"Nem todas as concepções de fim material do mundo terão a m...
Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Ano: 2023
Banca:
JCM CONCURSOS
Órgão:
Prefeitura de Carrancas - MG
Prova:
JCM CONCURSOS - 2023 - Prefeitura de Carrancas - MG - Cirurgião Dentista ESF |
Q3707940
Português
Texto associado
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
FIM DO MUNDO
Carlos Drummond de Andrade
Não se sabe ainda se o mundo acabou realmente no
sábado, como fora anunciado. Pode ser que sim, e não
seria a primeira vez que isso acontece. A falta de sinais
estrondosos e visíveis não é prova bastante da
continuação. Muitas vezes o mundo acaba em silêncio,
ou fazendo um barulho leve de folha. Tempos depois é
que se percebe, mas já estamos vivendo em outro
mundo, com sua estrutura e seus regulamentos próprios,
e ninguém leva lenço aos olhos pelo falecido.
O mundo primitivo dos répteis, o mundo neolítico, o
egípcio, o persa, o grego, o romano, o maia... todos
esses acabaram, e muitos outros ainda. A história é
cemitério de mundos, notando-se que uns tantos
acabaram de morte tão acabada que nem sequer
figuram lá com uma tabuleta; não se sabe que fim
levaram as cinzas.
Pessoas que aí estão vivas assistiram à morte do mundo
em agosto de 1914, mas estavam lendo jornal e não
compreenderam no momento. Era apenas mais uma
guerra na Europa, mas acabou com a belle époque, a
douceur de vivre, a respeitabilidade vitoriana, o franco, a
supremacia da libra, os suspensórios, o rapé, os
conceitos econômicos, políticos e éticos do século XIX − mundo que parecia eterno. Pedaços dele andam por aí,
vagando, como o colonialismo, a opressão de grupos
financeiros, a servidão civil da mulher, mas pertencem a
um contexto liquidado, rabo de lagartixa vibrando depois
que o corpo foi abatido.
(...)
Aos sete anos de idade imaginei que ia presenciar a
morte do mundo, ou antes, que morreria com ele. Um
cometa mal-humorado visitava o espaço. Em certo dia de
1910, sua cauda tocaria a Terra; não haveria mais aula
de aritmética, nem missa de domingo, nem obediência
aos mais velhos. Essas perspectivas eram boas. Mas
também não haveria mais geleia, Tico-Tico, a árvore de
moedas que um padrinho surrealista preparava para o
afilhado que ia visitá-lo. Ideias que aborreciam. Havia
ainda a angústia da morte, o tranco final, com a cidade
inteira (e a cidade, para o menino, era o mundo) se
despedaçando − mas isso, afinal, seria um espetáculo.
Preparei-me para morrer, com terror e curiosidade.
O que aconteceu à noite foi maravilhoso. O cometa
Halley apareceu mais nítido, mais denso de luz e
airosamente deslizou sobre nossas cabeças sem dar
confiança de exterminar-nos. No ar frio, o véu dourado
baixou ao vale, tornando irreal o contorno dos sobrados,
da igreja, das montanhas. Saíamos para a rua banhados
de ouro, magníficos e esquecidos da morte, que não
houve. Nunca mais houve cometa igual, assim terrível,
desdenhoso e belo. (...)
Nem todas as concepções de fim material do mundo
terão a magnificência desta que liga a desintegração da
Terra ao choque com a cabeleira luminosa de um astro.
Concepção antiquada, concordo. Admitia a liquidação do
nosso planeta como uma tragédia cósmica que o homem
não tinha poder de evitar. Hoje, o excitante é imaginar a
possibilidade dessa destruição por obra e graça do
homem. A Terra e os cometas devem ter medo de nós.
(Fonte: A bolsa e a vida. Rio de Janeiro: Record, 2008.)
"Nem todas as concepções de fim material do mundo
terão a magnificência desta que liga a desintegração
da Terra ao choque com a cabeleira luminosa de um
astro."
As palavras destacadas no trecho acima, na mesma ordem em que se encontram, são SINÔNIMAS de
As palavras destacadas no trecho acima, na mesma ordem em que se encontram, são SINÔNIMAS de