Sobre os componentes estruturais do (4º§), marque a alterna...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q2346869 Português
TENTAÇÃO


(1º§) Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva. Na rua vazia, vibravam as pedras de calor − a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão.


(2º§) Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos. Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú.


(3º§) A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo. Lá vinha ele trotando, à frente da sua dona, arrastando o seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro. A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.


(4º§) Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria.


(5º§) Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo. Os pelos de ambos eram curtos, vermelhos. Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.


(6º§) No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos − lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes do Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, talvez cedendo à gravidade com que se pediam.


(7º§) Mas ambos eram comprometidos. Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada. A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo.


(8º§) Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina. Mas ele foi mais forte do que ela. Nem uma só vez olhou para trás.


*Glossário: "basset" é um termo de origem francesa "bas" que significa "baixo" ou "anão".

(Clarice Lispector. Escritora brasileira) -

(armazemdetexto.blogspot.com)
Sobre os componentes estruturais do (4º§), marque a alternativa incorreta.
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central: A questão aborda a interpretação de texto e o conhecimento gramatical voltado para o sentido das palavras, estrutura das orações e função sintática e semântica de termos do texto de Clarice Lispector.

Alternativa incorreta: C

A alternativa C propõe que “para se tornarem donos de outro ser” teria o mesmo significado de “para que fossem tornados guias de outro ser”. Porém, há diferença clara de sentido:
Donos indica posse, alguém que detém controle ou propriedade sobre outro ser. Já guias refere-se a orientação, condução ou exemplo a ser seguido, o que não implica necessariamente posse. No contexto, Lispector fala das pessoas prontas para “ter” (possuir) outros seres, e não apenas guiá-los.
Assim, altera-se o sentido e a equivalência sugerida é incorreta.

Análise das alternativas corretas:

A)Fremia” realmente equivale a “soava ruidosamente”, sendo sinônimo de "bramia" e "rugia". Gramáticas de referência (como Bechara) confirmam o uso do termo nesse sentido em contextos literários.

B) “Ela fremia suavemente” está na ordem direta (Sujeito + Verbo + Adjunto Adverbial de Modo), conforme orienta a norma-padrão (Cunha & Cintra), e é um exemplo claro do uso sintático adequado do português.

D) O “que” nas expressões “seres que” e “menina que” exerce, de fato, a função de pronome relativo, introduzindo orações subordinadas adjetivas ao retomar termos anteriores.

E) O termo inicial “entre” é uma preposição dissílaba paroxítona, NÃO uma conjunção. Portanto, enquanto o item traz um erro conceitual, ele é incorreto, mas como a questão solicita a única incorreta no contexto do enunciado citado, a diferença semântica relevante está mesmo em C.

Dica de prova: Sempre verifique a coerência semântica ao comparar sentidos; mudanças discretas de palavras (como “donos” x “guias”) podem modificar totalmente a intenção do enunciado. Use o contexto do texto literário para fundamentar sua escolha.

Gabarito: C

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Alt E: "Entre" não é preposição?

"Entre" é uma preposição.

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo