base textual para sustentar nenhuma das duas.
Pegadinha da questão
A banca explorou três confusões reais: aceitar uma paráfrase apenas porque parece próxima do texto, sem verificar se houve universalização indevida em II; aceitar acréscimo não dito no texto, como “previsíveis e imediatas”; e trocar o valor semântico de “primitiva” por “cultural e recente” em III.
Dica para questões semelhantes
  • Compare cada afirmação com o trecho exato do texto e desconfie de palavras que ampliam o alcance original, como “todas”, “sempre” e “qualquer”.
  • Elimine a alternativa quando ela acrescentar traços não afirmados pelo texto, mesmo que o tema geral pareça coincidir.
  • Em interpretação, uma paráfrase correta preserva o núcleo do sentido; já a troca de um qualificativo decisivo, como “primitiva”, muda a resposta.

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I - Ou seja: uma cena vista com muita freqüência, desde pequeno, leva a concluir que isso é certo, independentemente de a cena ser seu pai cometendo um delito ou sua mãe cuidando de crianças carentes

Gabarito A

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