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Q39588 Português
A arte de não fazer nada

Dizem-me que mais da metade da humanidade se
dedica à prática dessa arte; mas eu, que apenas recente e
provisoriamente a estou experimentando, discordo um pouco
dessa afirmativa. Não existe tal quantidade de gente
completamente inativa: o que acontece é estar essa gente
interessada em atividades exclusivamente pessoais, sem
consequências úteis para o resto do mundo.

Aqui me encontro num excelente posto de observação: o
lago, em frente à janela, está sendo percorrido pelos botes
vermelhos em que mesmo a pessoa que vai remando parece
não estar fazendo nada. Mas o que verdadeiramente está
acontecendo, nós, espectadores, não sabemos: cada um pode
estar vivendo o seu drama ou o seu romance, o que já é fazer
alguma coisa, embora tais vivências em nada nos afetem.

E não posso dizer que não estejam fazendo nada
aqueles que passam a cavalo, subindo e descendo ladeiras,
atentos ao trote ou ao galope do animal.

Há homens longamente parados a olhar os patos na
água. Esses, dir-se-ia que não fazem mesmo absolutamente
nada: chapeuzinho de palha, cigarro na boca, ali se deixam
ficar, como sem passado nem futuro, unicamente reduzidos
àquela contemplação. Mas quem sabe a lição que estão
recebendo dos patos, desse viver anfíbio, desse destino de
navegar com remos próprios, dessa obediência de seguirem
todos juntos, enfileirados, para a noite que conhecem, no
pequeno bosque arredondado? Pode ser um grande trabalho
interior, o desses homens simples, aparentemente desocupados,
à beira de um lago tranquilo. De muitas experiências
contemplativas se constrói a sabedoria, como a poesia. E não
sabemos ? nem eles mesmos sabem ? se este homem não vai
aplicar um dia o que neste momento aprende, calado e quieto,
como se não estivesse fazendo nada, absolutamente nada.

(Cecília Meireles, O que se diz e o que se entende)

Está adequado o emprego do elemento sublinhado em:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: A questão cobra o emprego de pronome relativo com a preposição exigida pela regência da oração subordinada. Em "devotar-se", a regência é "devotar-se a", de modo que, no trecho decisivo da alternativa A, cabe "à qual"; por isso, ela é a única construção adequada.

Tema central: regência do pronome relativo
Análise das alternativas
A
Certa
Na alternativa A, o pronome relativo retoma corretamente o antecedente feminino singular e vem antecedido da preposição exigida pelo verbo da oração relativa: "devotar-se a algo". Assim, "à qual" está adequado. A correção decorre da compatibilidade entre antecedente, relativo e regência verbal.
B
Errada
Está incorreta por regência verbal inadequada. Em "da qual muita gente se insurge", o relativo deveria vir com a preposição exigida por "insurgir-se": "contra a qual". O erro está na preposição associada ao relativo.
C
Errada
Está incorreta porque "cujo" exige relação de posse entre antecedente e termo subsequente, sem essa construção intermediária. Em "de cuja muita gente é praticante e entusiasta", a estrutura não satisfaz esse uso do relativo.
D
Errada
Está incorreta pela estrutura relativa inadequada. Em "da qual a autora mostra bem compreender", a preposição "de" não se ajusta à construção efetiva analisada, já que o relativo deveria ser introduzido de modo compatível com a regência da sequência verbal. O problema está no emprego do relativo preposicionado.
E
Errada
Está incorreta por regência verbal inadequada. Em "com a qual poucos respeitam", o verbo "respeitar" é transitivo direto e não admite essa preposição; por isso, a forma com "com" está errada.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de escolher pela aparência formal ou pelo sentido geral da frase, quando o comando restringe a análise ao elemento sublinhado. O critério real é a preposição exigida pelo verbo dentro da oração relativa.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique primeiro qual verbo ou nome rege o pronome relativo na oração subordinada e só depois escolha a preposição.
  • Não decida pela ideia geral da alternativa: aqui, a correção depende da estrutura morfossintática do trecho sublinhado.
  • Não trate "cujo" como sinônimo de "o qual" ou "da qual"; ele só cabe quando houver relação de posse entre dois nomes.

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Comentários

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a) A prática da arte de não fazer nada, a(artigo)qual + muita gente se devota a(preposição). A prática da arte de não fazer nada, à qual muita gente se devota, é valorizada pela autora.

Quanto às erradas:

b) A arte de não fazer nada, CONTRA A QUAL muita gente se insurge, costuma ser mal compreendida.Muita gente se insurge CONTRA A arte de não fazer nada.

c) Inútil querer combater a arte de não fazer nada, DA QUAL muita gente é praticante e entusiasta.

Muita gente é praticante e entusiasta DA arte de não fazer nada

d) Não se imagine que a arte de não fazer nada, A QUAL a autora mostra bem compreender, deva justificar a mera preguiça ou indolência.

A autora mostra bem compreender A arte de não fazer nada

e) É na arte de não fazer nada, A QUAL poucos respeitam, que muito gênio acabou encontrando inspiração para suas descobertas.

Poucos respeitam A arte de não fazer nada

OBS: Vejam que "qual" = arte de não fazer nada.

a-

quem se devota, se devota a alguma. A prep 'a', ao encontrar 'a' artigo, resulta em crase, conforme resposta à questao

antes de pronome crase nao passava fome

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