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Q2346873 Português
TENTAÇÃO


(1º§) Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva. Na rua vazia, vibravam as pedras de calor − a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão.


(2º§) Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos. Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú.


(3º§) A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo. Lá vinha ele trotando, à frente da sua dona, arrastando o seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro. A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.


(4º§) Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria.


(5º§) Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo. Os pelos de ambos eram curtos, vermelhos. Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.


(6º§) No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos − lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes do Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, talvez cedendo à gravidade com que se pediam.


(7º§) Mas ambos eram comprometidos. Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada. A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo.


(8º§) Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina. Mas ele foi mais forte do que ela. Nem uma só vez olhou para trás.


*Glossário: "basset" é um termo de origem francesa "bas" que significa "baixo" ou "anão".

(Clarice Lispector. Escritora brasileira) -

(armazemdetexto.blogspot.com)
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Gabarito: A

Tema central: A questão avalia domínio sobre ortografia/accentuação, colocação pronominal, elipse, semântica e formação de gênero, exigindo conhecimentos normativos e de compreensão textual.

Análise da alternativa incorreta (A):

A alternativa A está INCORRETA pois apresenta erros conceituais:
Ortografia/Acentuação: O til (~) indica nasalização das vogais “a” e “o”, mas não determina a tonicidade como oxítona ou a existência de duas vogais nasalizadas na mesma sílaba.
Exemplo: Em “não”, há apenas um monossílabo tônico com o “a” nasalizado. Em “comunicação”, apenas o “a” final está nasalizado; a palavra é paroxítona (comu-ni-ca-ÇÃO), e não oxítona.
Portanto, a explicação dada está em desacordo com a norma-padrão. Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), o til “apenas indica nasalização” e não interfere em regras de tonicidade.

Análise das alternativas corretas:

B) Correta. Ênclise ocorre com o pronome oblíquo “nos” após o verbo: Olhamo-nos (conforme Cunha & Cintra).

C) Correta. Elipse da forma verbal subentendida: “Ninguém [estava] na rua”. Recurso típico de economia sintática (Rocha Lima).

D) Correta. “Morenos” e “ruiva” são adjetivos que denotam características físicas externas, objetivas, sem juízo de valor, portanto incontestáveis.

E) Correta. Heteronímia se refere a nomes de gêneros com raízes diferentes: homem/mulher, conforme classificação morfológica tradicional.

Estratégia de resolução:
Destaco como fundamental:

  • Analisar cuidadosamente os conceitos gramaticais envolvidos;
  • Atentar-se a termos-chave (como “oxítona”, “duas vogais nasalizadas”, “ênclise”, etc.) para evitar pegadinhas;
  • Sempre revisitar a norma culta e as gramáticas de referência para dúvidas conceituais.

Referências: Bechara, E.; Cunha & Cintra; Rocha Lima. Essas obras explicam com clareza sobre acentuação, pronominalização, omissão verbal e formação de gênero.

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Comentários

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apenas uma vogal nasalizada, no caso, a vogal "a" nas sílabas "não" e "ção"

a palavrão NÃO é classificada como monossílaba tônica. O til é sinal de nasalização e não acentuação gráfica de tonicidade.

Incorreta, lembre-se disso!!!

Os termos: "morenos " e "ruiva" enunciam características físicas objetivas, externas, portanto, incontestáveis.

Beeem questionável.

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