Desde seu estágio, envolveu-se com seus pequenos pacientes, ...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q2249876 Português
Vocações

     Na época do vestibular, minha sobrinha resolveu optar pelo curso de Enfermagem. – Por que não Medicina? – foi a infalível pergunta de muitos parentes e amigos. Moça paciente, explicou que não queria ser médica, queria ser enfermeira. Formou-se com brilho, fez proveitoso e bem sucedido estágio e hoje trabalha em um grande hospital de São Paulo. Mas ainda tem, vez ou outra, de explicar por que não preferiu ser médica.
     Muita gente não leva a sério essa tal de vocação. Ela levou. Poderia ter entrado, sim, no curso de Medicina: sua pontuação no vestibular deixou isso claro. Mas alguma coisa dentro dela deve ter-lhe dito: serei uma ótima enfermeira. E assim foi. Confesso que a admiro por ter seguido essa voz interior que nos chama para este caminho, e não para aquele. Poucas pessoas têm tal discernimento quanto ao que efetivamente querem ser. Em geral são desviadas dessa voz porque acabam cumprindo expectativas já prontas, mais convencionais. Calculam as vantagens, pecuniárias ou relativas ao status, fazem contas, avaliam “objetivamente” as opções e acabam decidindo pelo que parece ser o mais óbvio. Mas se esquecem, justamente, da mais óbvia pergunta: Serei feliz? É exatamente isso o que eu quero? Da falta desse fecundo momento de interrogação saem os profissionais burocráticos, sonolentos em seu ofício, vagamente conformados, que passam a levar a vida, em vez de vivê-la.
      Em meu último encontro com a sobrinha pude ver que ela está feliz. Faz exatamente o que gosta, leva a sério uma das mais exigentes profissões do mundo e se realiza a cada dia com ela. E vejam que atua numa especialidade das mais penosas: oncologia infantil. Desde seu estágio, envolveu-se com seus pequenos pacientes, por quem tem grande carinho. Tenho certeza de que eles encontram nela mais do que o apoio da profissional competente; vêem-na, certamente, como aquela irmã mais velha e indispensável nas horas difíceis.
     Quando nossa vocação real é atendida, o trabalho não enfada, não pesa como uma maldição. Cansativo que seja, sentimos que estamos no ofício que é nosso, que nos ocupamos com algo que nos diz respeito e que, em larga medida, nos define como sujeitos. Não é pouco; é quase tudo. É o que parece dizer o olhar franco, aberto e feliz dessa jovem enfermeira. Ela não trabalha “para” atingir algum objetivo, não trabalha “para” viver, “para” ganhar a vida. Trabalhando, ela já “é”. E isso não é invejável?

(Valentino Rodrigues)
Desde seu estágio, envolveu-se com seus pequenos pacientes, por quem tem grande carinho.
Estará formalmente correta a nova redação da frase acima, no caso de se substituírem os elementos sublinhados, respectivamente, por
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: E

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a possibilidade de reescrever a frase com manutenção da correção formal da regência, da relação entre antecedente e pronome relativo e da coerência semântica mínima. No trecho-base "Desde seu estágio, envolveu-se com seus pequenos pacientes, por quem tem grande carinho.", a alternativa correta é a que preserva esse encaixe sintático sem vício estrutural evidente no conjunto das opções.

Tema central: Regência e reescrita
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada por regência. A locução correta é "dedicar-se a", não "vem-se dedicando por". Além disso, "a quem tem muita atenção" não recompõe com precisão a estrutura de afeto de "por quem tem grande carinho".
B
Errada
A primeira parte é formalmente possível, mas a segunda falha na construção: "de quem tem muita dedicação" é inadequado, porque o encaixe esperado seria voltado a dedicar algo a alguém, não a "ter dedicação de alguém". Há impropriedade de regência e de modelagem semântica.
C
Errada
Há dois problemas. "Demonstra zelo a" traz regência inadequada para a expressão, e "de cujos trata com carinho" é estruturalmente incorreto, porque "cujo" exige um substantivo posterior expresso e não pode aparecer como simples substituto de "quem".
D
Errada
A expressão "tem tido apego para" está errada quanto à preposição; a construção formal é "apego a". Além disso, "a cujos dedica muito afeto" também é incorreta, porque "cujo" não pode aparecer sem substantivo subsequente nem substituir diretamente "quem".
E
Certa
A alternativa E é a correta porque é a única que permite uma reescrita formalmente defensável no contexto hospitalar. "Vem assistindo" mantém a ideia de continuidade desde o estágio e, no sentido de prestar assistência/cuidar, é aceitável no contexto da frase. A segunda parte, "com os quais é muito carinhosa", retoma adequadamente "seus pequenos pacientes" e recompõe a relação expressa no original por "por quem tem grande carinho". Assim, a estrutura se mantém gramaticalmente compatível com o enunciado.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre semelhança de sentido e correção formal: várias opções parecem aceitáveis por vocabulário próximo, mas caem por regência errada ou pelo uso sintaticamente inválido de "cujo".
Dica para questões semelhantes
  • Em reescrita, verifique primeiro a regência da expressão substituta; sinonímia não salva construção gramaticalmente defeituosa.
  • Se aparecer "cujo", confirme se há relação de posse e um substantivo imediatamente depois; sem isso, a construção está errada.
  • Quando houver pronome relativo, teste se ele retoma corretamente o antecedente dentro da nova estrutura sintática.
  • Se o comando pedir forma "formalmente correta", o critério central é norma-padrão da construção, não apenas aproximação de sentido.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Gabarito: E

vem assistindo - com os quais é muito carinhosa.

Letra E:

Lembrando os diferentes sentidos e regências do verbo "assistir":

Para "assistir" no sentido de ver, de telespectador, utiliza-se a preposição "a". Ex.: Gilberto assistiu ao jogo ontem no estádio do Maracanã.

Para "assistir" no sentido do texto (cuidar de um paciente), não há preposição. Ex.: A enfermeira assistiu a criança de forma compassiva. (nesse caso, o "a" é somente artigo, ok?)

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo