Naturalmente, por culpa desses engenhos clandestinos
que gregos e troianos estão atirando ao espaço, as estações
se equivocaram, e o inverno, de barbas brancas, insiste com
a primavera em que o seu tempo ainda não passou, enquanto a primavera, com suas coroas desmanchadas, vê
avançar o verão, de roupas de fogo, e não sabe o que fazer
de flores e pássaros.
As estações perplexas, mas bem‐educadas, apresentam suas razões com bons modos, não por desejarem estar
no cartaz, mas pela disciplina do próprio ofício. Elas, antigamente, executavam suas danças com grande acerto e,
enquanto uma andava no primeiro plano, com seus véus e
outros acessórios, as outras, com muita elegância, evoluíam
em planos sucessivos, esperando o momento de se apresentarem, com todo o seu brilho e poder.
Mas com os tais engenhos que perfuram o espaço,
embora tão miseráveis, em relação ao universo como um
espinho no pé de um elefante, creio que sempre há distúrbios: e só assim me parece explicável que neste mês de
novembro possamos ainda trazer roupas de lã.
Pelo jardim há numerosos estragos. As plantas andam
meio loucas: gardênias, que costumam desabrochar em
dezembro, abriram repentinamente em outubro e agora
estão secas e caem melancolicamente, querendo ainda conservar o perfume e o aveludado nas pétalas queimadas.
Qualquer flor que aparece, por saber que estamos na primavera, vem o vento e a desfolha, vem o frio e a faz murchar,
vem a chuva e arrasta‐a para o chão. Que aconteceu? Pensam as flores. (Sim, porque as flores pensam.) E logo desaparecem, tristes. (Porque as flores também entristecem).
Quanto aos passarinhos, nesta região de sabiás e pardais, pintassilgos e cambaxirras, nesta região onde, o dia inteiro, o ar está cheio de pios, de cantos, de lamentos, de beijinhos d’água e risadinhas verdes e azuis, os passarinhos não
sabem mais onde fazer seus ninhos e, por acharem tão fria
esta primavera, abandonam as árvores de ar condicionado e
metem‐se pelo vão das telhas e pelos canos dos aquecedores.
Quanto aos pobres humanos, uns andam com gripes
invernais muito prolongadas, outros não sabem o que fazer
do seu belo guarda‐roupa de verão. Todas as manhãs, olha-se
para o céu: onde estamos? Na Holanda? Em Paris? Na Suíça?
Vem o vento ríspido misturar os nossos papéis, sacudir as
trepadeiras, estremecer as portas e distribuir lumbagos e
torcicolos. A lama respinga por toda a parte. Nunca se sabe
se o pé vai entrar numa poça ou num bueiro... E a primavera,
primadona, espera no seu camarim, um pouco rouca, enquanto gregos e troianos jogam para o alto seus engenhos,
que valem palácios, museus, hospitais, universidades, teatros, pacíficas habitações terrenas que seriam felizes com
um pouco de graça e amor.
(Cecília Meireles. Crônicas para jovens; seleção, prefácio e notas
biobibliográficas. Antonieta Cunha. São Paulo: Global, 2012. Adaptado.)
Considerando que a língua é um “potencial de significado”
e, neste caso particular, há entre os falantes uma troca e
uma negociação do significado a partir de “uma coleção
harmoniosa de significados apropriados ao seu contexto,
com um objetivo comunicativo”, no excerto “As plantas
andam meio loucas: gardênias, que costumam desabrochar em dezembro, abriram repentinamente em outubro
(...)” (4º§), o termo “repentinamente” significa:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Veja esse conteúdo explicado passo a passo em nossos cursos. Buscar curso
teste
Parabéns! Você acertou!
Mandou bem! Revise esse tema nos nossos cursos. Buscar curso